Olhos de cervo

olhos de cervo

Respiração acelerada, olhos de cervo em alerta diante do inimigo. Acuado a um canto entre a porta e balcão, treme. Seus inimigos o encurralaram. O que fazer? Após instantes, ataca um deles que tenta se aproximar dando mordidas. O inimigo afasta-se tão assustado quanto ele. Fica cada um de um lado tremendo, rosnando, babando. Uma raiva imensa toma conta de si. Para descontar toda essa gana, ataca um vaso de jibóia. Despedaça suas folhas com tamanha voracidade metendo mais medo em seus inimigos que temerosos, se afastam. Escoiceia o balcão que igualmente sente sua revolta. Poderia ser pego pelos inimigos mas, com certeza, lutaria até o fim. Mesmo amedrontado, não abaixaria sua cabeça. Um deles solta um grito chamando o líder da manada. Em segundos, surge um que ainda não tinha visto.

Alerta total! Encolhe-se um pouco mais. Agora rosna para causar medo.

O líder dessa matilha, uma fêmea com um andar silencioso, um molejo, um pisar suave que em nada lembra o resto deles. Fecha os olhos. Tinha certeza que agora chegara ao fim. Morreria dignamente. Sentiu seu cheiro. Era diferente, um cheiro adocicado. Arriscou um olhar, gostou do que viu. Ela, a fêmea, não lhe dá medo feito os outros. Trás um olhar, assim como seu cheiro, doce.

Não! Não vou cair na armadilha dela! Deve ser um truque para me apanhar isso sim!

Ela emite um som suave. Não vocifera feito os outros. Se aproxima não dando condições para fuga. O pobrezinho se sente perdido.

– Tenha calma. Não estou aqui para te causar nenhum mal. Como se chama?

Por que ela finge gostar de mim se o que quer na verdade é me caçar?

– Ele se chama Fernando. – responde aquele que o atacou primeiro. Aquele que grita o tempo todo.

– Muito bem Fernando, como dizia, não estou aqui para te fazer nenhum mal, só quero conversar com você. Me diz, por que toda essa braveza? O que aconteceu com você? Pode falar que eu ouço e não vou dar bronca nem te deixar de castigo. Só quero entender.

Ela parece diferente dos outros mas será que posso confiar? Não sei…

– Fernando, posso fazer um carinho em você? Assim, bem de leve? Posso?

Ela está tentando me envolver para depois dar o bote isso sim! Mas parece sincera… Será?

Encaro. Acho que ela é do bem. Tem um sorriso bonito!

Ela levanta sua mão e afaga a cabecinha assustada. De tensa, passa a suavizar a feição transformada numa máscara de raiva. O surto ameniza. Um leve esboço de sorriso se desenha. Os outros murmuram algo e ela, olha para todos dizendo:

– O Fernando vai ficar bem não vai? – E dizendo isso continua a afagar suavemente a cabecinha e as costas dele.

Passos pesados ressoam pelo corredor. Surge uma figura nova no campo de visão do pequeno.

– Muito bonito não seu Fernando? Bancando o animal de novo? Não adiantou nada nossa conversa de ontem. Agora chega entendeu? CHEGA!! Não vou mais admitir que bata em sua professora nem em seus coleguinhas. Pode pedir desculpas para sua professora AGORA!

Olhos do cervo escurecem diante da agressividade dessa, que surge com grande autoridade. É a orientadora educacional do colégio em que Fernando entrou. Sua confusão é grande. É a primeira vez que ingressa numa escola e tudo é muito diferente de sua rotina em casa.

Tudo em sua vida mudou tão rápido em pouco tempo. Sua família se desmantelou. Seu pai que tanto amava, partiu, sumiu de sua vida. Sua mãe, que antes era tão amável, carinhosa, hoje vocifera por qualquer coisa. Vive chorando, gritando, amaldiçoando a tudo e a todos. Inclusive a ele, que tornou-se um peso em sua vida. E agora mais essa. Passar o dia naquela escola estranha, imensa, ao lado de pessoas que não conhecia. Não estava suportando isso! Estava reproduzindo o comportamento da mãe. Passava o dia chorando, brigando, urrando feito animal enjaulado. Sim, porque estava enjaulado. Passava horas naquele local cheio de portas, portões, homem engravatados que não permitiam que saísse à rua. Eram guardiões daquela cadeia! Não entende o que tinha feito de mal para ser encarcerado daquela forma. Por isso sua revolta contra todos. Queria sua vida alegre e leve de volta ao lado de seus pais.

– Fernando estou falando com você! Peça desculpas para todos aqui presente!

A moça bonita de vestido olha pra mim e sorrindo me diz: Peça Fernando e acabe com isso. Todos estamos sofrendo com você. Tudo vai ficar bem. Acredite.

A orientadora num gesto impaciente olha para a bibliotecária e diz:

– Pode ir. Agora é por minha conta. Obrigada.

– Por favor, tenha paciência com ele. Tudo é muito novo. Ele é muito criança e está confuso.

– Pode deixar que eu sei muito bem o que faço. Educar não é falar manso não. Tem que se ter pulso firme caso contrário esses monstrinhos tomam conta. E agora chega de conversa mole. Fernando pode limpar toda essa sujeira que fez com a pobre da planta.

Vencido, o pequeno cervo pega a vassoura, a pá de lixo e recolhe todas aquelas folhas estraçalhadas por ele. Em silêncio, segue a professora que ainda se encontra em estado de choque e a orientadora que marcha à frente levando o menino de volta a sua (cela) , ops, quero dizer, sala de aula.

Fernando desde cedo já aprende a dura tarefa que é crescer. Seu mundo de contos de fadas ficou para trás.

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6 comentários sobre “Olhos de cervo

    • Mariel crescer realmente é um processo dolorido. E passamos uma vida inteira sentindo as mais diversas dores. Essa situação vivi na real essa semana e não consigo tirar o rostinho sofrido do garotinho. Enfim, espero que ele supere tudo.

  1. Roseli, me lembrei de meu filho em seu primeiro dia de aula. Tão pequenininho… se agarrou ao meu pescoço e não soltava de jeito nenhum. Então, com a autorização da professora, entrei na sala e sentei numa carteira, ao lado da dele. Ele ficava de olho, pensando que eu fosse embora a qualquer minuto. Depois uma moça entrou, devia ser a orientadora, e me olhando, perguntou à professora “o que é isso?”. Achei de uma grosseria tão grande, porque eu não sou “isso”.. Expliquei a situação e ela, ainda grosseiramente disse que esse gesto não era bom e que não podia ficar na sala. Disse que logo sairia… Minha vontade foi de tirar meu filho de lá, mas nós, pobres maioria, dependemos do ensino público e eu não queria arrumar encrenca com medo disso refletir no meu menino. Bem, depois de um tempo, agachei perto do meu filho e disse que ia ali e que logo voltaria… Ele ameaçou chorar e eu disse que tinha um monte de coleguinhas ali e que logo eu voltaria. Fui embora com o coração partido… No final da aula, na saída ele veio todo sorridente. Menos mal… A gente sofre, viu, Roseli!
    Um lindo conto, como sempre!
    Beijos

    • Clara, vejo muito dessa situação no colégio onde trabalho. Mas o que me pegou nessa situação (verídica) foi a total falta de delicadeza e percepção da orientadora com a criança. Cada um tem um grau de sensibilidade e reage de determinada forma diante do desconhecido. Enfim, espero que essa criança supere esse trauma e siga sua vida estudantil de forma saudável. Bjs

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