Contato inusitado

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A paz existente naquela capela contrastava com a energia conflitante que pairava do lado de fora.
Olhos faiscantes de medo e dor. Respiração densa, cansada, assustada.
Estariam atrás dela? Precisava sumir dali. Mas… Como? Andou furtivamente mais alguns metros e escorregou para dentro de um bueiro. Fedia horrores mas pelo menos, ganharia um tempo até que o perigo se distanciasse. Sabia que se fosse pega não sobreviveria.

Se arrependimento matasse… Jamais deveria ter mexido nesse vespeiro. Eles eram pessoas sem escrúpulos, ruins mesmo.

Por poder e dinheiro vendiam e matavam a própria mãe. Ah se pudesse voltar atrás no tempo, teria caído no mundo e esquecido tudo o que testemunhara naquela maldita noite.

De dentro do bueiro, observa aquele edifício gótico. Algo nele sempre lhe remetia ao passado. Suas linhas, curvas, ogiva.

Lembrou-se de quando era estudante de arquitetura e do quanto admirava as linhas arquitetônicas. Poderia passar horas de frente a um monumento desses e ficar ali, só admirando e enchendo os olhos com tamanha beleza. Entre tantos estilos arquitetônicos, o gótico sempre foi seu preferido.

Mais uma vez teve aquela já familiar sensação de déjà vu.

“Esse estilo de igreja me remete a um passado mas não a meu passado! É como se captasse energia vital de um outro alguém que de alguma forma, está conectado comigo. Eh que doideira braba! Deve ser o medo que está me causando esse tipo de pensamento. 

Mas sim! Me transporta ao passado de uma certa pessoa que ali viveu toda uma existência encerrada naquelas imensas paredes de tijolos. É engraçado mas toda vez que passo por esses corredores, é como se visse aquela jovem de hábito circulando pelos escuros corredores de cabeça baixa. Carregando em suas mãos, um terço de madrepérolas. Seu único item requintado denunciava seu nobre passado. Havia mantido consigo com a permissão da severa madre superiora por ter sido um presente de sua amada avó que muito contribuíra com a instituição.”

“Que história mais louca! O que o medo nos faz meu Deus!” – pensa Ludmilla se abraçando e tampando suas narinas para se proteger do forte odor. Quem teria sido essa jovem que ainda trazia tanta beleza e bons trejeitos da fidalguia? Que pecado teria cometido para se encarcerar ali e se distanciar da fina sociedade ao qual pertencia? Ludmilla tinha despertado a curiosidade nata de historiadora e bibliotecária que era.

“Se conseguir fugir deles, prometo pesquisar a fundo e descobrir quem foi essa jovem freira. Se é que ela existiu mesmo!

Vai ver, é apenas fruto de minha imaginação. Deus! Permita que consiga fugir deles e eu moverei mundo e fundo para descobrir se ela realmente existiu e se foi mais uma vítima no passado. Farei de tudo para resgatar sua memória e limpar seu nome que, com certeza deve ter sido proscrito.”

Um som abafado se faz escutar por Ludmilla. Na escuridão do bueiro, ouve com perfeição uma espécie de gemido e sente um bafo morno próximo ao seu rosto.

Assustada, fecha os olhos o máximo que consegue e prende sua respiração.

“Obrigada! Sabia que de alguma forma, havia estabelecido contato com você. Senti pelo seu olhar e por sua energia que poderia contar com sua ajuda. Mesmo que não consiga fazer muita coisa por mim, serei eternamente grata.”

 

Esse texto faz parte de uma história maior que ainda não tem final. Aos poucos postarei por aqui.

 

Imagem licenciada detalhe da fachada da catedral de Barcelona : Shutterstock

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Desaparecida

Alguém encontrou por aí uma certa inspiração perdida? Disse que ia dar uma volta e retornava logo. Esperei até agora e já estou com os pés cansados de tanto aguardar. O que faço sem ela por perto? Se ela é responsável por tudo o que faço desde o acordar pela manhã friorenta, até o fechar os olhos embaçados de cansaço. Necessito dela no percurso para o trabalho, e careço mais ainda para levar adiante o ofício escolhido. Só amor não basta. Preciso dela para colorir, criar e tornar o dia a dia mais prazeroso. Favor, quem encontrar, entrar em contato direto com Escritora Aflita da SIlva, rua dos Pés Descalços, esquina com Alameda da Fantasia Perdida, s/n.

Estarei ali, quietinha na janela de caneta em punhos pronta para recebê-la de volta.

Ei! Você aí que me olha atentamente. É, você mesmo. Por acaso viu a Senhora Inspiração gazeteando por aí? Não?…

Puxa vida pessoal, então ficarei mais um dia devendo algo que preste pra vocês nesse blog. É uma pena mas sem ela por perto, não tem jeito. Não sai nada daqui dessa cachola velha e avariada. Vamos aguardar mais um pouco. Quem sabe semana que vem…

Entojo

Hoje, diante de todos os acontecimentos recentes, lembrei-me do livro “Quem mexeu no meu queijo” e de outras fábulas existentes. Por algum momento não enxerguei seres humanos. Visualizei ratazanas, baratas e demais seres menores a correr um atrás do outro, a farejar cheiro de podridão, de esgoto, de lixo, de carniça.

É impressionante como o brilho nos olhos se intensifica quando anuncia-se uma tragédia! A vida de muitas pessoas parece ganhar matiz de um colorido diferente.

Lembrei-me também da canção de João Bosco:

“Tá lá o corpo estendido no chão…”

Diante de situações assim, sinto-me fora do contexto, fora da gaiolinha, fora da ordem mundial.

Isso me faz lembrar de Caetano…

O mundo nunca foi um palco onde se encena finais felizes. Está muito mais pra tragédia grega, BBBs da vida e ópera bufona. Mas de tempos em tempos havia aquela estiagem para dar tempo da gente respirar um pouco e achar que a vida é bela.

Mas ultimamente…

Ultimamente tenho lembrado muito de outra canção:

“Eu desisto! Não existe essa manhã que eu perseguia/Um lugar que me dê trégua ou me sorria/E uma gente que não viva só pra si/Só encontro/Gente amarga mergulhada no passado/Procurando repartir seu mundo errado/Nessa vida sem amor que eu aprendi/Por uns velhos vãos motivos/Somos cegos e cativos/No deserto do universo sem amor”…

Nossa, como essa canção é atual, atemporal. Vocês conseguem reconhecê-la? Alguns com certeza, outros nunca ouviram falar dela nem de seu compositor: Taiguara. Um de meus preferidos.

Mas não era sobre ele que queria falar no entanto, sua canção traduz perfeitamente o que sinto no  momento.

O que desejo escarrar na realidade (perdoem-me os mais sensíveis), é a minha in dignação com a raça humana. Não sou nenhuma perfeição da natureza mas procuro na medida do possível, ser uma criatura ética, respeitadora, compreensiva. Às vezes consigo ser nota dez, outras tantas sou abaixo de zero e na média consigo conviver com as pessoas numa boa. Sigo os conselhos e ensinamentos do mano véio que deu sua vida para nos ensinar algo de bom. Não sou de bater no peito que sou isso ou aquilo mas me contento em fazer ao meu próximo o que gostaria que fizessem por mim. Simples assim!

No entanto, parece que o mundo (digo a humanidade) despirocou de vez! Perde-se a compostura, perde-se a vergonha na cara, perde-se a decência, perde-se a capacidade de amar verdadeiramente.

Ama-se no formato Global, de forma plastificada, botocada, falsa. Ama-se de forma facebukiana, twiterada, watsapada… falsificada.

E eu, cá agachada em meu cercadinho só observo e sinto-me enojada. Gostaria de retornar para a placenta quentinha de minha mãe!

Sei!Sei! Sei que é impossível! Não precisa repetir isso que já sei. Mas a vontade permanece aqui latente em meu ser.

Vivendo numa sociedade mais falsa que nota de mil, gostaria de ter nascido uma ameba, uma bactéria ou simplesmente uma planta que segue seu destino cumprindo seu nascimento, desenvolvimento e morte de forma tranquila sem se preocupar com o vizinho se faz assim ou assado para viver. Simplesmente existe.

Por algum instante gostaria que a humanidade fosse assim também

No entanto, tenho consciência de que estamos longe disso e que talvez nunca alcancemos tal evolução. Viemos mesmo pra chafurdar na lama da corrupção, da malandragem, da facilitação das coisas, do jeitinho “brasileiro” e continuaremos a nascer, viver, morrer e feder da mesma maneira com uma única diferença entre os demais seres vivos: carregaremos sempre o pesado fardo da consciência (ou falta dela) a nos lembrar sempre que nada somos apesar da arrogância, da soberba, da cegueira da alma de todos.

E encerro por aqui porque amanhã com certeza teremos mais. Sempre temos mais.

Demais!

 

Gralhas

Quatro gralhas que se encontram causando verdadeiro furor na praça de alimentação.

Como conseguem fazer tamanho barulho é um mistério. Chega a um grau insuportável causando mal-estar geral em todos que ali se alimentam. Tomo meu frozen tentando refrescar não somente minha garganta mas também meus pobres ouvidos.

Isso, aliado ao barulho da rua com suas buzinas estressadas, faz com que deseje sumir do planeta por alguns minutos. Anseio por um pouco de silêncio mas sei que ficando aqui, será impossível.

Gralhas. Não sabem o quanto são desagradáveis aos ouvidos alheios. Com seu som pra lá de agudo e desafinado. Alternando sons mais baixos, mais altos numa sinfonia dolorosa.

Gralhas. Praga que se espalha por todos os lados. Seja nas áreas de alimentação de shoppings, cinema, teatro, nos colégios.

Aqui onde trabalho, evito sair no horário do recreio e nos demais intervalos. É ensurdecedor! Elas se espalham por todo o pátio tomando conta de cada cantinho. Ficam pelas escadas, bancos, corredores. E seu chiado é uma agressão sonora!

E nos transportes públicos então? Costumo colocar fone de ouvido para ouvir música mas tem dia que se torna impossível se ouvir algo a não ser a cacofonia que vem delas. Quando junta mais de duas então é um Deus nos acuda!

Quem poderá orientar essas jovens adolescentes a procurar um fonoaudiólogo para aprenderem a modular suas vozes esganiçadas? Será um serviço para a humanidade. Nossos ouvidos agradecem!

 

 

Universo na palma das mãos

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Hoje pela manhã, ao tomar o banho diário, me peguei olhando com mais atenção a pele de minhas mãos. É impressionante observar os veios que a derme criou no decorrer dos anos. Os inúmeros vincos, os sulcos, as rodovias que se formou por toda a extensão das mãos. Fiquei pasma!

Olhei para as palmas delas e adentrei num universo novo e nada explorado por mim até então.

Veja bem, falo por mim. Sempre me preocupei com a saúde e beleza de meus cabelos, da pele de meu corpo (exceto as mãos), de meu rosto. E as mãos que são tão importantes em tudo o que faço, acabei por negligenciá-las. Coitadas!

Passei a fazer um profundo estudo das linhas da palma das mãos. Quantos riscos, vincos, crateras, calosidades… Nossa! Tenho mais calos do que meu pai que trabalhou toda sua vida na construção civil!

E o que dizer das veias? Sim! Trago nas mãos um emaranhado de veias saltadas e azuladas (ou serão esverdeadas?) que são mais complexas e volumosas que as linhas metroviárias de São Paulo.

O que? Pensa você que eu exagero? Pois te digo que não!

A tonalidade de minha pele também me assustou. Está de uma palidez cadavérica e isso chegou a eriçar meus cabelos.

Eca! Estarei morrendo e nem percebi? Que cor de cera é essa mulher?

No que imediatamente respondi: falta de sol! Quem manda passar os dias dentro de ambientes fechados só se bronzeando com luzes artificiais de escritório? Isso lá é vida?

E o que dizer da aspereza delas? Credoemcruzavemaria!  Tenho as mãos mais ásperas do que o rapaz da marcenaria aqui ao lado que trabalha com material que agride pra valer as mãos.

Não contente com todas essas infelizes descobertas, me postei como verdadeira cientista a analisar a fundo a qualidade e condições da derme e, com os dedos em pinça, levantei a pele para verificar a elasticidade da mesma. Meus olhos saltaram da órbita e minha boca se abriu num espasmo de espanto total:

Minha nossa estou com a pele das mãos totalmente flácidas. Pele de mulher octogenária que trabalhou a vida inteira na lavoura de café.

Socorrooooo!!

Alguém aí sabe me dizer se existe um pronto-socorro para mãos? Já inventaram plástica e rejuvenescimento para elas? Tadinhas!

A aflição foi tanta que voltei a um velho hábito: comecei a roer as unhas desesperadamente. Pra completar a desgraça, não consigo roer direito pois meu aparelho ortodôntico impede de roer gostosamente como fazia em minha infância e adolescência.

Que droga! Revolta geral no quartel general. O que fazer agora que tenho consciência de que não tenho mais as mãos bonitas e joviais que trazia na juventude?

Terei de virar adepta de luvinhas feito Ana Maria Braga e Madonna? E eu que pensava ser modismo das divas. Ledo engano!

Com certeza elas tiveram esse mesmo insight que tive sobre suas mãos e também se chocaram com tal constatação dessa dura realidade ao qual ninguém escapa.

Gente, sou analfabeta de pai e mãe no quesito “Santo”. Alguém sabe me dizer se existe um santo ou santa protetora das mãos e de sua beleza? Existe? Se existe por favor, me passem seu nome pois amanhã mesmo vou comprar velas e orar em sua devoção pedindo clemência para essas mãozinhas tão maltratadas que trago hoje.

Mas enquanto isso não acontece e como não sou católica mesmo, vasculho meus inúmeros potes de cremes milagrosos que prometem grandes progressos na nossa beleza.

Ah! Que maravilha! Achei um pote ainda fechado que comprei num desses impulsos consumistas.

Nem me lembrava mais dele. Comprei e joguei dentro do armário e esqueci por completo.

Abro a caixa e começo a ler sobre ele: “Morte súbita – creme super hidratante do Mar Morto”.

Que meda! Morte súbita por que hein? Será que leva esse nome por acabar de uma só tacada toda desidratação da pele? Caio na risada. Só eu mesma pra entrar numa cilada dessa e gastar uma pequena fortuna num creme com tal nome. Olho dentro da sacola e vejo que não tinha comprado somente esse creme. Junto tem um outro pote que diz: “Sal esfoliante para mãos”

Maravilha! Comecei ali  mesmo uma tentativa de ressuscitar minhas pobres mãos do limbo da velhice precoce.

Gente não é que deu certo? Ao fazer a tal da esfoliação, pouco a pouco fui sentindo minha pele mudar de cor e de textura. Ficou macia como há muito não sentia. E o creme hidratante terminou o serviço mantendo-as viçosas e aveludadas.

Pensei com minhas mãos: Nem tudo está perdido garota! Com essa maravilha cosmética poderei passar mais alguns anos na casa da juventude!

Mas, como toda alegria de pobre dura pouco… Meus olhos captaram outra coisa que não havia percebido: meus dedos estão irregulares, tortos e doloridos ou seja DEDOS DE VELHA REUMÁTICA MESMO!!!

Oh God!

É, não tem jeito mesmo. Temos de encarar a dura, reumática e velha realidade: envelheço!

Mas quer saber? Apesar desse verdadeiro e profundo ataque de pelanca que tive no banheiro, saí rindo de orelha a orelha tendo a grata certeza que isso é apenas um detalhe em minha rica e profunda vida. Essas mãos que por hora se apresentam envelhecidas, encontram-se assim de tanto que afagaram, acariciaram, pegaram, fizeram muitas e gostosas refeições, escreveram textos, relatórios de faculdade, da empresa, cartas a namorados, e-mails desaforados, postagens engraçadas, limparam a casa inúmeras e incansáveis vezes, pegaram meus sobrinhos no colo, carregaram sacolas pesadas com mercadorias do supermercado e da feira, empurraram a mala pesada em cada viagem que fiz, me proporcionaram prazer no sexo solitário, passaram centenas de vezes minhas roupas e as guardaram em suas devidas gavetas. Elas também me defenderam contra a violência alheia e ataques em público. Empurraram cuidadosamente minha irmã em sua cadeira de rodas para passeios ao ar livre, em shoppings, ao médico quando ela precisou. Prepararam inúmeros lanches e café com leite para distribuir a quem não tem onde morar. Receberam cumprimentos quando me formei na faculdade, depois na premiação de meu TCC, depois nas apresentações que fiz em congressos e seminários.

Enfim, elas já fizeram tanta coisa por mim que fica praticamente impossível numerá-las.

Paro no meio do corredor e olho mais uma vez para elas e sorrindo e chorando ao mesmo tempo digo:

Obrigada queridas! Grata pela imensa e incansável força que me dão na labuta de todo dia.

E agora, ao término de mais esse texto depoimento, paro aqui e mais uma vez as examino abrindo meu sorriso de gratidão por esses dedinhos tão nervosos me acompanharem nessa insana mas verdadeira viagem por esse universo nas palmas de minhas mãos.

Namastê. _/\_