Infância roubada

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Olhinhos orientais pousaram em mim e calados, diziam muito. Não, minto. Não diziam, gritavam de forma desesperadora pedindo socorro e um pouco de atenção.

Sentindo a força daquele olhar, parei o que fazia e olhei para o balcão vendo aquela cabecinha lustrosa.

Perguntei se desejava algum livro. Tive o silêncio como resposta mas aquele olhar…

Levantei-me, cheguei mais perto e olhando-a nos olhos perguntei novamente: Precisa de algo? Pode falar. E arrematei minha fala com um sorriso aberto. Surtiu efeito.

De forma quase inaudível, ela balbuciou:

– Não sei quem devo obedecer. Minha terapeuta ou minha mãe… – e deixando a frase no ar abaixou os olhinhos feito uma gueixa desconsolada.

– Por que diz isso? Obedecer em que?

– Minha terapeuta diz para eu fazer somente a lição do dia e o resto do tempo, brincar. Já minha mãe quer que eu faça todas as lições da semana de uma vez… Tia, não sei o que fazer…

Tocada pelas palavras e pelo tom que a pequena usou em sua fala, fiquei de coração apertado.

– Você não brinca?

– Não. Não tenho com quem brincar e minha mãe disse que já passei da idade de brincar… Mas eu queria tanto!

– Não tem irmãos? Primos? Amiguinhos?

– Não, sou sozinha tia. Não tenho ninguém, nenhum amiguinho…

– Você mora em prédio ou casa?

– Prédio tia… na Vila Madalena e não tem crianças por lá… Sou tão sozinha

E falando isso, a pobre garota começou a girar os olhinhos em suas órbitas me deixando agoniada pensando que pudesse estar tento algum surto.

– R, tudo bem? Por que não trás algum brinquedo para a escola? Você fica aqui o dia inteiro, poderia fazer suas lições e depois brincar um pouco.

– Tia, até o ano passado trazia meu ursinho e minha boneca mas minha mãe proibiu dizendo que já estou grande para isso e não deixa mais eu trazer. Sinto tanta vontade de brincar…

Pensativa perguntei:

– E nos finais de semana? Seus pais não te levam a parques para brincar, andar de bicicleta, de patins…

– Não. Eles não têm tempo para mim. Trabalham muito…

Esse desabafo me fez ficar dias seguidos pensando no quanto as crianças de hoje estão sendo “roubadas” de sua infância. Direito esse, fundamental para o futuro adulto. E no entanto, pais de hoje se preocupam tanto em manter seus filhos presos a uma agenda apertadíssima entre judô, natação, inglês, informática, espanhol e tantas matérias e coisas para prepará-los para o futuro, que esquecem que a infância é uma só vez na vida e que passa rápido demais.

Nossas crianças não sabem mais brincar! Desde cedo, têm sua ingenuidade e pureza arrancadas pela telinha da TV e do computador. São reféns da “modernidade” e passam sua infância enclausurados nos prédios onde moram e entre os muros das escolas. Observo isso nos olhos sem brilho das crianças do colégio onde trabalho. Se cansam de estudar e saem correndo pelo pátio, gritam avisando que não podem correr nem brincar. Se tentar entrar no playground, são expulsos alegando não terem mais idade para isso. Ficam totalmente deslocadas e perdidas restando apenas passarem na lanchonete, se empanturrarem de guloseimas engordativas para aplacar sua fome de vida, de atenção, de amor dos adultos voltando a seguir, para o reduto que lhes resta: a biblioteca. Depósito de livros e crianças órfãs de pais vivos e extremamente ocupados.

Desculpem-me esse texto desabafo mas é que, para quem foi criança até os dezenove anos, brincou na rua, se estourou inteira pulando muros e cercas, tomou boladas terríveis nas queimadas da vida, estourou seu couro andando de rolemã, ser testemunha de uma infância roubada, dói demais e me revolta.

Adultos, vamos devolver a infância para quem é de direito: Nossas crianças!

Feliz Dia das Crianças!

Imagem licenciada Sutterstock

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5 comentários sobre “Infância roubada

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