Prato do dia: Banana

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Hoje, desde que liguei o computador, o assunto do momento é a banana atirada ao jogador em campo Daniel Alves e sua gostosa degustação da mesma.

Não tem como não rir e se solidarizar ao jogador. Sua atitude sem dúvida foi de uma superioridade infinita ao infeliz racista que teve o ímpeto de jogar a tal da banana como forma de humilhar. O jogador virou o jogo com uma finesse poucas vezes vista.

Aplausos.

Mas infelizmente a atitude racista e preconceituosa não finda aí. Esse foi apenas um recorte num mar turbulento que tem navegado muitas pessoas em diversas partes do planeta.

A intolerância, mãe das demais atitudes negativas, impera em todas as classes sociais e dita condutas infelizes. Vivemos tempos um tanto tenebrosos permeados diariamente por atitudes desse tipo. É na rua, na condução, no trabalho, nas redes sociais. Os códigos de ética e respeito ao próximo tornou-se praticamente inexistente. É um oba!oba! por todas as partes e assim, pouco a pouco vou ficando cada vez mais com vergonha alheia. Macaco? Oras, me envergonho justamente por ele e dele afinal, nós seres humanos que nos achamos tão racionais, temos dado mostra bem do contrário. O macaco, esse primata cordial, sociável, de bem com a vida e ainda por cima dotado de uma inteligência acima do normal, tem deixado bem claro para quem quiser enxergar que a humanidade caminha a passos largos, bem largos, para trás.

Hora de rever os conceitos pessoal!

 

Imagem: Minion

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A grande lição

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(Imagem retirada daqui)

 

O planeta Terra está uma fera,

besta com tanta ignorância dessa infância,

que teima em permanecer na fase anal.

Tão banal!

Crianças grandes que fazem experiências,

diz que é Ciência!

Acabando com os recursos naturais

Esgotando solo, água, poluindo ar,

Sugando desesperados o peito

da Grande Mãe.

E ela, mirando com olhos padecidos

Chora lágrimas secas pela total

falta de consciência de seus filhos.

Agora, furiosa dá o troco.

Seca, enchentes, tsunamis,

ceifam vidas de crentes e descrentes

Pra ela não tem categoria,

Não ria!

Agora é sério.

Sua paciência esgotou. Acabou.

Pagarão com juros e correção,

e acreditem: não é maldição.

É a grande lição.

Se aprenderemos ou não,

eis a questão!

Lua vermelha

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Foto: Mundo Bit

Debaixo desse tom carmim

lembro seus olhos vidrados em mim.

Tendo ao  alto, a Lua vermelha

que te espelha

Sons de desejo saem dessa sua boca cereja.

Estremeço. Padeço.

De um desejo que não mais se realizará.

Porque dessa sua boca

que outrora me sugou, saboreou.

Hoje,

não resta nem mesmo a lembrança

De seu hálito quente em mim.

Quem sabe numa outra aparição ou

noutra encarnação.

O encanto da Lua vermelha se esvaiu,

só sobrou meu gemido.

Não de prazer mas

te mandando pra puta que o pariu.

 

Quero o palpável

Você já parou para pensar no quanto as redes sociais se transformaram num imenso ringue de batalha onde cada um defende quase que a dentadas suas idéias? É um tal de querer impor seus gostos pessoais, sua forma de viver, suas ideologias.

De uma hora pra outra, se der uma opinião contrária, pronto. Deu-se a discórdia. E de amigo do peito você passa a ser o inimigo mortal que deve ser dizimado do círculo de “amigos”.

Aliás, falando-se em amigos, vivemos num tempo em que banalizou-se praticamente tudo inclusive o amigo. Amizade passou a ser algo raso, sem conteúdo, passageiro. Hoje podemos ser os maiores amigos. Amanhã, passo e nem te reconheço. Trata-se a pessoa com a maior frieza.

Semana retrasada, reunimos família e amigos (os poucos que restaram) de meu tio que completou noventa anos. Que beleza de reunião! Amigos de meu tio que há décadas não se viam, apareceram para dar o abraço ao aniversariante. Vi chegar um senhor com todas as idades do mundo, percorrendo o salão com uma dificuldade imensa apoiado por um andador e sua enfermeira. Chegou até minha mãe e a cumprimentou dizendo: apesar da idade, da minha saúde precária, da minha quase invalidez, não poderia deixar de vir dar um abraço nesse meu grande amigo de uma vida inteira.

Fiquei tão comovida diante das expressões de carinho desses “velhos amigos” se reencontrando que confesso a vocês que fiquei com uma pontada de inveja de todos eles.

Existe entre eles um elo indissolúvel que está cada vez mais raro de se ver nos dias ditos “atuais e modernos” em que vivemos.

Como já expressou tão bem o filósofo polonês Zigmunt Bauman,  em seu livro Amor Líquido, os laços são frágeis e se desmancham com a maior facilidade. As relações humanas no geral têm se formado numa velocidade incrível e mais incrível ainda são seus desmanches.

Hoje os jovens se gabam de ter mil e tantos amigos nas redes sociais. Costumam falar isso de boca cheia, com olhos brilhantes. Só observo e penso:

“Tá legal. Chama isso de amizade? Devo estar ficando velha e ultrapassada mesmo.”

Falando como meus avós, antigamente amizade era aquela do olho no olho. Assim como os namoros e casamentos, eram para uma vida inteira. Minha mãe mesmo mantém amizades que fez quando era uma jovem de quinze anos. Já está perto de completar oitenta e a chama dessas amizades continuam a mesma. Não. Minto. Não continuam a mesma, estão melhores, mais fortalecidas, amadurecidas. É lindo de se ver quando se encontram!

Hoje, o que observo com certa tristeza, é que as pessoas se desviam umas das outras. Os olhares fogem. Não desejam contato de forma alguma. Se negam a receber em casa.

Se antes, as pessoas adoravam ter suas casas sempre cheias, hoje fogem de visitas. Se refugiam nos shoppings centers passeando, olhando vitrines, se empanturrando de fast food, consumo, consumo e mais consumo e as relações como ficam?

Rasas.

E depois reclamamos que vivemos solitários!

Enfim pessoas, creio que está mais do que na hora de reavaliarmos o modo de vida que queremos de fato. Já cheguei aos cinquenta anos e desejo que meus próximos possam ser mais verdadeiros, quero amizades e demais relações fincadas na doação real. Amo internet e redes sociais mas elas não podem substituir a convivência diária, o olho no olho, o toque de um abraço. É isso!

Conselho de amigo

A regra do bom viver

é não se deixar morrer.

Atravessar a vida,

procurando não causar feridas

Em quem quer que se aproxime.

Não polemize,

Brize.

Não procure briga,

Apazigue.

Espalhe sementes do amor,

Colha flor.

Não pise em campo minado,

Tome cuidado!

A vida é sempre bela,

Não cause mazelas.

E se mesmo assim,

ao término de sua vida,

você achar que de nada adiantou,

sinto muito amigo.

Procure outro abrigo,

e pare de olhar só

pro seu umbigo.

Conselho de amigo.

 

 

A revolta da Samaritana

mulher caminhandoshutterstock

Bem que tentei levar uma vida religiosa. Pouca fala, olhar baixo, andar pelos cantos, passar horas em contemplação.

Não criticar, não julgar, não blasfemar. Orar.

Oras bolas, desculpe minha total falta de iluminação.  Se fazer só  isso resolvesse todas as mazelas dessa vida terrena, a Índia seria o país mais civilizado, mais sereno, só se respiraria amor por lá. Miséria passaria bem longe.

Não é bem assim.

A vida não é essa simplicidade que os religiosos pregam. Nem eles mesmo seguem à risca!

Mas voltando a minha pessoa que é o que importa, por cerca de dez, doze anos, tentei ser fiel as lições de nosso irmão maior.

Acho que por um tempo até consegui… Me enganar e enganar aos outros.

Não sustentei a personagem “Boa Samaritana”. Quando a fantasia rasgou, chutei-a pra bem longe.

Saí do meu altar e fui pro mundo. Assim como Sidarta, também não conhecia a dor, a fome, o sofrimento. Somente através da literatura.

Ao ganhar o mundo, abri as portas de muitas mazelas. Algumas confesso aqui que me chocaram. Por outro lado também tenho de dizer que vi, vivi, conheci muita coisa boa que esse vasto mundão nos oferta diariamente. A começar pelas pessoas que conheci.

Para aqueles que deixei para trás, ensandeci. Não conseguem alcançar a ideia de que saindo da minha zona de conforto é que passei a realmente viver.

Já passei muita fome desde que ganhei o mundo. E foi justamente por essa precariedade, que passei a valorizar cada migalha de pão amanhecido que ganhei. Cada fruta passada que catei em finais de feira. Cada papelão que consegui para servir de cama.

Através da miséria, cheguei a conviver com a real solidariedade e não com aquela maquiada que me ensinaram. Tudo bem que nessas andanças me deparei bastante com o lado B da vida: falsidade, hipocrisia, vilania, egoísmo. Cruzei meu caminho com lobos em pele de cordeiro. Aliás, é o que mais se vê por aí. Falsos moralistas então, são como “marias sem vergonha”.

Procriam em toda parte do planeta.

Não passei esse tempo todo imaculada. Quando cai no mundo quis provar de um tudo. Feito criança diante de um pote de melado, caí de boca e me lambuzei inteira. Era preciso saber, experimentar até mesmo para saber diferenciar o certo do errado.

Não vim ao mundo para ser santa! Ansiava ser gente.

Amei intensamente alguns homens. Fui enganada por todos. Chorei, me descabelei, me vinguei. Até cair em mim que todo esse sofrimento era inútil afinal, fazia o jogo que me ofereciam. De início até que fui ingênua mas depois, safada que me tornei, acabei virando esse jogo. E, a partir daí, eu é que estipulava as regras. Fiz muito marmanjo chorar. Alguns em desespero, deram cabo de sua vida. Nem me importei.Fiz parte da matilha de gananciosos, estelionatários, políticos. Entrei no jogo foi para ganhar.

E ganhei. E muito! Mas também perdi. E muito!

Perdi a minha essência, a minha pureza, a minha beleza. Quando já me achava totalmente perdida, aos poucos fui recuperando aquilo que um dia tive: a alegria de viver, a simplicidade do cotidiano. Passei a apreciar o velho e bom feijão com arroz e esqueci por completo das iguarias refinadas.

Hoje, ainda na eterna ignorância humana, sou tachada de louca. De “Velha Louca”. Mas quer saber? Nem ligo.

Afinal, só eu sei os caminhos que percorri e o que consegui filtrar disso tudo. Aprendi que viver é exatamente isso: errar, experimentar, gostar, odiar, tentar novamente e finalmente acertar. Vida em contemplação, desculpem-me seus adeptos mas viver assim, é pura enganação. Não aos outros mas a si mesmo.

Conversa unilateral

Terminal de ônibus urbano Butantã. 20h13, terça-feira. Filas imensas formam grandes cirandas por entre as plataformas. Rostos cansados, irritados, apáticos retornando para suas casas após um dia duro de trabalho e estudo. Pessoas das mais variadas idades.

Todas as noites, retorno e quase sempre vejo as mesmas feições, as mesmas expressões.

Munida de meu fone de ouvido, ao som de George Michael Live in London, paro na fila de meu ônibus e saco de imediato o livro Amor Veríssimo e começo a ler.

– O 517 acabou de sair. Perdi ele. Agora é cansar de esperar o próximo.

– Oi? – pergunto tirando um dos fones do ouvido e vejo quem se dirigiu a mim.

– Falei que o 517 acabou de sair. Vai tomar ele também?

– Pra mim serve o 516, 0 517 ou até mesmo o 086. Qualquer um passa por onde vou descer.

– Sorte tua. Pra mim só serve o 517. Ai, tô tão cansada! Trabalhei tanto hoje e ainda vou ter de esperar um tantão assim pelo ônibus!

Em silêncio, observo a mulher que fala comigo. Idade entre 45 a 55 anos, obesa, rosto marcado pela vida. Olhar sofrido. Sorrio a la Monalisa e olhando para meu livro em minhas mãos, volto a abri-lo e tento engatar a leitura.

– Você é magrinha. Queria ser magrinha assim também mas depois que tive meus filhos nunca mais fui magra.

Sorrio. (Ai Meu Deus! Será que ela não vai me deixar ler? Nem ouvir minha música?)

– Não ando boa da saúde sabe… Diabetes!… Ando tão enjoada, não consigo quase me alimentar. Deve ser a medicação.

Sorrio. Abro meu livro.

– Ai que meus pés estão doloridos. Será que o ônibus vai demorar muito? Estou cansada, acordei muito cedo, trabalhei muito!

– Moça, cê tá servida? Bolacha. É só o que tô conseguindo comer. Qué? Pode pegar!

– Obrigada mas não como bolacha.

– Por que? Tá tão magrinha. Pode comer a vontade. Pega.

– Obrigada mas não como bolacha. De nenhum tipo.

– Humm… tá explicado sua magreza. Eu queria ser assim. Não sentir fome. Ser magrinha. Olha só a balofa que sou! Num era assim quando me casei. Não mesmo!

(Jesus amado, ela não fica quieta. É do tipo que precisa conversar seja com quem for. Tinha que ser logo comigo? Quero ler. Quero ouvir minha música. Quero ficar quieta.)

– Conhece Campo Limpo? Tá vendo esse ônibus ai que está com essa fila cheia. É sempre assim. Em qualquer horário. Como tem gente que mora pra esses lados viu. Minha cunhada mora lá… Filha da puta! Tá querendo tirar minha casa de mim e de meu marido. Fala que ela também tem direito na casa. Nem morta dou pra ela a minha casa. Nem morta! Sabia que quando casei com meu marido, o pai deles tinha esse terreno e perguntou quem queria aquele pedaço de terra pra construir. Ninguém quis saber de arregaçar as mangas e pegar na enxada. Todos os irmãos do meu marido torceram o nariz para o terreno. Até que meu marido falou: eu quero. eu vou carpir e deixar o terreno pronto pra construir minha casa nele. Meu sogro disse: então pode começar que o terreno eu deixo pra quem tem capacidade e vontade de trabalhar. É de vocês! Você não sabe o quanto eu e meu marido trabalhamos para melhorar aquele terreno  tiramos tonelada de terra dele até ficar nivelado e aí construímos nossa casa que moramos até hoje. Tá bonita que só! E agora o olho grande de minha cunhada quer metade pra ela. Ah vá! Brigo na justiça se for o caso mas não entrego nada. Vai ficar de herança pras minhas filhas e meu filho. A gente lutou e trabalhou tanto pra ter uma casinha decente, bonita fizemos um quarto pra cada menina e o menino também tem o quarto dele. Meu marido,coitado, trabalhou dia e noite fez hora extra seguida ficou com olheiras enormes tudo pra conseguir terminar nossa casa. Eu então… moça, trabalho há trinta anos nas Clínicas. Varro cada cantinho daquele hospital. Lavo todos os banheiros que me mandam. Tô até com problema de reumatismo nas mãos olha só elas não fecham mais direito de tanto trabalho pesado que faço. Os médicos gostam de mim e estão me tratando. Não vejo a hora de me aposentar mas também pobre pode se dar ao luxo de se aposentar? Pode não né? A vida tá uma dureza só… Eu tô acabada nem parece que tenho quarenta e sete anos pareço mais não é mesmo? Quanto anos você tem? É tão bonita assim… magrinha Mas é a vida dura que levo viu Não tenho nem tempo de de cuidar, de comprar uma roupa bonita também com esse corpo de rolha de poço nada fica bem né Já em você… olha só que cintura você tem Cê tem filhos? É casad…

Ah olha só o ônibus chegou já era sem tempo. Motorista quer me matar como demorou a chegar hoje. Posso subir tô com dor nas pernas Ai então tá foi bom conhecer você e conversar com você. Moça bonita, educada, bom papo. agora vou sentar ouvir minha música e dormir até chegar no ponto final Cê desce onde mesmo?

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Ao sentar no último banco bem longe da senhora em questão, penso com meus botões: é impressionante como tem pessoas que são verdadeiras metralhadoras verbais. São impulsionadas a falar e falar e falar de si sem dar chance para o interlocutor que apenas ouve ou faz que ouve por ser educado. Antigamente não dava ouvidos a ninguém mas desde que comecei a escrever que passei a dar ouvidos porque sempre saem ótimas histórias. Encontro cada personagem que até Deus duvida que tenha feito tal criatura.

Terminando minha linha de pensamento torno a colocar o fone de ouvido e olhando pela janela vejo o terminal se distanciando. Vejo as demais pessoas também se acomodarem em seus bancos e fechando os olhos. Cansados de mais um dia de aventuras pela metrópole, o ônibus se transforma num enorme berçário. Em pouco tempo todos dormem. Inclusive eu. E até a dona Metralhadora ronrona suavemente.