O inferno é aqui

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Cidade de São Paulo, terça-feira, 18h30.

Zumbis tomam conta das ruas. Alameda Santos e suas paralelas se tornam passarela para esses seres que percorrem as calçadas, atravessam as ruas e somem por entre as esquinas. Na avenida Paulista, o cenário não muda. Só amplia. Se multiplica transformando todas as vias em serpentes humanas. Uma tensão toma conta do ar já poluído. Atravesso a rua da Consolação desviando de grupos que perambulam mal dizendo a vida, o governo, Deus. Ultrapasso esse grupo. Aumento o som do meu MP3. Ouço Legião Urbana e entro na faixa Geração Coca-Cola. Chego a rir de toda a situação. Nunca uma canção foi tão bem situada quanto essa, nesse momento. Mais a frente, outro grupo de jovens totalmente sem noção acham graça de toda a situação e dizem que tem mais é que haver quebra-quebra. Um dos rapazes pula e soca um Banner de loja. Outro mais à frente, chuta uma lixeira presa ao poste. Estoura a lixeira esparramando lixo pra todo lado. Outro da trupe, influenciado por esse, decide que tem que chutar uma banca de jornal. Chuta uma, duas, três vezes até a lateral ficar toda amassada.

Respiro fundo e conto até dez pois minha vontade é de também estourar a cara desses dois energúmenos que vandalizam bens públicos. Não tenho tempo a perder pois tenho compromisso. Aperto o passo.

Lojas de portas cerradas, luzes apagadas. Sons de passos apressados. Todos desejam se teletransportar para a segurança de suas casas. Se é que existe segurança.

Cidade de São Paulo, terça-feira, 20h13.

Subo dois quarteirões da rua da Consolação para chegar a estação Paulista e pegar a linha amarela do metrô. Desejo urgentemente chegar em casa. O cansaço aliado a fome me estimula a andar mais rápido. A preocupação com a segurança também.

Viagem segue tranquila até chegar a estação Pinheiros. Preciso fazer a baldeação para a plataforma do trem da CPTM que me levará para casa. É onde começa a verdadeira peregrinação ao Inferno de Dante. Não tenho outra imagem a não ser essa para as cenas que vi.

Uma massa humana caminha feito lava de vulcão. Cabeças se movem, bocas se mexem, braços gesticulam e desenvolvem uma coreografia digna de Maurice Béjart, que impressiona a qualquer um que preste maior atenção. Infelizmente a maioria se preocupa unica e exclusivamente com a conquista de um milímetro de espaço na escada rolante que não funciona. Tapas, xingos, palavrões, gritos de mulheres histéricas diante de tão situação.

Eu, macaca velha que sou, saio pela tangente e circulo pelas beiradas da massa. Não sou louca de me misturar a essa loucura coletiva. Quero sair dali também mas desejo chegar inteira em casa. De preferência, não faltando nada em minha bolsa. Sigo em direção as escadas convencionais que ficam um pouco afastadas e subo junto daqueles que também usaram a massa cinzenta de forma mais inteligente. A serpente humana que sobe e desce a mesma escada é algo até bonito de se ver. Parece que todos combinaram os passos que se tornam cadenciados. Hora sobe, hora para, hora desce e assim caminhamos subindo cinco lances de escadas. Nem tive tempo e curiosidade em contar quantos degraus. Parei um instante para olhar para baixo e o que vi era algo de deixar qualquer um de boca aberta. Um verdadeiro formigueiro humano. Serra Pelada em plena estação Pinheiros. Só dava flashes de celular. Todo mundo tinha de registrar tal fenômeno. Sigo meu caminho continuando pelas beiras até chegar a plataforma de trem da CPTM. Em questão de minutos o trem estaciona e entro. Vou em pé mesmo mas feliz da vida por observar rostos apenas cansados de um dia de trabalho. Nada daquelas carrancas e gritos de guerra. Apenas expressões caídas, olhar perdido em pensamentos. Talvez pensando nas contas do fim de mês a pagar, na prestação da TV novinha comprada em 36 vezes nas Casas Bahia, para assistir aos jogos da Copa afinal, apesar de tudo, é COPA minha gente!

Não que eu ligue para futebol, não mesmo mas é bom demais ver as pessoas mais alegres, mais esperançosas por conquistas. Nem que seja do time que represente o país.

Chego em minha rua. Silenciosa, sem uma única viva alma a caminhar por ela. Somente eu e minha sombra refletida no asfalto.

Ao deitar, procuro me sintonizar com algo maior e agradecer por mais um dia de vida. E sobrevivência nessa selva de pedras chamada Sampa. Deixa eu dormir porque amanhã tem mais.

 

http://mais.uol.com.br/view/15042941

Imagem: Inferno de Dante (Bartolomeo – séc. XV)

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8 comentários sobre “O inferno é aqui

  1. Zumbis e o inferno de Dante. Visualizei sério isso tudo. Geração Coca-cola e massa subjetivada em guerra declarada sem saber bem contra quem. Vontade de puxar o cinto? Eu também. 😉 Ótima crônica, como de costume. Representa bem um mundo do qual só gostaríamos de falar em escritas de ficção 😦

    • É… na ficção tudo ganha cores e um filtro diferenciados. Na vida real, dá vontade de sair atirando mesmo. Affê!! Muita calma nessa hora! rsrs Obrigada pela visita e comentário. Adoro os seus!

    • É Mariel, semana aqui em Sampa foi punk! Só sendo muito safa (no bom sentido) é que sobrevive. Por isso, final de semana quero nem sair de casa. Descanso total. Se preparar porque não sei o que vem por aí. Não sou pessimista mas também tenho consciência de que não vivo em Óz.

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