Solilóquio (com João)

s-joaoNoite alta, noite escura

Olho pro alto e peço um dedo de prosa

Com ele, o Santo do dia

Meu querido São João, olhe por essa

que sendo sua cria, clama!

Tenha piedade dessa mimosa,

Que dessa vida só quer ser amada

Cansei de cilada!

João, chega mais! Desejo te confidenciar

Só quero amar, ser amada, reverenciada

Pode ser por um João, um Carlão

Pode até mesmo ser um Sebastião.

Se por acaso, só sobrar um Osmar,

um Waldemar, quem sabe Laurimar,

acredite, não vou reclamar.

Desde que o moço se apresente

com compostura, elegante na simplicidade,

devoto,cumpridor de seus compromissos,

que na relação, jamais seja omisso

e que faça jus ao nosso compromisso.

Joãozinho, chega mais, quero te falar

É que meu Santo…

Meus junhos têm passado rápido,

Minhas vontades aumentado,

Uma querença imensa tem se instalado

Bem aqui ó!

 

Ai, como dizer sem ferir sua santidade,

sabe santinho, já estou passando da idade

e tem coisas que ansim, ansim…

Entende?

Não?

Pergunta pro Antonio, aquele desaforado!

 

Rezei tanto, fui até sua igreja original

fiz minhas preces, meus pedidos e ele,

acho que meio fodido (ah, não tapa os ouvidos não!)

de tanto ouvir perrengas das encalhadas por esse mundão,

ignorou meu pedido

Joãozinho, olha só

serei sua eterna agradecida e por conta desse apreço,

prometo angariar mais e mais devotas

Acredite: será o santo mais popular por aqui

Nem São Jorge, com toda sua força será páreo pra ti

Suas novenas, terão muitas cantilenas

suas bandeiras, serão as mais coloridas

sua fogueira que já é imensa

será permanentemente alimentada porque olhe,

a mulherada aqui tá pegando um fogo só!

 Então…

“Moça, deixou seu lencinho cair lá atrás.

Catei e senti seu perfume!

Quase caí pra trás! Delícia, fui às alturas!

Tal formosura, seu andar, sua desenvoltura

Seu quadril desliza e tem uma cadência…

Não tome como indecência, eu…”

 Quer dançar?

A quadrilha já começou

Muito grata pelo elogio

Gostei de você, moço garboso,

educado e muito, muito charmoso

Fique com meu lencinho

como prova de meu carinho…

“Olha pro céu meu amor
Veja como ele está lindo
Olha pra’quele balão multicor
Que lá no céu vai sumindo

Foi numa noite
Igual a esta 
Que tu me deste
O teu coração
O céu estava
Todinho em festa
Pois era noite de São João
Havia balões no ar
Xote e baião no salão
E no terreiro o seu olhar
Que incendiou meu coração”

Tu é poderoso hein João!

Letra: Olha pro céu meu amor

Composição: José Fernandes e Luiz Gonzaga

Aceitação na noite de São João

Noite junina

O outono manifestou-se tímido, esparramando folhas avermelhadas aos poucos pelas parcas áreas verdes da cidade de São Paulo. A estação passou feito um meteorito pela vida das pessoas afinal, havia tanto no que pensar e comentar que acabou passando quase que despercebido. E eis que adentramos o inverno.

Aquele veranico fora de hora foi-se e o clima esfriou fazendo as pessoas se recolherem em si.

Já é de minha natureza ser introvertida. Sou o que costumo chamar de falsa extrovertida. Os mais íntimos – que são bem poucos – sabem que sou brincalhona, espirituosa, cínica e cética cada vez mais. Mas, aos olhos de estranhos e de quem tenho pouco contato, mostro-me tímida, arredia, distante.

No passado, fui chamada de metida, exibida, nariz em pé. Tudo por conta da timidez, minha desconfiança nata, minha pouca visão (visão mesmo, naquela época não usava óculos ainda).

Até o ano passado, por cerca de dois anos mergulhei numa crise existencial terrível onde botei na balança toda a minha vida. Questionei escolhas, não escolhas, profissão, amores e meus muitos dissabores.

Senti vontade de jogar tudo pro alto e sair feito o advogado beberrão George Hanson, pegar minha moto e sair pelas vicinais, totalmente sem destino. Mas daí me dei conta de que não tenho moto. Quis bancar Telma & Louise então cai na real pois nem aprender a dirigir aprendi.

Após muito refletir sobre mim, percebi que as correntes que me prendem a realidade são muito mais profundas que meras correntes de aço. As responsabilidades que abraço, os compromissos que tomei para mim durante toda minha vida são laços muito mais fortes que qualquer outro.

Sentia-me presa, acorrentada, amordaçada. Desejava gritar mas não saia som. Brigar mas não tinha com quem afinal, sempre fui cercada por pessoas que me amam e que amo também.

Sempre ouvi dos mais velhos a seguinte frase: Crescer dói.

Achava isso uma tremenda babaquice dos mais velhos. Sempre os critiquei principalmente quando adolescente. Achava-os fracos, chatos, ranzinzas. Não sabiam de nada. Houve até um período em que fui tão avessa a minha mãe que hoje, pensando nela e na sua conduta comigo, não tem como não sentir uma tremenda admiração por sua força, caráter e sabedoria. Ela aguentou firme todos os meus ataques, minhas revoltas, meus achaques. Sonhava em ter como mãe, a vizinha do lado. Nunca ela – que em minha opinião era uma fraca.

Quantos equívocos numa mente adolescente!

Hoje, prestes a completar cinquenta e um anos de vida, rendo minhas homenagens e meu respeito profundo por essa mulher que foi ponta firme para aguentar não só os meus ataques mas dos quatro filhos que, cada um a sua maneira, também foram rebeldes, tiveram suas crises.

No ano passado deixei rolar muitas lágrimas fazendo uma verdadeira lavagem na minha alma. Purifiquei com água e sal toda toxina de meu organismo. Em especial, as toxinas emocionais que é o que mais acabam com nossa alegria de viver.

Ao completar cinquenta anos, foi como se um véu invisível fosse retirado de meus olhos e voltei a enxergar a vida exatamente como ela é: real!

As águas turvas em meu interior se abrandaram e segui minha vida apaziguando erros e acertos. Voltei a sorrir, a ter esperança. a ter desejos de viver.

Viver não mais aquela vida idealizada, perfeita, cor de rosa.

Hoje aceito todos os matizes que a aquarela da vida me proporcionar. Tons nudes, quentes, frios, mesclados, preto e branco.

Aceito hora estar nas alturas sentindo o frio na barriga proporcionado pelas aventuras e alegrias como também aceito os momentos envoltos nas penumbras,nas sombras, nos meios tons cinzentos que a alma me presentear.

Na medida do possível, aceito as pessoas como elas são, aceito o que podem e querem me doar. Continuo na eterna busca da evolução só que agora, não  mais levada pela ansiedade típica da juventude. Não desejo salvar o mundo, muito menos modificá-los. Hoje tenho consciência de que isso não é de minha alçada. Foco em mim sem jamais deixar de olhar para o lado e ajudar o próximo naquilo que me for possível. Não corro mais atrás da visão heroica. Continuo com a mente nas alturas mas com os pés muito bem fincados ao chão.

Tenho aprendido que devemos viver cada dia por vez. Nada de projetar adiante deixando de viver o instante atual. Também tenho aprendido que o passado deve ficar exatamente onde está. Guardado com todo o carinho nas imensas gavetas da memória. Vez ou outra até que é bom abrir, retirar e recordar. Agora, deixar todas elas abertas vivendo na bagunça das inúmeras lembranças se negando a voltar ao presente, não mais! É imprescindível aceitar e fechar os ciclos quando esses se mostram completos.

Sem dúvida que crescer dói!

Tenho aprendido isso na prática. Mas quer saber? Que delícia de dor! E nem coloco aqui a ideia masoquista da dor.

Não! Digo delícia de dor no sentido de que é doendo que vemos nossos músculos emocionais se mexerem, fortalecerem e ganhar força. Somos todos atletas. Conscientes ou não. Amadores ou não. Por conta disso tudo, encerro por aqui meu agradecimento profundo ao dom da vida. Agradeço meus sorrisos ininterruptos, meu brilho nos olhos, meus choros, meus ais, minha rugas que agora começo a colecionar e não dispenso nenhuma. São minhas medalhas ganhas nessa maratona chamada vida!

Pego meu copo cheio de quentão e te convido a pular a fogueira ao meu lado.

Tin-Tin!

“São João, São João acenda a fogueira no meu coração. O balão vai subindo, vem descendo a garoa…”

 

Imagem: Noite de São João

Autor: Assis Costa

Morada fixa

Ainda que busque em outras bocas

seu gosto

Lembre-se: ainda te quero.

Mesmo que te esqueça em outros corpos

Lembre-se: ainda te pertenço.

Que passeie por outras paisagens

Adquira outros hábitos

Faça novas amizades

Viaje pelo mundo

Conheça outras culturas

Aprenda outras línguas

Tenha certeza: é em você que habito.

Ver(ter)

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Quero expressar mas…

faltam-me palavras,

foge-me a voz,

seca a garganta,

tremem as mãos.

Formiga os pés,

falta-me o ar,

olhos a marejar,

peito a palpitar,

estômago a embrulhar,

cérebro a embaralhar,

as idéias que tenho a te falar,

Espírito sente,

consente mas mente

Diz que te quer ver,

mas que não te quer

Derme desmente,

expõe tudo o que sente

Arrepia, te ansia

Beicinho se forma,

expressão se deforma,

lágrima rola

formando a palavra

Saudade!

Imagem licenciada: Shutterstock

Inseparável simbiose

marbravo2v

Sentada na encosta observo o mar

batendo incessantemente nas pedras.

Percebo que sou como elas, as águas.

Sua indiferença é como esse paredão

Inabalável. Imóvel. Muda.

Eu, enquanto água, me jogo, te ataco, estapeio,

espirro de tanto amoródio por ti.

Arrebento-me toda e,

em moléculas quebradas, volto ao ponto inicial.

Você segue sua vida intacto.

Eu, sigo remendando os cacos das quedas.

E permanecemos assim, anos a fio

Você irredutível

Eu, mar bravio

Você intocável

Eu, implacável

Você glacial

Eu, vulcânica

Inseparável simbiose

 

Imagem:  Mar bravo, Pedro Mendes