Gratidão

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Outro dia me dei conta do quanto afastada estou de toda e qualquer religião.

Veja bem, não me considero ateu muito menos estou a toa mas confesso que de uns anos pra cá me afastei de tudo.

Em parte porque percebi que qualquer igreja – por melhor que seja a sua filosofia – está contaminada por pessoas.

E essas pessoas sim, é que têm distorcido as religiões a seu bel prazer e interesse. Toda igreja está repleta de egos inflados que se acham acima dos demais cristãos ou “criaturas” como muitos gostam de frisar.

Desde pequena que ouço que devemos passar tudo pelo crivo da razão. Que não podemos desenvolver a fé cega.

Até concordo com esse pensamento e durante muitos anos seguidos, fui fiel a essa máxima e dei o melhor de mim em trabalhos voltados aos necessitados.

Meu pai, quando vivo, até tirava uma onda comigo falando:

– Daqui a pouco você está morando dentro do templo. Quase não te vejo mais, está sempre enfurnada nesses trabalhos voluntários. Deixa um pouco para os outros fazerem.

Chegava a ficar brava com ele por pensar assim e não ajudar.

Até que um belo dia parei e vi que cuidava tanto da vida alheia que descuidava da minha que se encontrava estagnada. Confesso que foi um choque!

Então pensei, pensei e repensei e decidi voltar a estudar e fazer minha tão sonhada faculdade.

Qual não foi a surpresa ao comunicar no Centro em que atuava que me afastaria para me dedicar aos estudos e fui severamente criticada pela maioria que dizia que eu os traía saindo do grupo e deixando os trabalhos voluntários para trás.

Saí de lá arrasada pois não compreendiam ou não queriam compreender que não basta cuidar do espírito.

Temos o dever de cuidar da matéria e da vida material que levamos por aqui enquanto vivermos.

Foi a partir daí que pouco a pouco fui me afastando de tudo aquilo que um dia acreditei. E cuidei de minha vida acadêmica, intelectual e financeira. Foi a melhor coisa que fiz afinal, se continuasse a trabalhar onde trabalhava ganhando um salário merreca, se não tivesse estudado e obtido uma profissão de fato, não sei o que seria de minha vida hoje.

Digo isso porque foi graças ao meu empenho, dedicação e garra que hoje tenho condições de ter um salário – se não super bom – pelo menos o suficiente para pagar minhas contas, cuidar de uma família (mãe e irmãs) que dependem de mim financeiramente.

Desenvolvi ao longo dos anos a minha religiosidade pessoal que trago aqui, bem no centro do peito. É baseada em todo o ensinamento que recebi de meus avós e meus país que foram grandes professores da vida para mim.

Meu pai, apesar de se dizer católico, passava léguas de distância das igrejas. No entanto, bastava alguém precisar de algo que imediatamente se colocava a disposição para ajudar. Foi um homem incompreendido por muitos enquanto viveu, inclusive por mim que hoje, consigo compreender sua grandeza através de tudo o que fez de bom para muitas pessoas.

Andei um pouco revoltada com os que se diziam altamente religiosos, com a palavra de Deus na ponta da língua mas que não mexiam um dedo para ajudar seu próximo. E ainda de lambuja criticavam a todos que não “rezavam” pela sua cartilha.

Decidi seguir os passos de papai que se dizendo um “perdido” na vida, se doou como ninguém em suas ações. Preferiu deixar a palavra de lado e agir.

Já ajudei a muitas pessoas e não falo isso no sentido de me autopromover. Não! Não mesmo! Faço porque gosto, porque me dá prazer ver a alegria estampada nos rostos que antes era só lágrimas. Faço e não espero nada nem recompensa de ninguém.

Faço e sigo adiante.

Lembrei que também não rezo faz um tempão. Recriminei-me mas, em pouco tempo, percebi que minhas orações saem naturalmente a partir do momento em que abro meus olhos quando acordo e digo:

– Obrigada por mais um dia!

E fecho meu dia dizendo:

– Obrigada por terminar mais um dia!

Acredito piamente que tudo que teria para pedir e agradecer numa extensa oração está sintetizado nessa pequena mas profunda frase de gratidão.   _()_

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14 comentários sobre “Gratidão

  1. Roseli,

    A Humanidade é assim feita que pretende tudo saber, tudo dominar, tudo colocar à luz da sua própria interpretação, e julgar… porque o que se não compreende raramente é aceite.
    Acredito que cada um deva encontrar a Luz que vive dentro do seu peito e que só assim poderá encontrar o seu equilíbrio.
    Quando esse foi encontrado e é genuino, é de forma natural e sem qualquer pensamento corrompido que a mão pode estender-se para auxiliar quem precisa.

    A sua crónica que nos diz, em doçura, a importância de crer… e não de mostrar que se crê…

    Abraço!

  2. Mais um lindo depoimento… coração aberto, pensamento reflexivo, atitude de quem vive a vida da essência à superfície. Espiritualidade é aquilo que se vive de corpo, alma e coração, em constante transformação pela felicidade de descobrir e redescobrir o bem-estar de ser… cada vez mais, a própria verdade. Adorei. Um abraço em você, amiga.

  3. Acho que a humanidade toda deve ficar a uma distância segura das igrejas em geral. Mas noa pode esquecer de manter Deus ao alcance das crianças. E todo mundo sabe que o Chefão não tem os intermediários na melhor conta.

    • Tem razão Mariel, infelizmente as igrejas estão enfestadas de aproveitadores da fé alheia. Mas as crianças devem receber uma orientação religiosa. É importante para sua formação.

  4. Congregar é muito bom, não posso negar. O problema maior é que quando o fazemos, em geral, não conseguimos separar nossa busca por Deus do que vemos ao nosso redor. Esquecemos que todos somos falhos e tendemos a cobrar mais daqueles que estão dentro da igreja. Deveríamos conseguir fazê-lo tão somente pelo que nos proporciona a intimidade com Deus e quando alcançamos isso, sem dúvida, é maravilhoso. Também ando distante ultimamente, mas tenho buscado. E confesso, não é fácil olhar só para o alto. Mas entendo que é disso que precisamos pra não afundarmos. Quando conseguimos isso, somos capazes de andar com os braços abertos.

    Gr. Bj.Rose!

    • O trabalho de cada um em evoluir é árduo. Necessita que se coloque tijolo por tijolo. Não dá pra dar passos gigantes pulando etapas. E nós, em nossa ansiedade tão peculiar, tentamos diretamente isso e quebramos a cara direto e reto. Faz parte. Um dia a gente aprende. Bom demais ter você por aqui hoje! Grata!

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