Universo na palma das mãos

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Hoje pela manhã, ao tomar o banho diário, me peguei olhando com mais atenção a pele de minhas mãos. É impressionante observar os veios que a derme criou no decorrer dos anos. Os inúmeros vincos, os sulcos, as rodovias que se formou por toda a extensão das mãos. Fiquei pasma!

Olhei para as palmas delas e adentrei num universo novo e nada explorado por mim até então.

Veja bem, falo por mim. Sempre me preocupei com a saúde e beleza de meus cabelos, da pele de meu corpo (exceto as mãos), de meu rosto. E as mãos que são tão importantes em tudo o que faço, acabei por negligenciá-las. Coitadas!

Passei a fazer um profundo estudo das linhas da palma das mãos. Quantos riscos, vincos, crateras, calosidades… Nossa! Tenho mais calos do que meu pai que trabalhou toda sua vida na construção civil!

E o que dizer das veias? Sim! Trago nas mãos um emaranhado de veias saltadas e azuladas (ou serão esverdeadas?) que são mais complexas e volumosas que as linhas metroviárias de São Paulo.

O que? Pensa você que eu exagero? Pois te digo que não!

A tonalidade de minha pele também me assustou. Está de uma palidez cadavérica e isso chegou a eriçar meus cabelos.

Eca! Estarei morrendo e nem percebi? Que cor de cera é essa mulher?

No que imediatamente respondi: falta de sol! Quem manda passar os dias dentro de ambientes fechados só se bronzeando com luzes artificiais de escritório? Isso lá é vida?

E o que dizer da aspereza delas? Credoemcruzavemaria!  Tenho as mãos mais ásperas do que o rapaz da marcenaria aqui ao lado que trabalha com material que agride pra valer as mãos.

Não contente com todas essas infelizes descobertas, me postei como verdadeira cientista a analisar a fundo a qualidade e condições da derme e, com os dedos em pinça, levantei a pele para verificar a elasticidade da mesma. Meus olhos saltaram da órbita e minha boca se abriu num espasmo de espanto total:

Minha nossa estou com a pele das mãos totalmente flácidas. Pele de mulher octogenária que trabalhou a vida inteira na lavoura de café.

Socorrooooo!!

Alguém aí sabe me dizer se existe um pronto-socorro para mãos? Já inventaram plástica e rejuvenescimento para elas? Tadinhas!

A aflição foi tanta que voltei a um velho hábito: comecei a roer as unhas desesperadamente. Pra completar a desgraça, não consigo roer direito pois meu aparelho ortodôntico impede de roer gostosamente como fazia em minha infância e adolescência.

Que droga! Revolta geral no quartel general. O que fazer agora que tenho consciência de que não tenho mais as mãos bonitas e joviais que trazia na juventude?

Terei de virar adepta de luvinhas feito Ana Maria Braga e Madonna? E eu que pensava ser modismo das divas. Ledo engano!

Com certeza elas tiveram esse mesmo insight que tive sobre suas mãos e também se chocaram com tal constatação dessa dura realidade ao qual ninguém escapa.

Gente, sou analfabeta de pai e mãe no quesito “Santo”. Alguém sabe me dizer se existe um santo ou santa protetora das mãos e de sua beleza? Existe? Se existe por favor, me passem seu nome pois amanhã mesmo vou comprar velas e orar em sua devoção pedindo clemência para essas mãozinhas tão maltratadas que trago hoje.

Mas enquanto isso não acontece e como não sou católica mesmo, vasculho meus inúmeros potes de cremes milagrosos que prometem grandes progressos na nossa beleza.

Ah! Que maravilha! Achei um pote ainda fechado que comprei num desses impulsos consumistas.

Nem me lembrava mais dele. Comprei e joguei dentro do armário e esqueci por completo.

Abro a caixa e começo a ler sobre ele: “Morte súbita – creme super hidratante do Mar Morto”.

Que meda! Morte súbita por que hein? Será que leva esse nome por acabar de uma só tacada toda desidratação da pele? Caio na risada. Só eu mesma pra entrar numa cilada dessa e gastar uma pequena fortuna num creme com tal nome. Olho dentro da sacola e vejo que não tinha comprado somente esse creme. Junto tem um outro pote que diz: “Sal esfoliante para mãos”

Maravilha! Comecei ali  mesmo uma tentativa de ressuscitar minhas pobres mãos do limbo da velhice precoce.

Gente não é que deu certo? Ao fazer a tal da esfoliação, pouco a pouco fui sentindo minha pele mudar de cor e de textura. Ficou macia como há muito não sentia. E o creme hidratante terminou o serviço mantendo-as viçosas e aveludadas.

Pensei com minhas mãos: Nem tudo está perdido garota! Com essa maravilha cosmética poderei passar mais alguns anos na casa da juventude!

Mas, como toda alegria de pobre dura pouco… Meus olhos captaram outra coisa que não havia percebido: meus dedos estão irregulares, tortos e doloridos ou seja DEDOS DE VELHA REUMÁTICA MESMO!!!

Oh God!

É, não tem jeito mesmo. Temos de encarar a dura, reumática e velha realidade: envelheço!

Mas quer saber? Apesar desse verdadeiro e profundo ataque de pelanca que tive no banheiro, saí rindo de orelha a orelha tendo a grata certeza que isso é apenas um detalhe em minha rica e profunda vida. Essas mãos que por hora se apresentam envelhecidas, encontram-se assim de tanto que afagaram, acariciaram, pegaram, fizeram muitas e gostosas refeições, escreveram textos, relatórios de faculdade, da empresa, cartas a namorados, e-mails desaforados, postagens engraçadas, limparam a casa inúmeras e incansáveis vezes, pegaram meus sobrinhos no colo, carregaram sacolas pesadas com mercadorias do supermercado e da feira, empurraram a mala pesada em cada viagem que fiz, me proporcionaram prazer no sexo solitário, passaram centenas de vezes minhas roupas e as guardaram em suas devidas gavetas. Elas também me defenderam contra a violência alheia e ataques em público. Empurraram cuidadosamente minha irmã em sua cadeira de rodas para passeios ao ar livre, em shoppings, ao médico quando ela precisou. Prepararam inúmeros lanches e café com leite para distribuir a quem não tem onde morar. Receberam cumprimentos quando me formei na faculdade, depois na premiação de meu TCC, depois nas apresentações que fiz em congressos e seminários.

Enfim, elas já fizeram tanta coisa por mim que fica praticamente impossível numerá-las.

Paro no meio do corredor e olho mais uma vez para elas e sorrindo e chorando ao mesmo tempo digo:

Obrigada queridas! Grata pela imensa e incansável força que me dão na labuta de todo dia.

E agora, ao término de mais esse texto depoimento, paro aqui e mais uma vez as examino abrindo meu sorriso de gratidão por esses dedinhos tão nervosos me acompanharem nessa insana mas verdadeira viagem por esse universo nas palmas de minhas mãos.

Namastê. _/\_

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7 comentários sobre “Universo na palma das mãos

  1. Adorei!! Também tenhos dedos tortinhos…desde menina e, claro, um tanto mais agora. Contudo, sou apaixonada por minhas mãos, pelo simples fato de serem parecidas com as de minha mãe. rsrsrs. A gente sempre arruma um jeito de melhorar aquilo que é nosso.

    Bjs, Roseli.

    • Oi Cláudia, falou tudo: “A gente sempre arruma um jeito de melhorar aquilo que é nosso.”
      Por conta disso me cuido, sou vaidosa sem ser escrava. Gosto de sentir minha pele macia, hidratada, cheirosa.
      Grata pela visita e comentário.
      Bjs

  2. Hahaha já fiz esses auto-exames. Nas mãos, no pescoço, nas pálpebras… dedos como pinça…hahaha…exatamente! Muito bom! Esse sal esfoliante tinha na Turquia, mas achei muito caro (eu sempre acho tudo caro) e gorduroso, confesso, não curti a oleosidade que acompanha a maciez. 😉 Adorei o bom humor com que descreveu a descoberta…rs
    Até!

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