Conversa unilateral

Terminal de ônibus urbano Butantã. 20h13, terça-feira. Filas imensas formam grandes cirandas por entre as plataformas. Rostos cansados, irritados, apáticos retornando para suas casas após um dia duro de trabalho e estudo. Pessoas das mais variadas idades.

Todas as noites, retorno e quase sempre vejo as mesmas feições, as mesmas expressões.

Munida de meu fone de ouvido, ao som de George Michael Live in London, paro na fila de meu ônibus e saco de imediato o livro Amor Veríssimo e começo a ler.

– O 517 acabou de sair. Perdi ele. Agora é cansar de esperar o próximo.

– Oi? – pergunto tirando um dos fones do ouvido e vejo quem se dirigiu a mim.

– Falei que o 517 acabou de sair. Vai tomar ele também?

– Pra mim serve o 516, 0 517 ou até mesmo o 086. Qualquer um passa por onde vou descer.

– Sorte tua. Pra mim só serve o 517. Ai, tô tão cansada! Trabalhei tanto hoje e ainda vou ter de esperar um tantão assim pelo ônibus!

Em silêncio, observo a mulher que fala comigo. Idade entre 45 a 55 anos, obesa, rosto marcado pela vida. Olhar sofrido. Sorrio a la Monalisa e olhando para meu livro em minhas mãos, volto a abri-lo e tento engatar a leitura.

– Você é magrinha. Queria ser magrinha assim também mas depois que tive meus filhos nunca mais fui magra.

Sorrio. (Ai Meu Deus! Será que ela não vai me deixar ler? Nem ouvir minha música?)

– Não ando boa da saúde sabe… Diabetes!… Ando tão enjoada, não consigo quase me alimentar. Deve ser a medicação.

Sorrio. Abro meu livro.

– Ai que meus pés estão doloridos. Será que o ônibus vai demorar muito? Estou cansada, acordei muito cedo, trabalhei muito!

– Moça, cê tá servida? Bolacha. É só o que tô conseguindo comer. Qué? Pode pegar!

– Obrigada mas não como bolacha.

– Por que? Tá tão magrinha. Pode comer a vontade. Pega.

– Obrigada mas não como bolacha. De nenhum tipo.

– Humm… tá explicado sua magreza. Eu queria ser assim. Não sentir fome. Ser magrinha. Olha só a balofa que sou! Num era assim quando me casei. Não mesmo!

(Jesus amado, ela não fica quieta. É do tipo que precisa conversar seja com quem for. Tinha que ser logo comigo? Quero ler. Quero ouvir minha música. Quero ficar quieta.)

– Conhece Campo Limpo? Tá vendo esse ônibus ai que está com essa fila cheia. É sempre assim. Em qualquer horário. Como tem gente que mora pra esses lados viu. Minha cunhada mora lá… Filha da puta! Tá querendo tirar minha casa de mim e de meu marido. Fala que ela também tem direito na casa. Nem morta dou pra ela a minha casa. Nem morta! Sabia que quando casei com meu marido, o pai deles tinha esse terreno e perguntou quem queria aquele pedaço de terra pra construir. Ninguém quis saber de arregaçar as mangas e pegar na enxada. Todos os irmãos do meu marido torceram o nariz para o terreno. Até que meu marido falou: eu quero. eu vou carpir e deixar o terreno pronto pra construir minha casa nele. Meu sogro disse: então pode começar que o terreno eu deixo pra quem tem capacidade e vontade de trabalhar. É de vocês! Você não sabe o quanto eu e meu marido trabalhamos para melhorar aquele terreno  tiramos tonelada de terra dele até ficar nivelado e aí construímos nossa casa que moramos até hoje. Tá bonita que só! E agora o olho grande de minha cunhada quer metade pra ela. Ah vá! Brigo na justiça se for o caso mas não entrego nada. Vai ficar de herança pras minhas filhas e meu filho. A gente lutou e trabalhou tanto pra ter uma casinha decente, bonita fizemos um quarto pra cada menina e o menino também tem o quarto dele. Meu marido,coitado, trabalhou dia e noite fez hora extra seguida ficou com olheiras enormes tudo pra conseguir terminar nossa casa. Eu então… moça, trabalho há trinta anos nas Clínicas. Varro cada cantinho daquele hospital. Lavo todos os banheiros que me mandam. Tô até com problema de reumatismo nas mãos olha só elas não fecham mais direito de tanto trabalho pesado que faço. Os médicos gostam de mim e estão me tratando. Não vejo a hora de me aposentar mas também pobre pode se dar ao luxo de se aposentar? Pode não né? A vida tá uma dureza só… Eu tô acabada nem parece que tenho quarenta e sete anos pareço mais não é mesmo? Quanto anos você tem? É tão bonita assim… magrinha Mas é a vida dura que levo viu Não tenho nem tempo de de cuidar, de comprar uma roupa bonita também com esse corpo de rolha de poço nada fica bem né Já em você… olha só que cintura você tem Cê tem filhos? É casad…

Ah olha só o ônibus chegou já era sem tempo. Motorista quer me matar como demorou a chegar hoje. Posso subir tô com dor nas pernas Ai então tá foi bom conhecer você e conversar com você. Moça bonita, educada, bom papo. agora vou sentar ouvir minha música e dormir até chegar no ponto final Cê desce onde mesmo?

:

Ao sentar no último banco bem longe da senhora em questão, penso com meus botões: é impressionante como tem pessoas que são verdadeiras metralhadoras verbais. São impulsionadas a falar e falar e falar de si sem dar chance para o interlocutor que apenas ouve ou faz que ouve por ser educado. Antigamente não dava ouvidos a ninguém mas desde que comecei a escrever que passei a dar ouvidos porque sempre saem ótimas histórias. Encontro cada personagem que até Deus duvida que tenha feito tal criatura.

Terminando minha linha de pensamento torno a colocar o fone de ouvido e olhando pela janela vejo o terminal se distanciando. Vejo as demais pessoas também se acomodarem em seus bancos e fechando os olhos. Cansados de mais um dia de aventuras pela metrópole, o ônibus se transforma num enorme berçário. Em pouco tempo todos dormem. Inclusive eu. E até a dona Metralhadora ronrona suavemente.

 

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10 comentários sobre “Conversa unilateral

  1. Roseli, eu também não gosto de ficar conversando qdo estou nos lugares não. Prefiro ficar observando… incrível como que cada um tem um modo de ver a vida, de falar de si… e prestei atenção que muitos não têm com quem conversar e conversam com estranhos… O que vc fez acabou ajudando a senhora que queria apenas desabafar… vc ouviu, quietinha e pra ela já foi um bom papo. Com certeza ela não ouviria nada se vc resolvesse compartilhar o papo.
    Observar as pessoas é maravilhoso!
    Um ótimo fim de semana, beijos!

    Ah, sim, claro, um maravilhoso texto!

    • Tem razão Clara, ela só precisava de alguém que a ouvisse. Encontro muitas pessoas iguais a ela nas filas de transporte, em consultórios médicos, em bancos. Imenso grupo de solitários rodeados de gente. Adoro observar! Obrigada pela visita sempre querida e comentário. Um ótimo fim de semana pra você também. Beijos

  2. Então… pela narrativa, não acho que seja seu caso, mas eu acabo estimulando quem se chega batendo papo, pois engreno em reflexões sobre o assunto. Confesso que isso já me salvou também, pois quem só quer falar e não dialogar encerra logo o assunto…hahahaha
    Fica a dica 😉

    • Marcia, sofro de um mal: quando estou cansada ou com sono fico um pouco arisca pra papo. Mas adoro observar e catalogar os tipos que vejo nos pontos de ônibus, no metrô, em consultórios médicos e por aí vai. Realmente essas pessoas dão excelentes histórias pra se contar.
      Bjs

  3. Roselí, sensacional essa postagem. Fui lendo e enxergando sua interlocutora. Meu sonho de consumo seria casar com uma mulher assim, kkk! Acho que me trancaria no banheiro o tempo todo que ela estivesse em casa. O pior é que é só doença, só cansaço, só revolta,…, não é fácil não. Só a Pollyana aguentaria isso.
    Adorei a postagem. Você é ótima escritora (eu sei que você já sabe e vai por o foninho no ouvido, kkk!).
    Um beijo no seu talento,
    Manô

    • Manoel apesar de não costumar dar trela para essas pessoas, gosto muito de observá-las. São excelentes personagens para qualquer conto ou crônica. Já tenho anotado aqui comigo muitas personagens que vou colecionando pelas minhas diversas viagens pela cidade de Sampa. Aos poucos vou soltando elas por aqui. Obrigada pelo comentário e fico sempre feliz que gostem daquilo que escrevo. São para vocês.
      Beijos

  4. Às vezes, quando estou afim, é fogo cruzado… mas, ainda bem que existe fone de ouvido e livros, não é mesmo Roseli?! Muito bom o seu texto, retratou bem nosso complicado cotidiano cheio de personagens caricatos rs

    • Tem razão Mariel. As vezes a gente só precisa de alguém que nos ouça. Nada mais. Já estava com saudade de suas visitas por aqui e de seus comentários sempre ótimos. Some não!

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