Falar é bom. Saber escutar, melhor ainda. Isso é se comunicar!

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Dia desses, uma colega adicionada no Face comentou um fato específico mostrando o quanto não damos mais atenção de fato ao outro.

E isso lembrou-me o quanto tenho refletido sobre essa questão. Até mesmo porque, costumo sempre ser procurada pelas pessoas para desabafos. Sou boa ouvinte. No entanto, quando em meados de 2012 enfrentei uma crise pessoal brava, procurei tanto um ombro amigo que me ouvisse. Tudo o que consegui foram conversas iniciadas e interrompidas pela metade pois, ao perceber que a pessoa que deveria de estar me ouvindo, encontrava-se léguas de distâncias de mim. Não tem coisa mais brochante que isso. Cheguei ao ponto de parar de falar, aguardar a pessoa voltar de Urano ou seja lá onde estivesse e perguntar: Nossa! O que falava mesmo? E a pessoa começava a falar de si demonstrando que meu desabafo não havia sido registrado nem sido importante para ela.

Tentei em casa, com familiares, tentei com amigos mais íntimos, amigos não tão íntimos, colegas de trabalho. Ninguém me ouvia.

Até que cheguei a conclusão que deveria pagar para ser ouvida. Iniciei minha terapia. Não me arrependo. No entanto, sinto falta de poder conversar mais abertamente e com informalidade com pessoas de meu círculo social e familiar.

Alguns, já deixaram claro que não suportam ouvir problemas dos outros. Já bastam os deles. Uau! Desculpe aí!

Outros, são incapazes de entabular um diálogo se o assunto não for ele(a). Mais uma vez, desculpe aí! Mas sempre se lembram dessa que vos falo aqui quando precisam se desabafar, expor seus problemas, suas ansiedades, suas carências. Tempos atrás, iniciei o que supus ser um relacionamento. Fiquei feliz de primeiro momento pois me iludi achando que finalmente encontrara uma pessoa que tinha tudo a ver comigo. Como me enganei!

A criatura só enxergava o próprio umbigo. Incapaz de olhar para o lado, para a frente ou para atrás e ver o outro, seu próximo, eu.

Mas sempre me cobrava atenção, carinho e respostas às suas ansiedades e preocupações. E lá estava euzinha, linda, solícita, caridosa, atenciosa. Sempre afofando o ombro para que ele encostasse sua cabecinha e chorasse suas mágoas de vida.

Até que cansei desse posto 24h de conforto às carências alheias. Me demiti.

Confesso que ouvi muitas reclamações desde então. “Nossa, como você está mudada!, Credo, você está diferente!, Eu hein! Depois que começou a fazer psicanálise ficou estranha!, Você está insuportável!

Acredito que fiquei mesmo insuportável aos olhos de quem somente me sugava e jamais retribuía o mínimo de atenção e carinho que mereço. No entanto, sinto-me hoje tão mais completa e liberta daquele serzinho que fui um dia. Deixei de ser escrava do outro. Passei a adquirir uma certa dose benéfica de egoísmo. Já que não encontro quem me ouça, prestando atenção em mim, olhando-me nos olhos, se interessando pela minha pessoa, faço eu mesma o trabalho.

Nunca conversei tanto comigo como nos últimos tempos. E quer saber? Sou ótima companhia. Até me apaixonei por mim mesma. Portanto, não sabem o que estão perdendo!

Deixando a brincadeira de lado e voltando a questão, é algo que preocupa pois a humanidade está pouco a pouco perdendo essa habilidade que tanto a diferenciou dos demais seres vivos. A capacidade da comunicação. Afinal, comunicar-se não é somente falar, falar, falar. Isso é tagarelice pura. Comunicar-se é falar mas também saber ouvir.

E pra terminar essa minha longa divagação, relembro aquele que é até hoje considerado o rei da comunicação, o comunicador Chacrinha e sua famosa máxima:

” Alô!!!! Terezinha! Quem não se comunica, se estrumbica!”

Entendeu humanidade? Ou será preciso desenhar e traduzir em Braille e Libras?

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Fluidez

Abre-se a fenda, jorra o líquido quente, pele dormente.

Observo num misto de surpresa, dor, curiosidade

Penetro naquele carmim, vejo que já não caibo em mim

Anseio sair desse invólucro carnal dessa vida nada consegui,

nada desejo levar.

foi mal.

Admiro as vias que o sangue desenha em meu braço,

cansaço.

Imagino que através dessas rodovias, posso

finalmente encontrar paz.

Quem sabe noutra esfera,

Aqui? Tudo exaspera

Sinto frio, visão turva

deixo a carcaça escorregar

mansamente

Nossa música toca

ao longe

Despedida.

Medida da paixão, Lenine.

Cantamos tanto,

nos amamos tanto…

Hoje,

restou a paixão

desmedida

Perdi a mão,

sua paixão,

Solidão

Poça

Sangue

 

 

E

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e.

 

 

O inferno é aqui

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Cidade de São Paulo, terça-feira, 18h30.

Zumbis tomam conta das ruas. Alameda Santos e suas paralelas se tornam passarela para esses seres que percorrem as calçadas, atravessam as ruas e somem por entre as esquinas. Na avenida Paulista, o cenário não muda. Só amplia. Se multiplica transformando todas as vias em serpentes humanas. Uma tensão toma conta do ar já poluído. Atravesso a rua da Consolação desviando de grupos que perambulam mal dizendo a vida, o governo, Deus. Ultrapasso esse grupo. Aumento o som do meu MP3. Ouço Legião Urbana e entro na faixa Geração Coca-Cola. Chego a rir de toda a situação. Nunca uma canção foi tão bem situada quanto essa, nesse momento. Mais a frente, outro grupo de jovens totalmente sem noção acham graça de toda a situação e dizem que tem mais é que haver quebra-quebra. Um dos rapazes pula e soca um Banner de loja. Outro mais à frente, chuta uma lixeira presa ao poste. Estoura a lixeira esparramando lixo pra todo lado. Outro da trupe, influenciado por esse, decide que tem que chutar uma banca de jornal. Chuta uma, duas, três vezes até a lateral ficar toda amassada.

Respiro fundo e conto até dez pois minha vontade é de também estourar a cara desses dois energúmenos que vandalizam bens públicos. Não tenho tempo a perder pois tenho compromisso. Aperto o passo.

Lojas de portas cerradas, luzes apagadas. Sons de passos apressados. Todos desejam se teletransportar para a segurança de suas casas. Se é que existe segurança.

Cidade de São Paulo, terça-feira, 20h13.

Subo dois quarteirões da rua da Consolação para chegar a estação Paulista e pegar a linha amarela do metrô. Desejo urgentemente chegar em casa. O cansaço aliado a fome me estimula a andar mais rápido. A preocupação com a segurança também.

Viagem segue tranquila até chegar a estação Pinheiros. Preciso fazer a baldeação para a plataforma do trem da CPTM que me levará para casa. É onde começa a verdadeira peregrinação ao Inferno de Dante. Não tenho outra imagem a não ser essa para as cenas que vi.

Uma massa humana caminha feito lava de vulcão. Cabeças se movem, bocas se mexem, braços gesticulam e desenvolvem uma coreografia digna de Maurice Béjart, que impressiona a qualquer um que preste maior atenção. Infelizmente a maioria se preocupa unica e exclusivamente com a conquista de um milímetro de espaço na escada rolante que não funciona. Tapas, xingos, palavrões, gritos de mulheres histéricas diante de tão situação.

Eu, macaca velha que sou, saio pela tangente e circulo pelas beiradas da massa. Não sou louca de me misturar a essa loucura coletiva. Quero sair dali também mas desejo chegar inteira em casa. De preferência, não faltando nada em minha bolsa. Sigo em direção as escadas convencionais que ficam um pouco afastadas e subo junto daqueles que também usaram a massa cinzenta de forma mais inteligente. A serpente humana que sobe e desce a mesma escada é algo até bonito de se ver. Parece que todos combinaram os passos que se tornam cadenciados. Hora sobe, hora para, hora desce e assim caminhamos subindo cinco lances de escadas. Nem tive tempo e curiosidade em contar quantos degraus. Parei um instante para olhar para baixo e o que vi era algo de deixar qualquer um de boca aberta. Um verdadeiro formigueiro humano. Serra Pelada em plena estação Pinheiros. Só dava flashes de celular. Todo mundo tinha de registrar tal fenômeno. Sigo meu caminho continuando pelas beiras até chegar a plataforma de trem da CPTM. Em questão de minutos o trem estaciona e entro. Vou em pé mesmo mas feliz da vida por observar rostos apenas cansados de um dia de trabalho. Nada daquelas carrancas e gritos de guerra. Apenas expressões caídas, olhar perdido em pensamentos. Talvez pensando nas contas do fim de mês a pagar, na prestação da TV novinha comprada em 36 vezes nas Casas Bahia, para assistir aos jogos da Copa afinal, apesar de tudo, é COPA minha gente!

Não que eu ligue para futebol, não mesmo mas é bom demais ver as pessoas mais alegres, mais esperançosas por conquistas. Nem que seja do time que represente o país.

Chego em minha rua. Silenciosa, sem uma única viva alma a caminhar por ela. Somente eu e minha sombra refletida no asfalto.

Ao deitar, procuro me sintonizar com algo maior e agradecer por mais um dia de vida. E sobrevivência nessa selva de pedras chamada Sampa. Deixa eu dormir porque amanhã tem mais.

 

http://mais.uol.com.br/view/15042941

Imagem: Inferno de Dante (Bartolomeo – séc. XV)

Fábula urbana

caminhos

A garoa desce pela metrópole como um manto gelado cobrindo rostos atormentados pelo cansaço de mais um dia de trabalho.

O trânsito, só para variar, se torna caótico formando de imediato uma serpente que circula de forma sinuosa pelas ruas materializando um imenso cordão de luzes.
Buzinas se fazem ouvir a quilômetros de distância anunciando mais uma noite complicada. Infeliz profecia afirmando que todos chegarão muito tarde em suas casas.
Nas imensas filas que se formam nos terminais de ônibus,expressões de aborrecimento, preocupação, raiva e revolta se mesclam aos olhares de fome voltados para o rapaz que prepara e vende os “churrasquinhos de gato” na esquina rivalizando com o quiosque que vende do outro lado da rua, salgadinhos e saquinhos de pão de queijo que fazem a alegria daqueles que têm uns trocados para gastar.
Ônibus chega lotado.  Ônibus sai abarrotado de material humano empilhado uns sobre os outros e assim, sucessivamente, a tormenta do homem comum não tem fim. Nas estações de trem, o mesmo clima de sofrimento contido no olhar, nos corpos encolhidos e envergados pelo vento gelado que vem do rio, pelo cheiro fétido que sobe dele denunciando a todos, sua morte lenta.
A chegada do trem traz mais sofrimento. O embate para se sair de dentro e para se conseguir entrar nele chega a ser a materialização de uma batalha grega. Homens embrutecidos se digladiam, se empurram, se xingam, urram toda sua ira diante dos mais fracos. Mulheres assustadas se desviam desses soldados anônimos e se escondem atrás das pilastras.
Na avenida que segue paralela à linha do trem, mais combates, agora através da velocidade e das manobras enlouquecidas de motoristas que despejam toda sua raiva no volante. Veículos domésticos, caminhões, motos, cada um à sua maneira, tentam mostrar sua potência, sua superioridade diante de seu companheiro de viagem nessa estrada marginal. Marginal sob todos os aspectos. E o frio aperta, gela, faz doer, faz arder pele, olhos, boca, garganta, alma.
E diante de toda essa tragédia diária, uma criatura quase etérea , brinca, dança, dá giros sobre si mesma, com seus pés descalços e encardidos. Canta de forma aguda uma ladainha sem palavras com os olhos embaçados.
Ora rindo, ora gritando e afugentando os mais curiosos e desrespeitosos.
Envolta num cobertor ralo e sujo, sente-se uma princesa dançando num imenso salão, tendo a noite escura e nublada como testemunha de sua alegria. Diz a todos que passam por ela fitando-a num misto de medo e curiosidade, que está feliz pois seu príncipe em breve chegará para levá-la ao reino de alegria e abastança.
Pobre menina-mulher! Em seu delírio ocasionado pela fome, frio e crack, acredita que sua felicidade está próxima.
A noite avança trazendo mais chuva e frio.
A cidade amanhece cinzenta e triste.
Próximo a estação, além da movimentação constante do dia-a-dia, uma outra paralela acontece. Curiosos se juntam, se acotovelam para ver de perto a princesa da ponte que jaz ao solo gelado mantendo um sorriso de quem acaba de encontrar seu amor e um olhar vítreo de quem já não se encontra mais presente.
Ela tinha razão. Em seus delírios, afirmava que seu sofrimento estava por terminar e que em breve, seria levada para um outro reino. Só não sabia que seu príncipe era o enviado da Morte. E que só ela, a morte, traria o descanso desejado.
Com a curiosidade saciada, as pessoas retornam à sua rotina, esquecendo de mais esse personagem.
A vida segue.
Imagem: “Caminhos”, de Andrew Ferez

Desgarrados

casal brigado

 

O clima entre o casal estava tenso.Palavras não ditas, mágoas engavetadas, guardadas feito souvenir de viagem.

A relação começava a pesar! Ela já estava cansada de relevar e engolir as desculpas do companheiro.

O amor, pouco a pouco, transformava-se num fardo difícil de carregar.

Assim como também difícil estava aguentar seu ego eternamente inflado.

Ansiava respirar ares mais leve. Esse, já se encontrava viciado.

 

Imagem: Pond5

Anjinhos

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– Você não é doutora!

Uma voz pequenina e aguda deu seu veredicto.

Sonia espantou-se e olhou para o lado vislumbrando uma criança mirrada, de olheiras profundas e cabelos escorridos e ralos.

– Sou sim! Não reconhece meu jaleco e estetoscópio? Só médico usa isso!

A pequena a mediu de cima a baixo, deu uma volta inteira observando cada coisa que compunha sua figura. Parou diante de Sonia, botou a mão no queixo e como um verdadeiro filósofo sentenciou mais uma vez:

– Mas não é doutora mesmo! Médico não é assim.

– Mas então… O que sou? Pode me dizer?

– Não sei não. Não sei se é criança, se é adulto… E ainda por cima está doente.

– Doente? Eu? Como pode falar isso?

– Doente sim! Olha só para suas pernas. E você deve estar bem pior que eu. Tá numa cadeira de rodas! Eu ainda consigo andar. Só me canso um pouquinho.

Não aguentando mais se segurar, Sonia caiu numa risada contagiante que fez as demais pessoas que se encontravam por perto rirem também.

– Pequena você é bem esperta pro seu tamanho. Como seu chama?

– Juliana E você?

– Sonia.

– Já que agora somos amigas, me fala: o que é você?

– Como assim? O que sou?

– Ah, é como te falei antes. Não consigo saber se você é criança ou adulto.

– Jú, posso te chamar assim né? Digamos que sou uma adulta com alma de criança. Ou uma criança no corpo de um adulto. Como achar melhor.

– Ahhhhh, entendi! Posso?

– O que?

– Passar as mãos em seus cabelos? Eles são tão brilhosos!

– Pode. Vem cá, dá sua mão. Passa assim. Isso!

– Macio!

– O que foi? Está chorando pequena Jú?

– Sim! Queria que meus cabelos fossem como os seus! Olha só como os meus estão podres! Arrebentam todinho! E dizendo isso caiu num pranto só.

– Vem cá minha amiguinha, senta aqui no colo da tia Sonia. Pode vir.

Aconchegando a menina em seu colo, Sonia a abraçou com tamanho carinho e emoção que algumas lágrimas também rolaram de seus olhos pintados.

– Minha pequena você é tão linda e especial! Seus cabelos estão caindo agora porque está para nascer outro mais forte. Por isso, não fique triste não. Em pouco tempo você terá novos cabelos e até mais bonitos que os meus. Acredite! Dou minha palavra de honra. Não é mesmo Doutor Fila Boia?

Outro doutor se aproximou das duas e as abraçou dizendo:

– A doutora tem toda razão Jú. Não tem por que ficar triste. Além do mais, hoje é dia de folia minha gente! Vamos cantar dançar e se divertir!

Após Doutor Fila Boia decretar que era festa, o saguão pegou fogo. Todas as crianças começaram a cantar e a dançar.

– Você não é doutora mesmo!

– Mas dizendo isso novamente!

– Eu ouvi você dizendo pro Doutor Fila Boia que está quase na hora de tomar seu remédio. Se você toma remédio, é porque está doente!

– É verdade pequena Jú! Agora você me pegou! Estou só um pouquinho doentinha. Nada grave.

– Sabia que eu também sou doentinha? E que todo mundo aqui também? Ó! A Kátia, aquela ali no canto com uma touca colorida e usando sonda, aquele menino que carrega o soro, aquela outra ali sentadinha com carinha de choro, a Laurinha. Ela está triste porque seus pais não vieram ainda. Talvez nem venham… Ei! Estão distribuindo salgadinhos e doces. Vamos lá pegar? – e dizendo isso saiu em disparada deixando Sonia de boca aberta com tamanha desenvoltura e beleza da criança.

– Está tudo bem? – disse Doutora Rabanete se aproximando de Sonia e dando um abraço nela.

– Sim! Apenas refletindo sobre a alegria de todas essas crianças que mesmo em condições difíceis, não deixam jamais sua alegria esvair-se. Às vezes me repreendo, pois me pego com pena de mim mesma achando que sofro demais.

– Natural sentir-se assim querida. Ninguém é de ferro.

– Obrigada por me trazer para esse trabalho voluntário. Está me fazendo um bem imenso. Além de desviar minha atenção da doença, está me fazendo conhecer pessoas lindas, feito esse pequeno tesouro que conheci hoje. É tão engraçado! Parece que já nos conhecemos de longa data.

-Também tenho essa sensação. E acho que sei o porquê.

– Sabe? Diz então!

– A doença humaniza e iguala as pessoas. Além de se aprender muito uns com os outros.

– Ei! Doutora qual seu nome mesmo?

– Sonia.

– Não! Seu nome de doutora!

– Ah! É mesmo! Meu nome é Doutora Pé na Cova. Desculpa tinha esquecido de me apresentar!

– Pé na Cova? – dizendo isso caiu na risada que não parava mais.

– Ai! Fiquei até com vontade de mijar!

– Qual a graça Jú?

– Simples doutora! Pé na cova estamos todos aqui. Mas ninguém quer saber de assumir que está né! Agora você foi corajosa. Tá com o pé quase do outro lado e encara isso numa boa. Parabéns!

– Nossa! Não tinha pensado nisso! Garota esperrrrrta! Ai está na hora de meu remédio. Preciso de um copo de água.

– Espera que eu e a Martinha vamos levar você até o bebedouro. O remédio está aí com você? – e falando sem parar, Jú foi empurrando a cadeira de rodas da Doutora Pé na Cova.

– Pára!Pára!Páraaaaa!

– Que foi?

-Você não pode empurrar a cadeira Jú! Não pode fazer esforço!

– Posso sim! E a sua cadeira é fácil de empurrar. Você não é pesada não! Pronto! Pode tomar seu remédio.

– Menina linda! Vem cá e me dê um abraço bem gostoso! Gostei de você viu!

– Eu também gostei de você doutora de araque!

– Numa próxima festa que tiver aqui, prometo que venho. Vou ficar bem contente em te ver de novo.

– Doutora, pode ser que numa próxima você não me encontre mais aqui.

– Ah! É mesmo! Talvez você já tenha tido alta né?

– Hum! Mais ou menos. Duvido muito que tenha alta. É mais provável que quando voltar aqui eu tenha ido embora, mas daí é porque virei anjinho.

– Como assim Jú? Anjinho?

– Eh doutora de araque viu! Não sabe que toda criança doente feito eu um dia vira anjinho lá no céu?

– Ai Jú não fala assim não! Você ainda vai ficar boa, crescer, virar uma bonita moça, casar, ter seus próprios filhos…

– Vou não. Sei que não… Ei! Você está chorando! Por quê?

– Querida, você fala nessas coisas com tanta naturalidade: doença, morte, virar anjinho no céu… Isso não te assusta?

– Não! Por que deveria assustar? Acho até bonito! Mas olha, não fica triste não porque, quando virar anjinho, se você ainda estiver por aqui, eu olharei por você e pedirei pra Papai do Céu que te proteja e te faça feliz sempre.

Ao saírem do hospital infantil, o grupo de palhaços estava exultante com o resultado da festa.

– Que troca maravilhosa se faz com essas crianças não?

– É verdade Doutor Fila Boia. No entanto saio daqui hoje sentindo certa tristeza em saber que talvez numa próxima visita, não encontrarei algumas dessas crianças.

– É Doutora Pé na Cova, isso faz parte de nossa rotina de trabalho. Faz parte da vida. Nossa proposta é justamente fazer dessas vidas que se encontram num momento difícil, mais alegre, mais leve. Amor é bom e nessas horas então, é a melhor medicação que eles necessitam.

– Eu também me encontro um pouco nessa situação não é mesmo? Ainda não recebi o diagnóstico definitivo sobre a doença que me assola. Também posso não estar presente num próximo encontro.

Após um breve silêncio, com os olhos marejados, ambos se abraçaram e Doutor Fila Boia encerrou a conversa dizendo:

– A garotinha está coberta de razão Doutora. Todos estão com o pé na cova a partir do momento em que nascem. Ninguém sabe o prazo de validade. Ninguém tem bola de cristal. E quer saber? Posso perfeitamente me despedir de você aqui, agora e, ao atravessar a rua ser atropelado e morrer na hora. Pare de pensar nisso e viva! Viva intensamente. Ame intensamente como se fosse seu último dia entre nós. Acredite: Estamos cercados de “anjinhos” velando por nós.

 

Imagem: Dreamstime

Nauseabundo

Um enjoo absurdo toma conta de meu ser. Uma náusea generalizada diante de tudo o que leio nos noticiários.

Não quero mais isso para mim! Isso não é vida! Sinto nojo da humanidade! Tenho medo de meu próprio irmão. Desconfio de meus vizinhos.

Hoje pela manhã, indo para o trabalho, passei pelo supermercado e já recebi minha dose de espanto e revolta. As maquininhas trabalhando doidamente aumentando os preços das mercadorias. O alvoroço entre os funcionários era grande e a irritação na mesma medida. A cada item que pegava e repunha de volta a prateleira, subia uma sensação ácida pela garganta. Não comprei nem metade daquilo que costumo comprar. Por outro lado, gastei o dobro do que gastava até duas semanas atrás. Saí do supermercado pisando duro quase fraturando meu tornozelo de tanta indignação.

Fico sabendo que os funcionários da Biblioteca Mário de Andrade entraram em greve por melhores salários e uma proposta decente de plano de carreira. A indignação aumenta porque sei o quanto o profissional que estudou, se especializou e que hoje trabalha numa biblioteca pública sofre por não poder atuar como gostaria e deveria. Nada ligado a cultura e educação é valorizado nesse país que perdeu a rota de crescimento dirigido por uma quadrilha de Metralhas. Uma nação de pseudo literatos e analfabetos funcionais acham que está bem assim afinal, estamos às vésperas da Copa!

Falta água, falta transporte, falta saneamento básico, falta emprego, falta investimentos, falta…

Vergonha na cara!

A minha e a de tantos brasileiros com um pouco de conhecimento e informação se encontra rubra faz é tempo já passando a roxa de raiva. Acho que nossa bandeira deveria mudar de cor. Abaixo verde/amarelo/azul/branco. Assuma vermelho/roxo/preto. Vermelho de vergonha; roxo de raiva;preto de luto.  A nação agoniza na UTI do SUS.

Gratidão

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Outro dia me dei conta do quanto afastada estou de toda e qualquer religião.

Veja bem, não me considero ateu muito menos estou a toa mas confesso que de uns anos pra cá me afastei de tudo.

Em parte porque percebi que qualquer igreja – por melhor que seja a sua filosofia – está contaminada por pessoas.

E essas pessoas sim, é que têm distorcido as religiões a seu bel prazer e interesse. Toda igreja está repleta de egos inflados que se acham acima dos demais cristãos ou “criaturas” como muitos gostam de frisar.

Desde pequena que ouço que devemos passar tudo pelo crivo da razão. Que não podemos desenvolver a fé cega.

Até concordo com esse pensamento e durante muitos anos seguidos, fui fiel a essa máxima e dei o melhor de mim em trabalhos voltados aos necessitados.

Meu pai, quando vivo, até tirava uma onda comigo falando:

– Daqui a pouco você está morando dentro do templo. Quase não te vejo mais, está sempre enfurnada nesses trabalhos voluntários. Deixa um pouco para os outros fazerem.

Chegava a ficar brava com ele por pensar assim e não ajudar.

Até que um belo dia parei e vi que cuidava tanto da vida alheia que descuidava da minha que se encontrava estagnada. Confesso que foi um choque!

Então pensei, pensei e repensei e decidi voltar a estudar e fazer minha tão sonhada faculdade.

Qual não foi a surpresa ao comunicar no Centro em que atuava que me afastaria para me dedicar aos estudos e fui severamente criticada pela maioria que dizia que eu os traía saindo do grupo e deixando os trabalhos voluntários para trás.

Saí de lá arrasada pois não compreendiam ou não queriam compreender que não basta cuidar do espírito.

Temos o dever de cuidar da matéria e da vida material que levamos por aqui enquanto vivermos.

Foi a partir daí que pouco a pouco fui me afastando de tudo aquilo que um dia acreditei. E cuidei de minha vida acadêmica, intelectual e financeira. Foi a melhor coisa que fiz afinal, se continuasse a trabalhar onde trabalhava ganhando um salário merreca, se não tivesse estudado e obtido uma profissão de fato, não sei o que seria de minha vida hoje.

Digo isso porque foi graças ao meu empenho, dedicação e garra que hoje tenho condições de ter um salário – se não super bom – pelo menos o suficiente para pagar minhas contas, cuidar de uma família (mãe e irmãs) que dependem de mim financeiramente.

Desenvolvi ao longo dos anos a minha religiosidade pessoal que trago aqui, bem no centro do peito. É baseada em todo o ensinamento que recebi de meus avós e meus país que foram grandes professores da vida para mim.

Meu pai, apesar de se dizer católico, passava léguas de distância das igrejas. No entanto, bastava alguém precisar de algo que imediatamente se colocava a disposição para ajudar. Foi um homem incompreendido por muitos enquanto viveu, inclusive por mim que hoje, consigo compreender sua grandeza através de tudo o que fez de bom para muitas pessoas.

Andei um pouco revoltada com os que se diziam altamente religiosos, com a palavra de Deus na ponta da língua mas que não mexiam um dedo para ajudar seu próximo. E ainda de lambuja criticavam a todos que não “rezavam” pela sua cartilha.

Decidi seguir os passos de papai que se dizendo um “perdido” na vida, se doou como ninguém em suas ações. Preferiu deixar a palavra de lado e agir.

Já ajudei a muitas pessoas e não falo isso no sentido de me autopromover. Não! Não mesmo! Faço porque gosto, porque me dá prazer ver a alegria estampada nos rostos que antes era só lágrimas. Faço e não espero nada nem recompensa de ninguém.

Faço e sigo adiante.

Lembrei que também não rezo faz um tempão. Recriminei-me mas, em pouco tempo, percebi que minhas orações saem naturalmente a partir do momento em que abro meus olhos quando acordo e digo:

– Obrigada por mais um dia!

E fecho meu dia dizendo:

– Obrigada por terminar mais um dia!

Acredito piamente que tudo que teria para pedir e agradecer numa extensa oração está sintetizado nessa pequena mas profunda frase de gratidão.   _()_

Transgressor

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Nasce pequenino e puro. É corrompido.

Torna-se duro. Aspira redenção

Recebe do mundo incompreensão. É iludido.

Dá as cartas. Ganha detenção

 

Só deseja na vida um pouco de amor

Ao invés disso, sobra indiferença

Ingratidão, incompreensão, dor.

Quer ser visto como gente. É sua crença.

 

Roubar carros é fácil

Difícil é roubar carinho

Arrombar portas metálicas? Hábil

Difícil é ganhar beijinho

 

Imagem retirada daqui

Benção minha mãe!

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Quando decidi falar sobre essa mulher, me peguei sem palavras para descrevê-la afinal, como encontrar palavras para falar de um ser tão acima de você e das demais pessoas?
Uma vez li em algum lugar que quando os anjos foram criados por Deus, para que esses seres divinos viessem à Terra, deveriam vir disfarçados de mãe. Preciso dizer mais? Quem de nós, seres humanos comuns , poderia ter essa forma de amar incondicionalmente?
Quem de nós poderia ou teria condições de perdoar infinitas vezes? Mães são criaturas dotadas de um enorme senso das coisas, têm uma intuição fenomenal, têm o dom de esboçar o mais lindo sorriso quando muitas vezes, por dentro, estão sangrando.
Não ligam de atravessar noites ao nosso lado quando adoecemos. Deixam de comer para ter sempre o alimento para seus rebentos. Defendem suas crias com uma voracidade anormal.
Fazem sempre o impossível para ver seus filhos felizes ( o possível, o resto da humanidade já faz). Vibram com cada conquista que seus filhos adquirem e sofrem ao vê-los aflitos, derrotados e infelizes. Todos esses adjetivos descritos acima fazem parte da personalidade única que é minha mãe.
Quando pequena, achava-a severa, brava. Na adolescência, tivemos sérios entraves pois eu a achava muito chata.
Vivia pegando no meu pé. Muitas vezes me peguei desejando que ela fosse diferente. Com o passar dos anos e com a aproximação da maturidade, descobri uma outra mulher. Descobri a amiga, a confidente e assim, nossa relação tornou-se estável e hoje somos grandes companheiras.
De uns anos pra cá sempre falo que “Quando crescer quero ser igual a Dona Ilda” Adquirir sua sabedoria, sua paciência, sua tolerância e quero também seguir sua filosofia de vida: minha mãe veio a esse mundo para ser feliz!
E olha que, nesses anos de vida que ela tem, já passou por cada uma! Mas nada abala sua segurança, sua fé, sua postura rígida porém suave diante da vida.
Independente dos sofrimentos que a vida lhe imputa, sua filosofia da felicidade não se abala. Ao invés de torná-la frágil, a fortalece mais. E sempre sorrindo! Igual à minha avó Maria, sua mãe.
Se Deus me permitir, desejo chegar à terceira idade mantendo o semblante sereno que ela carrega. E quero também despertar nos outros o mesmo carinho, o mesmo respeito que hoje todos têm por ela.
Deixo aqui minha homenagem à essa grande mulher, Dona Ilda, minha mãe e a todas as mães desse planeta.
Sem vocês, posso dizer com segurança, que não existiria vida em nenhuma parte.
Sem mãe, o mundo seria em preto e branco e sem fundo musical.
Benção minha mãe!