Fábula urbana

caminhos

A garoa desce pela metrópole como um manto gelado cobrindo rostos atormentados pelo cansaço de mais um dia de trabalho.

O trânsito, só para variar, se torna caótico formando de imediato uma serpente que circula de forma sinuosa pelas ruas materializando um imenso cordão de luzes.
Buzinas se fazem ouvir a quilômetros de distância anunciando mais uma noite complicada. Infeliz profecia afirmando que todos chegarão muito tarde em suas casas.
Nas imensas filas que se formam nos terminais de ônibus,expressões de aborrecimento, preocupação, raiva e revolta se mesclam aos olhares de fome voltados para o rapaz que prepara e vende os “churrasquinhos de gato” na esquina rivalizando com o quiosque que vende do outro lado da rua, salgadinhos e saquinhos de pão de queijo que fazem a alegria daqueles que têm uns trocados para gastar.
Ônibus chega lotado.  Ônibus sai abarrotado de material humano empilhado uns sobre os outros e assim, sucessivamente, a tormenta do homem comum não tem fim. Nas estações de trem, o mesmo clima de sofrimento contido no olhar, nos corpos encolhidos e envergados pelo vento gelado que vem do rio, pelo cheiro fétido que sobe dele denunciando a todos, sua morte lenta.
A chegada do trem traz mais sofrimento. O embate para se sair de dentro e para se conseguir entrar nele chega a ser a materialização de uma batalha grega. Homens embrutecidos se digladiam, se empurram, se xingam, urram toda sua ira diante dos mais fracos. Mulheres assustadas se desviam desses soldados anônimos e se escondem atrás das pilastras.
Na avenida que segue paralela à linha do trem, mais combates, agora através da velocidade e das manobras enlouquecidas de motoristas que despejam toda sua raiva no volante. Veículos domésticos, caminhões, motos, cada um à sua maneira, tentam mostrar sua potência, sua superioridade diante de seu companheiro de viagem nessa estrada marginal. Marginal sob todos os aspectos. E o frio aperta, gela, faz doer, faz arder pele, olhos, boca, garganta, alma.
E diante de toda essa tragédia diária, uma criatura quase etérea , brinca, dança, dá giros sobre si mesma, com seus pés descalços e encardidos. Canta de forma aguda uma ladainha sem palavras com os olhos embaçados.
Ora rindo, ora gritando e afugentando os mais curiosos e desrespeitosos.
Envolta num cobertor ralo e sujo, sente-se uma princesa dançando num imenso salão, tendo a noite escura e nublada como testemunha de sua alegria. Diz a todos que passam por ela fitando-a num misto de medo e curiosidade, que está feliz pois seu príncipe em breve chegará para levá-la ao reino de alegria e abastança.
Pobre menina-mulher! Em seu delírio ocasionado pela fome, frio e crack, acredita que sua felicidade está próxima.
A noite avança trazendo mais chuva e frio.
A cidade amanhece cinzenta e triste.
Próximo a estação, além da movimentação constante do dia-a-dia, uma outra paralela acontece. Curiosos se juntam, se acotovelam para ver de perto a princesa da ponte que jaz ao solo gelado mantendo um sorriso de quem acaba de encontrar seu amor e um olhar vítreo de quem já não se encontra mais presente.
Ela tinha razão. Em seus delírios, afirmava que seu sofrimento estava por terminar e que em breve, seria levada para um outro reino. Só não sabia que seu príncipe era o enviado da Morte. E que só ela, a morte, traria o descanso desejado.
Com a curiosidade saciada, as pessoas retornam à sua rotina, esquecendo de mais esse personagem.
A vida segue.
Imagem: “Caminhos”, de Andrew Ferez
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6 comentários sobre “Fábula urbana

  1. Que perfeita descrição do caos urbano, do trânsito, da garoa paulistana… Eu que nunca estive em Sampa mas que já enfrentei lotação por aqui, reconheci o próprio caos como um personagem familiar. E a vida segue… esse belo texto só podia se encerrar com este nosso mantra de todos os dias! Beijo!

    • E a vida segue… E seguiu que o término do dia de ontem dá um ótimo mote para uma nova crônica urbana. Voltar para casa foi sem dúvida uma outra aventura. É nosso preço por morar numa metrópole. Obrigada pelo belo comentário. Bjs

  2. Adorei! Visceral e real, muito real. Que sensibilidade. Lendo o seu agora, noto que estávamos em frequência parecida ontem… o meu, não tem essa excelência, mas postei ontem (já hoje no relógio…rs), antes de ver o seu. (Tempestade). Histórias diferentes, temática e abordagem diferentes, mas a frequência… depois me diz se concorda, posso estar viajando.
    Inté!

    • Marcia Bom dia!
      Li esse seu comentário e corri pra lá pra ver se pegava ainda a tal “tempestade”, rsrs
      Menina deixa de modéstia porque o seu texto está bárbaro! Concordo com você, a frequência, a batida do texto está na mesma cadência que o meu. Esses dias “tempestuosos” aqui em Sampa tem me dado material para muitos contos e crônicas. O jeito é aproveitar! Inté!

    • Tô bem aqui Mariel, rsrs
      Esse texto é antigo, de 2010 quando fiz o curso de criação literária. Estava engavetado e com todos esses acontecimentos da semana aqui em Sampa, lembrei-me dele e decidi postar. Detalhe: Essa personagem realmente existiu e ficava sempre perambulando próximo a estação de trem. Coitada! Um dia sumiu e daí veio a ideia de fazer o texto.
      Abraço!

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