Borrasca

  surrealismo de milan h O mar se encontrava revolto, bravio.

Seu olhar permanecia estático, no nada. A ventania prometia tempestade à vista.

Dentro de si, uma tempestade em proporção tsunâmica parecia querer estourar suas parcas barricadas de proteção. O que ele tinha lhe feito não tinha perdão!

Uma mistura indigesta de ódio, mágoa, amor próprio ferido se mesclavam dando-lhe um gosto ácido na boca. Uma onda gigante se arrebentou nas pedras lavando-lhe o corpo, despertando-a desse pesadelo que entrara minutos antes. Seu mundinho cor-de-rosa fora devassado, mudando a ordem das coisas que estabelecera para si. E isso ela não perdoava!

Não suportava ser contrariada. Principalmente no que dizia respeito ao seu mundo criado com tanta delicadeza e perfeição. Reconhecia que não poderia jamais voltar aquele local que por hora, encontrava-se despedaçado. Só ruínas.

Nada mais lembrava o início daquilo que, segundo ela, seria o paraíso na Terra enquanto vivesse. Esse paraíso não existia mais e o que permaneceu já não lhe interessava.

Caminhou pelo penhasco. De um lado, o oceano a se esparramar espelhando seu tormento interior. Movediço, escuro, espumoso feito sua alma inquieta.

Do outro lado, sua vida pretérita que agora já não lhe pertencia mais. Fora arrancada da pior forma. O que fazer? Para onde ir?

Sem saber, permaneceu ali, tendo as pedras pontiagudas a seus pés, o céu escurecendo cada vez mais e o mar mostrando-se irado. Não mais que ela.

Perdeu a noção do tempo em que ficou sem mover um músculo. O calor de suas emoções impediram que sentisse que a temperatura havia caído bruscamente.

A chuva desabou inclemente lavando a tudo inclusive sua dor. Agora, apenas algumas gotas atrasadas chegavam a ela indicando que a fúria havia passado e ido para outras paragens. Com os cabelos e roupas colados ao corpo, olhou mais uma vez para baixo, no penhasco e por um instante titubeou.

Balançou de forma insegura mirando o fim do precipício e, num movimento rápido, arremessou com todas as suas forças.

A aliança que um dia significou todo seu amor e toda sua vida ao lado daquele que , de forma irresponsável,  pôs seu mundo a perder.

Despiu-se também numa atitude de se desvencilhar de tudo o mais. Respirou aliviada.

Resoluta, voltou para seu carro no meio fio e velozmente seguiu destino desconhecido. Contrário ao caminho que tantas vezes fez naqueles quinze anos de vida em comum.

Não pisaria ali nunca mais.

Sumiu na estrada deixando apenas um rastro de pneu no asfalto molhado.  

 

Imagem: Milan Hrnjazović    

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9 comentários sobre “Borrasca

  1. Uia…. pensei até me suicídio. O que não deixa de ser… Mudar de vida assim, deixar tudo pra trás, é uma espécie de suicídio de algum momento em que não se quer mais. Muito bom! Assim como seu texto que está belíssimo, como sempre!
    Beijos, boa semana!

  2. Arranca-se até os cabelos se ele lembrar o famigerado que arrancou, sem permissão, nosso coração, né não? Segue o barco, com um capitão careca, se for o caso. 😉 Belo texto. Suas personagens são sempre sofridas e fortes. Essas você já domina… 😉

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