Contato inusitado

shutterstock_197745710

A paz existente naquela capela contrastava com a energia conflitante que pairava do lado de fora.
Olhos faiscantes de medo e dor. Respiração densa, cansada, assustada.
Estariam atrás dela? Precisava sumir dali. Mas… Como? Andou furtivamente mais alguns metros e escorregou para dentro de um bueiro. Fedia horrores mas pelo menos, ganharia um tempo até que o perigo se distanciasse. Sabia que se fosse pega não sobreviveria.

Se arrependimento matasse… Jamais deveria ter mexido nesse vespeiro. Eles eram pessoas sem escrúpulos, ruins mesmo.

Por poder e dinheiro vendiam e matavam a própria mãe. Ah se pudesse voltar atrás no tempo, teria caído no mundo e esquecido tudo o que testemunhara naquela maldita noite.

De dentro do bueiro, observa aquele edifício gótico. Algo nele sempre lhe remetia ao passado. Suas linhas, curvas, ogiva.

Lembrou-se de quando era estudante de arquitetura e do quanto admirava as linhas arquitetônicas. Poderia passar horas de frente a um monumento desses e ficar ali, só admirando e enchendo os olhos com tamanha beleza. Entre tantos estilos arquitetônicos, o gótico sempre foi seu preferido.

Mais uma vez teve aquela já familiar sensação de déjà vu.

“Esse estilo de igreja me remete a um passado mas não a meu passado! É como se captasse energia vital de um outro alguém que de alguma forma, está conectado comigo. Eh que doideira braba! Deve ser o medo que está me causando esse tipo de pensamento. 

Mas sim! Me transporta ao passado de uma certa pessoa que ali viveu toda uma existência encerrada naquelas imensas paredes de tijolos. É engraçado mas toda vez que passo por esses corredores, é como se visse aquela jovem de hábito circulando pelos escuros corredores de cabeça baixa. Carregando em suas mãos, um terço de madrepérolas. Seu único item requintado denunciava seu nobre passado. Havia mantido consigo com a permissão da severa madre superiora por ter sido um presente de sua amada avó que muito contribuíra com a instituição.”

“Que história mais louca! O que o medo nos faz meu Deus!” – pensa Ludmilla se abraçando e tampando suas narinas para se proteger do forte odor. Quem teria sido essa jovem que ainda trazia tanta beleza e bons trejeitos da fidalguia? Que pecado teria cometido para se encarcerar ali e se distanciar da fina sociedade ao qual pertencia? Ludmilla tinha despertado a curiosidade nata de historiadora e bibliotecária que era.

“Se conseguir fugir deles, prometo pesquisar a fundo e descobrir quem foi essa jovem freira. Se é que ela existiu mesmo!

Vai ver, é apenas fruto de minha imaginação. Deus! Permita que consiga fugir deles e eu moverei mundo e fundo para descobrir se ela realmente existiu e se foi mais uma vítima no passado. Farei de tudo para resgatar sua memória e limpar seu nome que, com certeza deve ter sido proscrito.”

Um som abafado se faz escutar por Ludmilla. Na escuridão do bueiro, ouve com perfeição uma espécie de gemido e sente um bafo morno próximo ao seu rosto.

Assustada, fecha os olhos o máximo que consegue e prende sua respiração.

“Obrigada! Sabia que de alguma forma, havia estabelecido contato com você. Senti pelo seu olhar e por sua energia que poderia contar com sua ajuda. Mesmo que não consiga fazer muita coisa por mim, serei eternamente grata.”

 

Esse texto faz parte de uma história maior que ainda não tem final. Aos poucos postarei por aqui.

 

Imagem licenciada detalhe da fachada da catedral de Barcelona : Shutterstock

Anúncios

2 comentários sobre “Contato inusitado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s