Quero o palpável

Você já parou para pensar no quanto as redes sociais se transformaram num imenso ringue de batalha onde cada um defende quase que a dentadas suas idéias? É um tal de querer impor seus gostos pessoais, sua forma de viver, suas ideologias.

De uma hora pra outra, se der uma opinião contrária, pronto. Deu-se a discórdia. E de amigo do peito você passa a ser o inimigo mortal que deve ser dizimado do círculo de “amigos”.

Aliás, falando-se em amigos, vivemos num tempo em que banalizou-se praticamente tudo inclusive o amigo. Amizade passou a ser algo raso, sem conteúdo, passageiro. Hoje podemos ser os maiores amigos. Amanhã, passo e nem te reconheço. Trata-se a pessoa com a maior frieza.

Semana retrasada, reunimos família e amigos (os poucos que restaram) de meu tio que completou noventa anos. Que beleza de reunião! Amigos de meu tio que há décadas não se viam, apareceram para dar o abraço ao aniversariante. Vi chegar um senhor com todas as idades do mundo, percorrendo o salão com uma dificuldade imensa apoiado por um andador e sua enfermeira. Chegou até minha mãe e a cumprimentou dizendo: apesar da idade, da minha saúde precária, da minha quase invalidez, não poderia deixar de vir dar um abraço nesse meu grande amigo de uma vida inteira.

Fiquei tão comovida diante das expressões de carinho desses “velhos amigos” se reencontrando que confesso a vocês que fiquei com uma pontada de inveja de todos eles.

Existe entre eles um elo indissolúvel que está cada vez mais raro de se ver nos dias ditos “atuais e modernos” em que vivemos.

Como já expressou tão bem o filósofo polonês Zigmunt Bauman,  em seu livro Amor Líquido, os laços são frágeis e se desmancham com a maior facilidade. As relações humanas no geral têm se formado numa velocidade incrível e mais incrível ainda são seus desmanches.

Hoje os jovens se gabam de ter mil e tantos amigos nas redes sociais. Costumam falar isso de boca cheia, com olhos brilhantes. Só observo e penso:

“Tá legal. Chama isso de amizade? Devo estar ficando velha e ultrapassada mesmo.”

Falando como meus avós, antigamente amizade era aquela do olho no olho. Assim como os namoros e casamentos, eram para uma vida inteira. Minha mãe mesmo mantém amizades que fez quando era uma jovem de quinze anos. Já está perto de completar oitenta e a chama dessas amizades continuam a mesma. Não. Minto. Não continuam a mesma, estão melhores, mais fortalecidas, amadurecidas. É lindo de se ver quando se encontram!

Hoje, o que observo com certa tristeza, é que as pessoas se desviam umas das outras. Os olhares fogem. Não desejam contato de forma alguma. Se negam a receber em casa.

Se antes, as pessoas adoravam ter suas casas sempre cheias, hoje fogem de visitas. Se refugiam nos shoppings centers passeando, olhando vitrines, se empanturrando de fast food, consumo, consumo e mais consumo e as relações como ficam?

Rasas.

E depois reclamamos que vivemos solitários!

Enfim pessoas, creio que está mais do que na hora de reavaliarmos o modo de vida que queremos de fato. Já cheguei aos cinquenta anos e desejo que meus próximos possam ser mais verdadeiros, quero amizades e demais relações fincadas na doação real. Amo internet e redes sociais mas elas não podem substituir a convivência diária, o olho no olho, o toque de um abraço. É isso!

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14 comentários sobre “Quero o palpável

  1. Penso exatamente como você!Tenho 19 anos,é estranho?haha.Essa dependência das pessoas estarem o tempo todo conectadas,de terem fotos com um número grande de curtidas,ou de que se você não tem whatsapp,você é considerado um ET.(Falo por experiência própria rs,mas tenho facebook e um instagram prestes a ser excluído)Essa sociedade que se tornou rasa como você mesmo diz,é preocupante.Tenho minhas amizades de tempos ,que são poucas e sempre procuro nos reunir pessoalmente.Esse mundo que só quer viver logado em milhares de redes sociais (muitas das vezes reclamando da vida e jogando indiretas)faz tudo ficar tão superficial.E a vida é tão bonita pra ser dado valor a coisas vazias.Nada como reunir quem gostamos e soltar aquelas gargalhadas com conversa fiada e tirar fotos pra guardar pra você (e não só pra postar e querer ficar monitorando quantas curtidas vai ter).Bom,ver que também tem pessoas que pensam como eu.

    Parabéns pelo post!

    (No meu blog,tb fiz vários posts em relação á esse assunto,se quiser conferir ,seja muito bem-vinda!)

    • Você falou tudo! Parabéns por – apesar de sua pouca idade – ter essa cabeça tão aberta e olhos para a realidade. Amo a internet também mas temos de saber separar as coisas caso contrário, perdemos muito. Obrigada por comparecer aqui nesse espaço que não é meu, é nosso. Sinta-se a vontade para aparecer, comentar, dar sugestões e até criticar pois a crítica também é bem vinda. Vou conhecer seu blog.
      Bjs

      • Acho que muita gente da minha idade ainda não parou e conseguiu visualizar esse lado.Ah poxa,obrigada!Parabéns pelo blog.Digo o mesmo,sinta-se a vontade em meu blog (que está no comecinho rs) pra comentar,sugestões,críticas e etc rss..
        beijos!

  2. Roseli, um dia eu quero te conhecer pessoalmente…

    O que vc disse sobre defender suas ideias é bem por aí mesmo. Já fui convidada a retirar meu comentário, que era oposto ao que a pessoa tinha postado, e daí por diante acabou que não temos mais contato. Nem éramos amigas, só virtuais, tipo vc está aqui, então tá, mas se for contra mim, não te quero mais entre meus subordinados. Chato isso, né?
    Tem muita intolerância na internet. Gente sem rosto que canta de galo por nada… sem respeito algum ao próximo. Será que na vida real é assim também?
    Eu me divirto muito na internet, e no blog me exercito em escrever… adoro isso

    Um grande abraço pra vc e uma ótima semana

    • Clara eu também quero muito te conhecer pessoalmente pois já me sinto íntima sua. Sabe, poderíamos mesmo combinar algo. Há um tempo atrás, marquei um encontro com mais duas blogueiras que já conhecia há tempos pela net. Foi uma tarde bem gostosa. A internet e redes sociais tem disso mesmo: o bom e o ruim. Resta a nós sabermos separar o joio do trigo e ficar apenas com o que nos faz bem. Uma ótima semana pra você também. Beijos

  3. Fato!

    Que ironia,nossa comunicação avança na proporção inversa da tecnologia. http://entretextomeiaspalavras.blogspot.com.br/2013/05/como-unica-acao.html

    E as amizades…uau! Sem comunicação eficiente, que serão delas? Mas, espero não estar enganada, aprendemos a valorizar essas coisas conforme a idade vai passando, vida, experiência. Só não temos como saber se, com a amizade pautada no virtual, não será tarde demais para algumas gerações…

    Ótima reflexão de nossos tempos.

    Até!

    • Márcia acredito que a maturidade faz com que passemos um filtro em tudo inclusive nas amizades. Só fica o que realmente for verdadeiro. Agora, as novas gerações precisam acordar para isso caso contrário terão sérios problemas futuros.
      Até!

  4. Roseli, somos adolescentes da mesma faixa etária (você e eu, kkk!) e a última geração que teve o prazer de curtir tudo isso que você escreveu foram os nossos pais. Quantas vezes nós, crianças ainda, ficávamos naquela expectativa gostosa de recebermos visitas. Tinha cafezinho, bolo (de verdade e natural), biscoitinhos feitos em casa,…, e não se ligava rádio e nem televisão. Só se conversava e era assunto que não acabava mais. A visita não queria nunca ir embora e muito menos a gente queria que fosse porque o tempo não era suficiente para conversar tanto. Dia desses lendo uma postagem sua, no comentário que fiz você comentou que era interessante ouvir as pessoas para enriquecer o material para as nossas postagens. Os famosos causos. Pois, no tempo que se conversava mais esse “prato” de idéias para escrever era bem mais repleto. Era um tempo em que a gente convidava a pessoa para vir em casa e ela vinha mesmo (e a gente convidava porque queria que viesse, kkk!).
    Com a evolução das comunicações e a automação de tudo, nós nos tornamos pessoas frágeis, mal educadas e de pavio curtíssimo. Eu não estou falando dos outros. Estou falando de mim, da minha geração e das posteriores. Perdemos a paciência e precisaram fazer leis para os impacientes. Perdemos o respeito e precisaram fazer leis para os desrespeitos. Perdemos a amabilidade e precisaram fazer leis para a violência. E assim consecutivamente. Para tudo hoje temos uma lei. Como se não bastasse, as leis não eram cumpridas. Então colocaram para funcionar os tribunais e pediram apoio aos Procons.
    Enfim…nos tornamos autômatos. Viramos robôs, e o pior é que além de estarmos perdendo os sentimentos estamos deixando que nos manipulem. Hoje em dia ter opinião própria não é recomendável. A vida virou uma sequência de chavões. Logo logo terão que fazer manuais de uso para a gente ter iniciativa para fazer algo. Até para ir ao banheiro teremos de consultar o manual de instrução. Tomara que tenha algum item de garantia para poder resolver problemas de relacionamento, kkk!
    Roseli, vou parar por aqui senão escrevo um livro aqui e fica muito maçante. Isso é conversa para as mesinhas de fora dos “barzinhos” das imediações da Paulista, não é?
    Vamos fazer uma reviravolta nisso e voltar com o amarmos uns aos outros (de verdade!).
    Um beijo no seu coração,
    Manoel

      • Roseli, kkk! Qualquer hora dou uma de louco, a aviso e vamos bater nosso papo, do nosso jeito, sem dar bola a ninguém e talvez resgatarmos a verdadeira amizade com desabafos, confidências e aconselhamentos ao vivo.
        Sabe que eu sinto muita falta disso, Roseli. Conheci tanta gente nessa área de São Paulo e batíamos grandes papos. Se não conseguimos resolver os problemas do mundo, amenizamos e alegramos os nossos. Aí o mundo digital nos invadiu, mudamos de cidade e ficamos fazendo futricos nas redes sociais. Pior, não conseguimos olhar no olho de quem conversa com a gente. Aos poucos sentimos a emoção na conversa, mas não é igual, não é mesmo, Roselí?!
        Enfim…
        Um beijo,
        Manoel

  5. Adorei o texto!

    Tenho percebido que algumas pessoas mostram o seu verdadeiro “eu” através de um teclado, principalmente quando se trata de atacar alguém. Isso aconteceu comigo recentemente e foi o motivo pelo qual deixei o blog um pouco de lado e muitas das leituras que gosto de acompanhar.

    As amizades de longa data estão se tornando cada vez mais raras hoje em dia. Parece que tudo é “descartável”. Mas felizmente, graças a uma dessas redes sociais que possibilitou o reencontro de quatro amigas que não se viam há quase 20 anos. Minhas amigas! Choramos e rimos tanto quando nos reencontramos, que tudo parecia como nos velhos tempos, quando não tínhamos celular. Mesmo eu estando longe, nos falamos todos os dias. Sinto falta da presença delas, mas mesmo assim tenho a impressão de que elas estão pertinho de mim. 🙂

    • Obrigada Mariel. Sua presença por aqui estava fazendo muita falta. Os livros dele são ótimos. Eu recomendo. O próximo que desejo ler é Tempos líquidos. Abração e vê se não some por tanto tempo, rsrs

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