Janela aberta para o mundo (meu mundo)

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Pela janela observo a suave garoa que cai e toma conta da paisagem.

Vidraça embaçada que transforma a vida lá fora num filme mudo. Pessoas encolhidas correm de um lado a outro da rua procurando abrigo. Verdadeiras formigas que circulam formando um mosaico interessante ao lados dos inúmeros carros e motos. Meus olhos são capturados por um movimento a esquerda da janela.

Sorrio ao ver que é uma rolinha que também me observa com olhos atentos e curiosos.

Parece pensar: O que será que essa humana faz aí dentro dessa caixa de vidro?

Caio na gargalhada ao ver que minha mente viaja numa conversa com a rolinha:

Ah pequena ave, se soubesse o quanto gostaria de trocar de lugar com você por um dia…

Fico a imaginar o que faria se ganhasse asas e tivesse a liberdade de sair por aí percorrendo essa imensidão do céu. Desvendando vidas humanas em seus “quadradinhos”, capturando recortes de seus cotidianos.

Veria um cara sarado saindo do banho e recebendo um carinho afável e sensual de seu companheiro tão belo quanto ele. Mais a frente, observaria uma mulher de meia idade com sua xícara de chá quente sentando-se ao lado de seu marido em frente a TV.

Voaria um pouco mais e localizaria num parque público várias crianças brincando no playground. Risos, gritinhos, conversas animadas de seres ainda intocados pela dureza da vida adulta.

No mesmo parque – só que do outro lado – acompanharia um jovem casal aproveitando um momento de doce intimidade beijando- se de forma sôfrega como se dependessem disso para sobreviverem.

Interessante. No mesmo parque em outra extremidade, dois jovens fumam crack totalmente alienados do mundo que os cercam. Olhos sem viço, miram o nada, largados detrás de uma moita que os acobertam.

Sigo minha viagem.

Aterrizo num parapeito de onde posso ver que dentro é uma classe de crianças.

Uma jovem professora escreve no quadro negro enquanto alunos brincam entre si jogando bolinhas de papel. Alguns se mantém focados na matéria escrita na lousa. Uma aluna ao fundo abre sua valise e pega um espelho.  Mostra-se precocemente vaidosa.

Numa outra janela, vejo uma senhora idosa pendendo sua cabeça para trás envolta num agradável cochilo. Luta intermitente entre manter-se acordada assistindo sua novela e render-se ao sono.

Impera o segundo.

Voo mais alguns quilômetros até cansar e pousar numa janela onde olhando, vejo a mim mesma sentada de frente a uma escrivaninha teclando. Pareço concentrada.

Aperto meus pequenos olhos de ave e vejo que na tela do computador já está desenvolvida uma história comprida! Nossa! Ela escreve muito! Olha só seus dedinhos como teclam nervosamente.

Algo chama sua atenção e num virar de pescoço, vejo-a olhando para mim. Fica um tempo me admirando e em seguida abre um sorriso.

Olho no olho. Mulher e rolinha. Não piscam. Uma adentra o universo particular da outra.

Uma ansiando – por um minuto – trocar de vida. Rolinha desejando ser humana. Humana desejando ser uma ave. Uma vida inteira passa por esses olhos que travam um embate num tempo infinito.

Ao longe, ouço um apito que me chama à realidade. Demoro para sair desse torpor e perceber que é a panela no fogo cozendo meu caldo verde gritando para eu correr logo à cozinha antes que ele seque. Deixo de lado a mente criativa da escritora e faço com que assuma o comando a mente de cozinheira. Abro a panela, experimento a carne, permito que todos os meus sentidos se aflorem para degustar minha pequena obra prima. Fecho os olhos e tenho um pequeno gozo:

– Hummmmmm!!! Que isso está tinindo de gostoso!

Você leitor, consegue sentir daí o aroma do meu caldo verde com mandioquinha? Use você sua imaginação, sinta. Está bom demais!

Com sua licença, vou preparar a mesa e chamar meu povo para degustar essa maravilha.

– Pessoal, o caldo já está à mesa. Venham!

 

Imagem: Momento de reflexão de Edilene Pedroso

 

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6 comentários sobre “Janela aberta para o mundo (meu mundo)

  1. Que delícia de viagem, de troca, de caldo… deu água na boca. Nesse friozinho… mmm…
    Fantástico seu texto, flertando muito bem com a metalinguagem. Ao menos assim vejo. 😉
    Até!

    • O texto simplesmente saiu! Bastou olhar para um quadro (esse quadro que ilustra o texto) e a história fluiu. Adoro quando isso acontece! Fico contente que tenha gostado. A propósito, o caldo ficou maravilhoso. De estalar o bico, kkkkk
      Até!

    • Ahhh, se despertou a fome, cumpri com minha missão. Escrever é justamente mexer com as sensações, emoções, tirar o leitor da zona de conforto. E agora? Bora vir pra cá tomar a sopa! Essa acabou mas posso fazer de novo!
      Bjs

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