Aceitação na noite de São João

Noite junina

O outono manifestou-se tímido, esparramando folhas avermelhadas aos poucos pelas parcas áreas verdes da cidade de São Paulo. A estação passou feito um meteorito pela vida das pessoas afinal, havia tanto no que pensar e comentar que acabou passando quase que despercebido. E eis que adentramos o inverno.

Aquele veranico fora de hora foi-se e o clima esfriou fazendo as pessoas se recolherem em si.

Já é de minha natureza ser introvertida. Sou o que costumo chamar de falsa extrovertida. Os mais íntimos – que são bem poucos – sabem que sou brincalhona, espirituosa, cínica e cética cada vez mais. Mas, aos olhos de estranhos e de quem tenho pouco contato, mostro-me tímida, arredia, distante.

No passado, fui chamada de metida, exibida, nariz em pé. Tudo por conta da timidez, minha desconfiança nata, minha pouca visão (visão mesmo, naquela época não usava óculos ainda).

Até o ano passado, por cerca de dois anos mergulhei numa crise existencial terrível onde botei na balança toda a minha vida. Questionei escolhas, não escolhas, profissão, amores e meus muitos dissabores.

Senti vontade de jogar tudo pro alto e sair feito o advogado beberrão George Hanson, pegar minha moto e sair pelas vicinais, totalmente sem destino. Mas daí me dei conta de que não tenho moto. Quis bancar Telma & Louise então cai na real pois nem aprender a dirigir aprendi.

Após muito refletir sobre mim, percebi que as correntes que me prendem a realidade são muito mais profundas que meras correntes de aço. As responsabilidades que abraço, os compromissos que tomei para mim durante toda minha vida são laços muito mais fortes que qualquer outro.

Sentia-me presa, acorrentada, amordaçada. Desejava gritar mas não saia som. Brigar mas não tinha com quem afinal, sempre fui cercada por pessoas que me amam e que amo também.

Sempre ouvi dos mais velhos a seguinte frase: Crescer dói.

Achava isso uma tremenda babaquice dos mais velhos. Sempre os critiquei principalmente quando adolescente. Achava-os fracos, chatos, ranzinzas. Não sabiam de nada. Houve até um período em que fui tão avessa a minha mãe que hoje, pensando nela e na sua conduta comigo, não tem como não sentir uma tremenda admiração por sua força, caráter e sabedoria. Ela aguentou firme todos os meus ataques, minhas revoltas, meus achaques. Sonhava em ter como mãe, a vizinha do lado. Nunca ela – que em minha opinião era uma fraca.

Quantos equívocos numa mente adolescente!

Hoje, prestes a completar cinquenta e um anos de vida, rendo minhas homenagens e meu respeito profundo por essa mulher que foi ponta firme para aguentar não só os meus ataques mas dos quatro filhos que, cada um a sua maneira, também foram rebeldes, tiveram suas crises.

No ano passado deixei rolar muitas lágrimas fazendo uma verdadeira lavagem na minha alma. Purifiquei com água e sal toda toxina de meu organismo. Em especial, as toxinas emocionais que é o que mais acabam com nossa alegria de viver.

Ao completar cinquenta anos, foi como se um véu invisível fosse retirado de meus olhos e voltei a enxergar a vida exatamente como ela é: real!

As águas turvas em meu interior se abrandaram e segui minha vida apaziguando erros e acertos. Voltei a sorrir, a ter esperança. a ter desejos de viver.

Viver não mais aquela vida idealizada, perfeita, cor de rosa.

Hoje aceito todos os matizes que a aquarela da vida me proporcionar. Tons nudes, quentes, frios, mesclados, preto e branco.

Aceito hora estar nas alturas sentindo o frio na barriga proporcionado pelas aventuras e alegrias como também aceito os momentos envoltos nas penumbras,nas sombras, nos meios tons cinzentos que a alma me presentear.

Na medida do possível, aceito as pessoas como elas são, aceito o que podem e querem me doar. Continuo na eterna busca da evolução só que agora, não  mais levada pela ansiedade típica da juventude. Não desejo salvar o mundo, muito menos modificá-los. Hoje tenho consciência de que isso não é de minha alçada. Foco em mim sem jamais deixar de olhar para o lado e ajudar o próximo naquilo que me for possível. Não corro mais atrás da visão heroica. Continuo com a mente nas alturas mas com os pés muito bem fincados ao chão.

Tenho aprendido que devemos viver cada dia por vez. Nada de projetar adiante deixando de viver o instante atual. Também tenho aprendido que o passado deve ficar exatamente onde está. Guardado com todo o carinho nas imensas gavetas da memória. Vez ou outra até que é bom abrir, retirar e recordar. Agora, deixar todas elas abertas vivendo na bagunça das inúmeras lembranças se negando a voltar ao presente, não mais! É imprescindível aceitar e fechar os ciclos quando esses se mostram completos.

Sem dúvida que crescer dói!

Tenho aprendido isso na prática. Mas quer saber? Que delícia de dor! E nem coloco aqui a ideia masoquista da dor.

Não! Digo delícia de dor no sentido de que é doendo que vemos nossos músculos emocionais se mexerem, fortalecerem e ganhar força. Somos todos atletas. Conscientes ou não. Amadores ou não. Por conta disso tudo, encerro por aqui meu agradecimento profundo ao dom da vida. Agradeço meus sorrisos ininterruptos, meu brilho nos olhos, meus choros, meus ais, minha rugas que agora começo a colecionar e não dispenso nenhuma. São minhas medalhas ganhas nessa maratona chamada vida!

Pego meu copo cheio de quentão e te convido a pular a fogueira ao meu lado.

Tin-Tin!

“São João, São João acenda a fogueira no meu coração. O balão vai subindo, vem descendo a garoa…”

 

Imagem: Noite de São João

Autor: Assis Costa

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22 comentários sobre “Aceitação na noite de São João

  1. Roseli, que perfeição de crônica, mulher! Você conseguiu passar todos os aspectos do texto para a minha mente, de forma que posso observar e contemplar.
    Sou jovem e tenho muito, muito, muito a aprender, tenho meus baques e recaídas emocionais e acabo guardando tudo por não conseguir desenhar o que eu sinto ou o que está acontecendo em minha mente, afinal são tantas coisas… Ansiedade para viver e conhecer o mundo a fora, as consequências dessa aventura e ainda procurar ou achar alguém para dividir a cama. Eu tinha tantas dúvidas e não sou mais a mesma pessoa que era sem ler esse texto, portanto, muitíssimo obrigada. Desejo a você somente coisas boas, coisas maravilhosas e intensas, para poder nos escrever cada vez mais e mais crônicas sensacionais como essa!
    Um grande beijo carinhoso da sua pequena-grande admiradora,
    Ingrid.

    • Ingrid querida, seu comentário foi o melhor presente que talvez receba nesse meu aniversário. Sabe, compartilhar nossas vivências, experiências e poder servir de parâmetro para outras pessoas é algo de um valor incalculável. Não tem preço! Obrigada pelo seu carinho, por acompanhar meu blog que espelha minha alma e por suas palavras.
      Bjs

  2. Alguém já declarou que o melhor concelho que poderia dar aos jovens é que envelhecessem. Aos 54, olho pra trás, ajeito o óculos e melhoro a mira. Caminho mais devagar e nem tudo me parece em alinho. No entanto, que delícia.

  3. Como diria uma personagem de um conto meu: Ah, a maturidade… rs. Lendo seu texto fiquei com a sensação de que serei uma eterna adolescente, já que a revolta é a característica mais clara de minha personalidade 😮
    Quando é seu aniversário?

    • Manoel torço pra não pegar dengue mesmo! Aqui em casa já tenho três dengosos, rsrs
      Obrigada pelo carinho e amizade. São vocês que me fazem mais rica e feliz, Pode acreditar!
      Bjs

    • Você resumiu muito bem. Caminhadas e experiências parecidas e muitas coisas em comum mas sempre única! É isso que faz cada ser especial. E agradeço sempre ter como companhia nessa caminhada seres tão especiais. Grata por aceitar meu convite!
      Bjs

  4. Crescer não doi tanto quanto envelhecer . Ou deixar-se fenecer. Ficar velho é legal!! Não tem mais nada para provar para ninguém. Consegue-se brincar pelo atalhos. Deliciar-se pelo dia. Orgulhar-se por andar sem dor ou com muto pouca dor. Ajeitar o óculos para mudar de assunto. Ver que sabe muito mais e saber que tem muito mais para dizer. Só perguntar, pedir …

    • Amigo, só tenho a agradecer, a louvar o dom da vida, as conquistas que, ao parar e analisar foram muitas. Agradeço a saúde, a inteligência, o amor que aqui dentro transborda,os amigos que fui conquistando e que hoje são meus maiores tesouros. Viver é bom demais!!
      Bjs

  5. Sensacional Rose!

    Penso que nessa vida nunca atingiremos o desenvolvimento completo. Há sempre o que se aprender, o que se compreender, o que se aceitar em relação a tudo que um dia achamos estar perdido. Nada é no todo adverso, tudo aos poucos ocupa seu lugar em nossas vidas e isso é bonito de se ver e viver. Parabéns por alcançar esse sabedoria minha querida!

    Gr. Bj.!

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