Matéria morta

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Um envólucro sujo e vazio.

Foi isso que me veio a mente ao presenciar aquela cena logo pela manhã.

Dois policiais chamados pelos transeutes olhavam para aquilo jogado ao chão com olhos desconfiados – ou talvez temerosos.

Sacudiram, levantaram alguns metros do chão, chacoalharam e após segundos depositaram no chão.

Trocaram algumas palavras, balançaram a cabeça e acionaram socorro.

Enquanto isso, vários olhos curiosos como os meus, acompanhavam ao longe toda a cena.

Ainda refém da sonolência matinal, custei a compreender o que acontecia.

Por instantes supus que os policiais chacoalhavam um boneco e até imaginei que alguns moleques houvessem amarrado ele ao poste do ponto de ônibus. Observei que algumas pessoas que ali se encontravam, davam mostra de incômodo com toda aquela movimentação que mudava suas rotinas matinais. Uma senhora desviava o olhar, um homem de seus trinta anos trajando um terno de bom corte, pigarreava e cuspia de lado evitando olhar para a cena. Uma jovem mãe, numa atitude protetora, cobria os olhos de seu filho. Uma adolescente, com os fones de ouvido e olhos grudados na tela de seu celular, parecia ser a única que não se apercebia da situação –  perdida que estava em sua vida digital.

Todos mostravam uma atenção forçada aos ônibus que se aproximavam com a nítida impressão de terem pressa em saírem dali.

O semáforo prestes a ficar verde. Em breve, sairíamos do túnel que desemboca na avenida mais charmosa da cidade.

Carros e ônibus se preparam para a largada. Ronco dos motores, verdadeiro Grand Prix urbano.

No ônibus, jovens munidos de seus potentes iphones se apressam em registrar aquele momento para postarem em primeira mão em suas redes sociais.

Banalização total de um jovem corpo sem vida.

 

 

Imagem: Google retirada do seguinte site: Franciscanos

Infância roubada

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Olhinhos orientais pousaram em mim e calados, diziam muito. Não, minto. Não diziam, gritavam de forma desesperadora pedindo socorro e um pouco de atenção.

Sentindo a força daquele olhar, parei o que fazia e olhei para o balcão vendo aquela cabecinha lustrosa.

Perguntei se desejava algum livro. Tive o silêncio como resposta mas aquele olhar…

Levantei-me, cheguei mais perto e olhando-a nos olhos perguntei novamente: Precisa de algo? Pode falar. E arrematei minha fala com um sorriso aberto. Surtiu efeito.

De forma quase inaudível, ela balbuciou:

– Não sei quem devo obedecer. Minha terapeuta ou minha mãe… – e deixando a frase no ar abaixou os olhinhos feito uma gueixa desconsolada.

– Por que diz isso? Obedecer em que?

– Minha terapeuta diz para eu fazer somente a lição do dia e o resto do tempo, brincar. Já minha mãe quer que eu faça todas as lições da semana de uma vez… Tia, não sei o que fazer…

Tocada pelas palavras e pelo tom que a pequena usou em sua fala, fiquei de coração apertado.

– Você não brinca?

– Não. Não tenho com quem brincar e minha mãe disse que já passei da idade de brincar… Mas eu queria tanto!

– Não tem irmãos? Primos? Amiguinhos?

– Não, sou sozinha tia. Não tenho ninguém, nenhum amiguinho…

– Você mora em prédio ou casa?

– Prédio tia… na Vila Madalena e não tem crianças por lá… Sou tão sozinha

E falando isso, a pobre garota começou a girar os olhinhos em suas órbitas me deixando agoniada pensando que pudesse estar tento algum surto.

– R, tudo bem? Por que não trás algum brinquedo para a escola? Você fica aqui o dia inteiro, poderia fazer suas lições e depois brincar um pouco.

– Tia, até o ano passado trazia meu ursinho e minha boneca mas minha mãe proibiu dizendo que já estou grande para isso e não deixa mais eu trazer. Sinto tanta vontade de brincar…

Pensativa perguntei:

– E nos finais de semana? Seus pais não te levam a parques para brincar, andar de bicicleta, de patins…

– Não. Eles não têm tempo para mim. Trabalham muito…

Esse desabafo me fez ficar dias seguidos pensando no quanto as crianças de hoje estão sendo “roubadas” de sua infância. Direito esse, fundamental para o futuro adulto. E no entanto, pais de hoje se preocupam tanto em manter seus filhos presos a uma agenda apertadíssima entre judô, natação, inglês, informática, espanhol e tantas matérias e coisas para prepará-los para o futuro, que esquecem que a infância é uma só vez na vida e que passa rápido demais.

Nossas crianças não sabem mais brincar! Desde cedo, têm sua ingenuidade e pureza arrancadas pela telinha da TV e do computador. São reféns da “modernidade” e passam sua infância enclausurados nos prédios onde moram e entre os muros das escolas. Observo isso nos olhos sem brilho das crianças do colégio onde trabalho. Se cansam de estudar e saem correndo pelo pátio, gritam avisando que não podem correr nem brincar. Se tentar entrar no playground, são expulsos alegando não terem mais idade para isso. Ficam totalmente deslocadas e perdidas restando apenas passarem na lanchonete, se empanturrarem de guloseimas engordativas para aplacar sua fome de vida, de atenção, de amor dos adultos voltando a seguir, para o reduto que lhes resta: a biblioteca. Depósito de livros e crianças órfãs de pais vivos e extremamente ocupados.

Desculpem-me esse texto desabafo mas é que, para quem foi criança até os dezenove anos, brincou na rua, se estourou inteira pulando muros e cercas, tomou boladas terríveis nas queimadas da vida, estourou seu couro andando de rolemã, ser testemunha de uma infância roubada, dói demais e me revolta.

Adultos, vamos devolver a infância para quem é de direito: Nossas crianças!

Feliz Dia das Crianças!

Imagem licenciada Sutterstock

Criação

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Num instante de desespero,

criei-te.

Imaginei-o de acordo com meu gosto

Moldei seu belo rosto

Não tão belo mas viril

Lapidei seus músculos ouvindo

aquele velho vinil

Plantei fio a fio, suas fartas madeixas

Ao término da obra, não houve queixas.

Suas mãos, imaginei-as fortes, ásperas

dotadas de uma quentura

que a cada toque se transformava em

ternura.

Seus pés, de início, levei um susto!

Grotesco, disforme

Achei que não tivera sucesso

Pouco a pouco me acostumei

com sua estranhesa.

Apaixonada, achei até uma beleza!

Sua boca…

Ah, essa caprichei! Carnuda, vermelha,

úmida.

Sempre entreaberta num constante sussurro

por beijos

Que eu incansavelmente, te dei.

Seus olhos, preferi fazê-los um pouco cegos

Temia que visse minhas imperfeições.

Não desejava arranhar meu ego.

Pra você, tornei-me musa

E adorava me ouvir dizer:

Amor, pega, apalpa e me usa!

Juntos fizemos muitas coreografias

Tiramos até mesmo algumas

fotografias

Expondo nossos corpos suados,

malhados, em brasa.

Num total estado de ardência,

onde ambos pedíamos clemência

E eu, feito sua gueixa, satisfazia

todas as suas fantasias

Nosso caso foi tão completo e perfeito,

que hoje, na vida real, não encontro

amante feito você.

O homem comum, cheio de falhas

Em minutos me cansa, entedia

Não me faz sentir aquela doce vadia

que galopava animada em seu dorso

Hoje, sozinha, me torço num esforço

sobrehumano para alçar aquele gozo

que a seu lado atingi.

 

Imagem: O rapto de Proserpina/Gian Lorenzo Bernini (detalhe)

Happy birthday to you!

Não é tristeza o que sinto no momento.

É… Não sei traduzir em palavras, mas chega quase a ser uma não existência. Uma sensação de morte em vida, pois vida, significa pulsar o coração, correr o sangue nas artérias, mover os músculos do corpo, piscar os olhos diante das novidades, o cérebro registrar tudo o que chega aos seus arquivos.

A data de hoje – piscando em neon – não causa nenhuma reação às minhas retinas embaçadas, sem lubrificação. Secas feito meu coração que emudeceu no instante em que matei você em minha vida.

E a tela continua a brilhar e a piscar me convidando para sua festa ao qual não fui convidada. Nem por você, nem por mim. Neguei minha participação em sua existência.

Pensei ser fácil te arrancar de minha vida zerando álbuns de fotografia, excluindo-te de minhas redes sociais, apagando nossas inúmeras e intensas conversas online, seu número de telefone do meu celular, queimando seus poemas que tanto amava ler e reler e reler…

Tudo em vão.

Ontem, ao deitar a cabeça no travesseiro, a primeira coisa que me veio à mente foi sua imagem. Nítida. Senti seu cheiro no ar como todas as vezes em que ficamos juntos sorvendo a intimidade de nossos corpos.

Teletransportei-me à sua casa, adentrei a intimidade de seu quarto, te vi sentado à cama, te envolvi e depositei carinhosamente um ósculo em sua testa. Como sempre gostava de fazer toda vez que nos amávamos.

Lembra?

Você ficava bravo com essa minha atitude. Dizia que isso era coisa de mãe e mãe, você já tinha uma.

Ria de sua indignação e tornava a pegar entre minhas mãos sua cabeça e, novamente te beijava até você amolecer diante de minha genuína demonstração de amor e se rendia de corpo e alma a mim, fêmea sedenta de seu corpo e alma.

Hoje, ao acordar, também foi meu primeiro pensamento: você, seu aniversário.

E o dia passou despertando várias vezes o desejo quase doentio de te ligar como se nada houvesse acontecido e compartilhar sua alegria comigo. Como fazíamos anos atrás.

Feito adicto, me peguei inúmeras vezes pegando o celular e teclando seu número que mesmo apagado da agenda, tenho gravado na memória. Mãos trêmulas, sudorese inundando a palma das mãos, respiração entrecortada, boca seca. Quando dava pelo ato falho, jogava longe o celular como se tivesse recebido um choque de 500 watts.

Desejava chorar, mas as lágrimas – até elas – se negam a me fazer companhia na data de hoje.

Cansada, deito-me encolhida abraçada a mim mesma. Só percebo que anoiteceu novamente por conta da penumbra que inundou o quarto. Um som de piano ao longe serve de trilha sonora para esse momento: um lamento.

A voz de Pedro Mariano cantando Roberto Carlos… seu cantor preferido.

Aos poucos uma comporta se abre no peito deixando vir a tona toda antiga tristeza que seu amor me trás. Uma tímida lágrima inaugura o percurso.

Em seguida outra, e outra e outra até se transformar num esgar intermitente de emoções represadas por meses tentando ser-te indiferente. Um grunhido animalesco sai de minhas entranhas e toma conta do ambiente.

Transformo-me em loba desesperada por sua prenha perdida. Grito até perder as forças caindo num estado de transe hipnótico.

Silêncio.

Olhos parados, secos, lágrimas escorridas, boca aberta babando saliva e uma frase inaudita:

Happy birthday to you!

 

Imagem: Dreamstime

vídeo: Youtube (Fátima Ferreira)