Rachaduras

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Rachaduras por toda parte. De uma hora para outra, tudo ao seu redor se rachava, formando interessantes rodovias. Sua casa, herança de seus pais e que outrora fora linda de dar inveja, agora cômodo por cômodo formou-se extensa geografia que se espalhava pelas paredes, tetos e até pelo chão . Primeiro aconteceu no escritório. Local onde passava horas de frente a tela do computador trabalhando. Ambiente arejado, que recebia as luzes da manhã inundando de claridade e renovando o ar. Costumava acordar, tomar seu café preto e seguir direto para lá onde ligava o computador e em minutos se inteirava do mundo através das notícias e de seu trabalho através de e-mails.

Um belo dia, final de tarde, já com os olhos cansados da tela luminosa, relaxou na cadeira ergométrica e elevou sua cabeça para trás com o nítido desejo de se alongar. Ao término desse exercício, abriu os olhos e foi onde percebeu pela primeira vez, uma veia sinuosa percorrendo o teto. Algo quase imperceptível. Na época nem ligou para tal fato.

Uma outra vez, foi na espaçosa sala de estar onde costumava receber amigos para jantares regulares. Encontravam-se em oito pessoas conversando animadamente sobre uma futura viagem que fariam juntos para o Leste Europeu quando num acesso de riso, olhou para o teto e capturou um rasgo de lado a lado da sala passando pelo bonito lustre no meio do ambiente. Chegou inclusive a engasgar diante daquele caminho traçado por algum bandeirante invisível. Todos riram e distribuíram tapinhas carinhosos em sua costa para ajudá-la a sair daquela crise. Com lágrimas despencando, agradeceu a todos e correu para o banheiro. Lá, assustada com a mais nova descoberta, chorou mais um pouco e a seguir, lavando o rosto, olhou para o espelho e disse a sua imagem refletida:

– Larga de ser tonta. É apenas uma rachadura. Ligue amanhã para um bom profissional e resolva isso de uma vez.

E dando em voz alta essa ordem a si mesma, riu da situação, ajeitou os cabelos, retocou a maquiagem e voltou para junto de seus convidados.

Em menos de um ano sua vida profissional sofreu um golpe deixando-a desempregada. Aos poucos, sua casa, antes tão alegre e movimentada foi ficando cada vez mais solitária. Só alguns amigos apareciam de vez em quando para uma rápida visita. De início ela até tentou compreender o sumiço de todos. Costumava alegar que ninguém gosta de ficar perto de perdedores, ninguém gosta de ouvir lamúrias.

Hoje, sabe que amizade existe se você estiver na “crista da onda” como costumava falar seu elegante tio Otávio, quando mais jovem. Não conseguindo uma colocação à altura de seus conhecimentos e experiência, decidiu fazer consultorias a pequenas empresas. Não dava muito dinheiro mas quebrava um galho. Melhor pouco do que nada não é mesmo? Era o que sempre dizia.

Quando tudo estava bem, sua vida afetiva também estava uma beleza. Namorava o Hélcio, um advogado dos bons, muito bem conceituado na área e disputado a tapa pelos clientes ricos. Pouco a pouco foi esfriando com ela, deixando de ligar, de comparecer, de convidá-la para jantares e encontros sociais. Até que ficou sabendo por terceiros que ele estava saindo com Dulce Carmona. Uma socialite linda, cheia de curvas e de dinheiro na conta bancária. Nem se deu ao trabalho de terminar formalmente com ela.

Através dessa conduta vil, ele criou a primeira rachadura em seu coração. Mal sabia que depois dessa viriam muitas outras.

Para aguentar o tranco, passou a beber ao término do dia. Era uma forma de desestressar. Sabe como é.

De um copo de vinho, passou a beber cerveja afinal era mais barato. Quando o dinheiro começou a escassear, passou a tomar aguardente pura. Anestesiava fácil. E os dias passavam lenta e duramente.

As rachaduras se espalharam para o resto da casa: cozinha, quarto, banheiro, área de serviço e finalmente, surgiu uma grande fenda no exterior da casa. Percebeu essa, numa manhã que tentava podar aquilo que um dia fora um belo jardim, hoje  uma mini floresta tropical.

De camiseta velha e puída e uma calça jeans pra lá de usada,  arrancava um tufo de capim em meio as roseiras queimadas quando parando um pouco para recuperar as forças, olhou para cima e deu de frente com uma fenda incrível que saía do solo e percorria a parede toda da frente da casa terminando no vinco formado pela parede e o telhado. Aquilo a deixou estarrecida.

Jogando fora a tesoura e o escardilho, foi conferir de perto tal rachadura. Mais uma para sua imensa coleção.

Percebia que seu imóvel estava condenado. Sabia que corria risco de vida inclusive se continuasse a morar ali. Mas o que fazer diante de tal situação?

Sua vida mudara muito desde que recebera aquela puxada de tapete daquele que confiava ao extremo. Fora alvo de uma artimanha ambiciosa que denegriu sua imagem de profissional correta e séria. Daí não conseguir mais emprego em sua área. Ficara marcada.

Cada vez mais sozinha, não tinha com quem dividir seus temores, suas dívidas, suas lágrimas que por hora rolavam ininterruptamente formando também em sua face, caminhos feito as tais rachaduras da parede.

Cansada, sentou-se no chão e se amparou na parede esticando suas doloridas pernas. Chorou como há muito não se permitia chorar. Ficou nessa posição por um tempo não datado por sua precária condição psicológica. Sentia-se cansada, vencida.

Abriu os olhos, agora inchados pelo choro e deparou com as palmas das mãos voltadas para cima que mostravam nitidamente vincos ressecados do trabalho caseiro ao qual não estava acostumada. Elevou suas mãos e observou o quanto elas se encontravam maltratadas. Ressecadas como sua casa, sua vida, seu espírito.

– O que fizeram de mim?

– O que eu permiti que fizessem de mim? Aceitei que invadissem minha vida, virassem ela de pernas pro alto, me sacaneassem e assisti a tudo de camarote sem nem ao menos tentar me defender. Que ódio de mim mesma!

Chorou mais um pouco até que toda lágrima secasse. Foi bom esse “descarrego emocional”.

Agora sentia-se aliviada e uma vontade imensa se apossou de seu íntimo.

Terminou a poda do jardim deixando-o bonito como há muito não ficava.

Entrou, tomou um banho demorado, passou óleo pelo corpo todo hidratando e perfumando. Um agrado que há muito tempo não se permitia.

Enrolada em seu roupão de banho surrado pelo tempo, foi até a cozinha fez uma xícara de chá de cidreira e bebericou aos poucos sugando aquele aroma doce que remetia a sua infância feliz. Sorriu.

Um brilho tomou conta de seus olhos denunciando que idéias se formavam. Levantou-se, fez uma ligação e disse:

– Imobiliária? Por favor quero colocar um imóvel a venda e gostaria de marcar uma visita para avaliação. Mas olha, não quero nenhum espertinho tentando me dar um golpe hein? Já vou avisando que golpistas conheço de longe e sinto o cheiro à léguas de distância.

Quero fechar um excelente negócio. Pode vir amanhã cedo? Perfeito!

Após essa ligação, rumou para o quarto onde tirou duas malas pesadas e começou a selecionar suas roupas e demais pertences. Aceitaria o convite tantas vezes feito por seu amigo Solano. O único que restou daquele grupo e que vivia falando para ela morar com ele até resolver sua vida.

Chega de sentir pena de si mesma. Hora de virar o jogo e dar as cartas novamente.

Hora de recomeçar!

 

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4 comentários sobre “Rachaduras

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