Saindo de cena

Não costumo bater a mão no peito e vociferar que sei tudo da vida. Não!!

Na realidade não sei nada.

No entanto, na minha pouca ou quase nada experiência de vida, aprendi alguns… como direi…macetes para driblar as dificuldades, as perdas, as rasteiras que a vida nos dá.

Apanhando um pouco, aprendi a me erguer cada vez que vou ao solo após tais rasteiras. Aprendi a chacoalhar a poeira da roupa, assoprar os machucados adquiridos e seguir em frente. Sempre em frente.

E me dói n’alma quando vejo pessoas frágeis diante da vida que não conseguem se erguer a cada queda que levam. E quando levantam, começam a andar trôpegas pro resto de suas parcas vidas.

Dói quando vejo pessoas sofrerem decepções – sejam elas de ordem amorosa, profissional, pessoal – e não conseguirem superar esses momentos difíceis. Ficam presas até suas mortes naquilo que já passou, não volta mais, tornou-se pretérito.

Hoje, uma dessas inúmeras pessoas que conheci ao longo de minha vida se foi.

Finalmente foi arrebatada da vida de uma das formas mais tristes: simplesmente deixou de respirar. Viver, já tinha deixado faz tempo. Só mantinha-se preso à matéria por não ter nem forças e coragem para dar cabo dela.

Muito triste ver uma pessoa perder o brilho da vida, do vigor sem poder fazer nada por ela simplesmente porque ela não deseja ser ajudada.

Alma de artista que não aguentou a rispidez da vida, da realidade que o cercava. Tudo isso aqui era demais para sua sensibilidade.

Fica esse gosto ácido da partida, fica a secura na garganta de palavras não ditas, fica a mão no ar que não pôde afagar em seu último suspiro. Fica a lágrima quente escorrendo pela face numa tentativa de dizer:

Adeus!

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Janela aberta para o mundo (meu mundo)

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Pela janela observo a suave garoa que cai e toma conta da paisagem.

Vidraça embaçada que transforma a vida lá fora num filme mudo. Pessoas encolhidas correm de um lado a outro da rua procurando abrigo. Verdadeiras formigas que circulam formando um mosaico interessante ao lados dos inúmeros carros e motos. Meus olhos são capturados por um movimento a esquerda da janela.

Sorrio ao ver que é uma rolinha que também me observa com olhos atentos e curiosos.

Parece pensar: O que será que essa humana faz aí dentro dessa caixa de vidro?

Caio na gargalhada ao ver que minha mente viaja numa conversa com a rolinha:

Ah pequena ave, se soubesse o quanto gostaria de trocar de lugar com você por um dia…

Fico a imaginar o que faria se ganhasse asas e tivesse a liberdade de sair por aí percorrendo essa imensidão do céu. Desvendando vidas humanas em seus “quadradinhos”, capturando recortes de seus cotidianos.

Veria um cara sarado saindo do banho e recebendo um carinho afável e sensual de seu companheiro tão belo quanto ele. Mais a frente, observaria uma mulher de meia idade com sua xícara de chá quente sentando-se ao lado de seu marido em frente a TV.

Voaria um pouco mais e localizaria num parque público várias crianças brincando no playground. Risos, gritinhos, conversas animadas de seres ainda intocados pela dureza da vida adulta.

No mesmo parque – só que do outro lado – acompanharia um jovem casal aproveitando um momento de doce intimidade beijando- se de forma sôfrega como se dependessem disso para sobreviverem.

Interessante. No mesmo parque em outra extremidade, dois jovens fumam crack totalmente alienados do mundo que os cercam. Olhos sem viço, miram o nada, largados detrás de uma moita que os acobertam.

Sigo minha viagem.

Aterrizo num parapeito de onde posso ver que dentro é uma classe de crianças.

Uma jovem professora escreve no quadro negro enquanto alunos brincam entre si jogando bolinhas de papel. Alguns se mantém focados na matéria escrita na lousa. Uma aluna ao fundo abre sua valise e pega um espelho.  Mostra-se precocemente vaidosa.

Numa outra janela, vejo uma senhora idosa pendendo sua cabeça para trás envolta num agradável cochilo. Luta intermitente entre manter-se acordada assistindo sua novela e render-se ao sono.

Impera o segundo.

Voo mais alguns quilômetros até cansar e pousar numa janela onde olhando, vejo a mim mesma sentada de frente a uma escrivaninha teclando. Pareço concentrada.

Aperto meus pequenos olhos de ave e vejo que na tela do computador já está desenvolvida uma história comprida! Nossa! Ela escreve muito! Olha só seus dedinhos como teclam nervosamente.

Algo chama sua atenção e num virar de pescoço, vejo-a olhando para mim. Fica um tempo me admirando e em seguida abre um sorriso.

Olho no olho. Mulher e rolinha. Não piscam. Uma adentra o universo particular da outra.

Uma ansiando – por um minuto – trocar de vida. Rolinha desejando ser humana. Humana desejando ser uma ave. Uma vida inteira passa por esses olhos que travam um embate num tempo infinito.

Ao longe, ouço um apito que me chama à realidade. Demoro para sair desse torpor e perceber que é a panela no fogo cozendo meu caldo verde gritando para eu correr logo à cozinha antes que ele seque. Deixo de lado a mente criativa da escritora e faço com que assuma o comando a mente de cozinheira. Abro a panela, experimento a carne, permito que todos os meus sentidos se aflorem para degustar minha pequena obra prima. Fecho os olhos e tenho um pequeno gozo:

– Hummmmmm!!! Que isso está tinindo de gostoso!

Você leitor, consegue sentir daí o aroma do meu caldo verde com mandioquinha? Use você sua imaginação, sinta. Está bom demais!

Com sua licença, vou preparar a mesa e chamar meu povo para degustar essa maravilha.

– Pessoal, o caldo já está à mesa. Venham!

 

Imagem: Momento de reflexão de Edilene Pedroso

 

Ofício difícil

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Uma inquietação surge de repente. Agonia já conhecida que não incomoda mais.
Permanece dias a fio num crescente percurso. Hoje já não luto contra.
Abro-me inteiro e deixo fluir até se esgotar por completo e o ciclo fechar novamente. Cabeça lateja, olhos secam, estômago dói, noites sem dormir.
Dedos pulsam nervosamente tentando concretizar o torpor de mais uma vez compor uma nova história.
Esse ofício, que muitas vezes se torna tão difícil, nos impulsiona a seguir em frente.
Escrevo. Escrevo diariamente numa ânsia de purgar e exorcizar os fantasmas – meus e do mundo – de burilar as dores da humanidade. E assim torno possível vivenciar inúmeras vidas, diversas experiências que em mim, se torna muitas vezes impossível. Permito-me amar das mais diversas formas. Homens, mulheres, crianças, idosos. Conheço lugares, paisagens, teço em minha paleta de vivências, nuances indescritíveis.
Por algum tempo torno-me Deus. Gero minhas criaturas, designo seus destinos, amores e dissabores. Determino o término de suas vidas, desço-as à sepultura e depois as resgato trazendo-as ao meu lado recebendo com carinho de pai.
Sinto um ciúme descomunal, defendo-as até a morte se preciso for.
E assim, vou seguindo minha vida aceitando meu destino de escritor.

 

Imagem: Shutterstock

 

Gozo mortal

Hoje posto um texto que inicialmente, foi um capítulo de um primeiro assassinato num romance que iniciei no curso de criação literária feito em 2010. Esse projeto ainda está em pé e pretendo em breve retomar e terminar. Mas acabou virando um conto e publiquei ele no livro de antologia portuguesa Buracos ocultos, da Editora Pastelaria Studios, 2012.

Coletivo Claraboia

arrastao-blogando-por-prazer
A decoração, típica de quarto de hotel barato. A parede, de um rosa pálido. Na janela, aparentando nunca ter sido lavada, uma cortina amarrotada com estampas florais desbotadas pelo uso e pela luz do sol. No centro, uma cama antiga de madeira estilo provençal com uma colcha da mesma estampa da cortina. No lençol, uma esgarçadura dos inúmeros corpos que por ali já rolaram. Ao lado da cama, um criado-mudo com o verniz fosco e desgastado nas extremidades. Um velho abajur com grossa camada de poeira. De cada lado do leito, um tapete surrado cuja cor original já não é sequer perceptível. Os tacos, que um dia receberam uma camada de cascolac, hoje, não passam de um chão riscado pelas inúmeras arrastadas de móveis. A porta que dá acesso ao quarto traz a tinta descascada e estufada em várias partes.
Na antiga poltrona, no canto direito do quarto, um homem…

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Borrasca

  surrealismo de milan h O mar se encontrava revolto, bravio.

Seu olhar permanecia estático, no nada. A ventania prometia tempestade à vista.

Dentro de si, uma tempestade em proporção tsunâmica parecia querer estourar suas parcas barricadas de proteção. O que ele tinha lhe feito não tinha perdão!

Uma mistura indigesta de ódio, mágoa, amor próprio ferido se mesclavam dando-lhe um gosto ácido na boca. Uma onda gigante se arrebentou nas pedras lavando-lhe o corpo, despertando-a desse pesadelo que entrara minutos antes. Seu mundinho cor-de-rosa fora devassado, mudando a ordem das coisas que estabelecera para si. E isso ela não perdoava!

Não suportava ser contrariada. Principalmente no que dizia respeito ao seu mundo criado com tanta delicadeza e perfeição. Reconhecia que não poderia jamais voltar aquele local que por hora, encontrava-se despedaçado. Só ruínas.

Nada mais lembrava o início daquilo que, segundo ela, seria o paraíso na Terra enquanto vivesse. Esse paraíso não existia mais e o que permaneceu já não lhe interessava.

Caminhou pelo penhasco. De um lado, o oceano a se esparramar espelhando seu tormento interior. Movediço, escuro, espumoso feito sua alma inquieta.

Do outro lado, sua vida pretérita que agora já não lhe pertencia mais. Fora arrancada da pior forma. O que fazer? Para onde ir?

Sem saber, permaneceu ali, tendo as pedras pontiagudas a seus pés, o céu escurecendo cada vez mais e o mar mostrando-se irado. Não mais que ela.

Perdeu a noção do tempo em que ficou sem mover um músculo. O calor de suas emoções impediram que sentisse que a temperatura havia caído bruscamente.

A chuva desabou inclemente lavando a tudo inclusive sua dor. Agora, apenas algumas gotas atrasadas chegavam a ela indicando que a fúria havia passado e ido para outras paragens. Com os cabelos e roupas colados ao corpo, olhou mais uma vez para baixo, no penhasco e por um instante titubeou.

Balançou de forma insegura mirando o fim do precipício e, num movimento rápido, arremessou com todas as suas forças.

A aliança que um dia significou todo seu amor e toda sua vida ao lado daquele que , de forma irresponsável,  pôs seu mundo a perder.

Despiu-se também numa atitude de se desvencilhar de tudo o mais. Respirou aliviada.

Resoluta, voltou para seu carro no meio fio e velozmente seguiu destino desconhecido. Contrário ao caminho que tantas vezes fez naqueles quinze anos de vida em comum.

Não pisaria ali nunca mais.

Sumiu na estrada deixando apenas um rastro de pneu no asfalto molhado.  

 

Imagem: Milan Hrnjazović    

Cantiga para José(s)

torcedor chorando

 

Parafraseando o nosso talentoso Drummond:

E agora José(s)?

A festa acabou, o time perdeu (de goleada), os carnês da Casa Bahia estão vencendo, você não vai ganhar uma segunda TV por R$1 real, perdeste o emprego por querer assistir aos treinos da seleção.

E agora José(s)?

Tudo no supermercado aumentou, as tarifas subiram, o aluguel está para vencer também.

E agora José(s)?

Maria cansou de esperar uma atitude sua, deu um belo pé na bunda e seguiu sua vida lavando, passando, indo de casa em casa fazendo diária pra sustentar Ronildo, Josefa, Marlysonian, Wachinton, Claudiornária e tantas outras crianças advindas desses relacionamentos que acabam sempre nas mãos calejadas de mulheres guerreiras.

E agora José(s)?

A situação no país não está mole não. Emprego está difícil, mão de obra cada vez mais especializada e você mal terminou a terceira série primária.

E agora José(s)?

O que fazer com o dissabor de mais essa derrota? Mais uma entre tantas que coleciona em sua parva vida?

Só te digo uma coisa José(s): ainda há tempo para reverter tal situação. A Copa não importa. É apenas um grande circo místico criado para te envolver numa verdadeira lavagem cerebral desviando sua limitada atenção de coisas sérias que correm pelas laterais. Essa encenação toda que moveu milhões e milhões – coisa que você jamais terá noção de quantos zeros levam – impediu que você enxergasse a realidade que move o país. Gigante pela própria natureza, és belo, és infantil, és manipulável.

José(s), está mais que na hora de acordar para a realidade. Ela pode ser dura mas é o que tem portanto, lute por ela, cresça por ela, viva e evolua por ela.

Outubro está próximo José(s), e eis uma nova chance de você provar que está maduro, consciente, que tem discernimento e que pode e deve tomar em suas mãos, as rédeas de sua própria vida. Pense!

Está na hora de tirar os olhos de Big Brother, Ídolos, novelas das nove, esquecer as paniquetes e tantos outros lixos que entulham e embaralham seu raciocínio já turvo pela fome e dificuldades da vida.

Chega de se dopar com essas drogas que a mídia te faz engolir todo santo dia. Mude sua alimentação. Alimente-se de leituras. De preferência leituras que te façam refletir.

Ah não sabe refletir? Não tem problema José(s). Comece aos poucos, bem devagar e vá aumentando a dosagem semana a semana.

Seja obstinado nessa empreitada José(s). Até outubro tenho certeza que terá melhores condições de fazer a coisa certa.

Agora deixe de lado essa raiva pela derrota do time nacional, nada de queimar a bandeira, nem sair por aí barbarizando patrimônio público. Nada te devolverá a sensação de vitorioso a não ser sua determinação em crescer enquanto cidadão.

Deite essa noite sua cabeça – que por hora lateja de fracasso – e feche seus olhos pensando que amanhã será outro dia.

E que esse novo dia será um novo recomeço, mesmo que haja tropeços, seguirá em frente, de cabeça elevada e mirando o horizonte. Sem medos, sem choros, sem tremor nas mãos.

Porque José(s), lembre-se: o verdadeiro herói não é aquele que entra de quatro em quatro anos numa arena e vence. Herói é você que acorda diariamente às 4h30 da manhã pega três conduções lotadas para trabalhar por um salário mínimo e mantém sempre esse sorriso e esse olhar de esperança, crente de que um dia será realmente feliz.

Tenha uma boa noite José(s).

 

Imagem: http://copawriters.wordpress.com/2010/04/23/nossa-selecao-nao-e-mais-nossa/

 

Trovadora do amor

cuore-musicale2

 

Busquei a Lua

perambulando pelas ruas,

tracejando calçadas, mirando o alto,

tropeçando no asfalto.

Encontrei luzes nos prédios

que te escondia

Deparei com nuvens que te camuflavam

procurei magia, não encontrei de dia.

Esperei a noite

só encontrei açoite.

Magoada, ferida, saí em busca do Sol

Encontrei trovadores a cantar e dançar

pelas ruas coloridas.

Juntei-me a trupe, aprendi as claves,

virei musicista.

Hoje tenho a Lua, o Sol, a natureza,

a me inspirar.

Trago você traduzido

em versos e notas musicais

 

Imagem: Google