Amarelinha

amarelinhaMedo.

Quando foi que passei a olhar meu próximo com desconfiança e medo? Lembro bem dos meus tempos de infância e pré-adolescência quando olhava nos olhos das pessoas e conseguia enxergar sua essência. Tempos leves, alegres onde o sorriso significava exatamente o sorriso e não gesto dissimulado ao qual sou obrigada a conviver hoje em dia. Se havia maldade, era aquela maldade do bem – se é que posso chamar assim – onde no fundo, era aquela vontade de “azarar” a pessoa. Vivia em comunidade em minha rua. Eu, meus irmãos e uma renca de garotos e garotas que cresceram juntos dividindo o espaço da rua entre jogos de queimada, volei, pega-pega e a seguir, a descoberta sexual do outro. Tempos de paquera ingênua, de pegar na mão, de roubar um selinho…Tempo dos primeiros amassos!

Não gostei de me tornar adulta! A vida na infância e na adolescência foi doce, foi mágica, foi lúdica. O ingresso na vida adulta foi sofrido desde o início. Conhecer de perto a discriminação por credo, por condição social, por gosto musical, por existir! Tive de me equipar de inúmeras ferramentas para proteger de tantos ataques vindos de todas as partes. Na vida adulta conheci de perto a inveja, a intolerância, a falsidade, a mediocridade, o ódio.

Levei quase cinco décadas para me conscientizar do enorme estrago que todas essas coisas causaram em minha psiquê. Em meio a isso tudo, muitas vezes tive de me transformar em um deles para sobreviver. Fui sacana, trapaceei, menti, ludibriei, manipulei. Era lutar ou morrer ou pior, ficar pela estrada sem saber para onde correr.

Hoje, após muito choro e ranger de dentes, recolho meus cacos, troco minha pele, refaço meu caminho tentando resgatar aquela garota cheia de vida e de sonhos de outrora.

Outro dia, num lapso de tempo, dei um esbarrão nela e esse reencontro e reconhecimento foi tão forte, intenso e bonito. Chorei.

Foi tão prazeroso saber que ela ainda existe, ainda sorri aquele sorriso aberto, largo que traduz toda a sua grandeza. Abracei-a e não queria mais largá-la. Até que após muita relutância, se afastou um pouco e olhando fundo n’alma, falou de forma mansa:

– Calma! Estive e estarei sempre ao seu lado. Não tenha mais medo. Foi necessário me afastar para que você pudesse amadurecer. A vida pede essas coisas pra gente. Não fui eu quem inventou tais regras.

– Sinto sua falta! Fique!

– Mas estou sempre aqui. Você é que afastou-se na ânsia de descobrir o mundo. Respeitei.

– Fique!

– Bobinha! Sou você! Não tem nem como me desvencilhar. Uma não vive sem a outra.

– Sofro!

– Sofremos! E o pior é que sofro duplamente por não poder fazer nada. Tenho de respeitar seu livre-arbítrio. Mas tenha paciência com você mesma. Estou sempre aqui.

Lágrimas quentes teimam em queimar os olhos que não querem nem ao menos piscar com medo de perdê-la novamente. Choro calada.

Adormeço abraçada a mim mesma. Acordo me sentindo muito bem. Uma paz imensa se apodera de minha alma. Levanto da cama leve, passo pelo espelho e sorrio como há muito tempo não sorria. Era a simbiose do sorriso dela e meu. O espelho refletia minha imagem com todas as rugas e manchas que trago hoje, representando os inúmeros vale-vida que fui juntando nesses meus anos. Só que hoje, olhando-me, vejo algo diferente dos outros dias. Enxergo aqueles olhinhos brilhosos da menina sapeca e sardenta que fui um dia. Lembro da conversa que tive na noite passada e sorrio. Ela não mentiu pra mim! Ainda está aqui, dentro de mim, mesclada à mulher que me tornei.

Me arrumo como de costume, tomo o café da manhã, pego minha bolsa e saio para mais um dia de trabalho.

O dia está ensolarado. Uma luz intensa aquece meu corpo e, levada por uma vontade que vem bem lá de dentro, começo a pular amarelinha na calçada.

Sim! Ainda sei pular amarelinha!

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13 comentários sobre “Amarelinha

  1. Rosely
    Há tempos eu não lia um texto cujas palavras parecem até ter saído de minhas próprias mãos, minhas próprias conjecturas, meus próprios desejos e sofrimentos… Ela também ainda habita em mim e eu estou fazendo um esforço danado para reconhece-la.
    Gostei tanto de seu texto que me vi em lágrimas. As lágrimas que represo por anos e anos e finalmente agora, por entender a causa, deixei escaparem livremente.
    Obrigada.
    Bjuss

    • Suzana que bom que meu texto provocou isso em você! Também me emocionei bastante ao escrevê-lo. É nosso inconsciente gritando para que deixemos de lado a adulta chata que nos tornamos para vir a tona a menina alegre que fomos um dia. Deixe-a vir! E olha, essas lágrimas são muito bem vindas! Servem para limpar nosso interior poeirento. Obrigada pela visita e comentário.
      Beijos

  2. Lindo e encantador! É tão bom ler algo que nos traz tanta nostalgia… Me trouxe paz e tranquilidade, e de certa forma, coragem, para encarar o peso da vida com a leveza de uma criança…
    Muito obrigada por me proporcionar tais sentimentos! Parabéns, abraços!

    • Lucy que bom ver as emoções que meu texto está causando. Sabe, ao escrevê-lo também me emocionei bastante. A gente tem de trazer à superfície essa menina que fomos um dia. É ela que nos dá a leveza para enfrentar o dia a dia. Eu é que agradeço vocês leitores aparecerem por aqui e com seus comentários, me incentivar a continuar a minha escrita.
      Bjs

  3. Que forte o que você viveu e que impressionante o que você sente quanto às perdas e ganhos dos saltos que somos obrigados a dar, mesmo não sendo esse, extamente, o desejo. O que me conta o teu post é que somos partes de nós mesmos pedindo (às vezes aos esbarrões) integração e reconhecimento. Somos tudo o que vivemos até aqui. E você sabe descrever isso como poucos.

    • Pôxa Mariel, agora fui eu que me emocionei! Vocês leitores estão me deixando em estado de graça com seus comentários. Existem sentimentos e experiências de vida que são comum e universais. Todos sentimos em algum momento de nossas vidas. Fico feliz em saber que estou tocando todos vocês com minhas histórias. Brigadão de coração!

  4. Roseli, que texto perfeito! Assim como a Rosania me vi nele e estou refletindo sobre algumas passagens da minha vida. O ser humano é uma caixinha de surpresas mesmo.
    Beijos.

    • Vânia, bom ter você de volta! Sim, é bom a gente voltar-se para dentro para refletir e resgatar algo que foi muito bom dentro de nós. Fico feliz que tenha gostado do texto e que ele sirva de reflexão para todos. Beijos

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