Olhos de cervo

olhos de cervo

Respiração acelerada, olhos de cervo em alerta diante do inimigo. Acuado a um canto entre a porta e balcão, treme. Seus inimigos o encurralaram. O que fazer? Após instantes, ataca um deles que tenta se aproximar dando mordidas. O inimigo afasta-se tão assustado quanto ele. Fica cada um de um lado tremendo, rosnando, babando. Uma raiva imensa toma conta de si. Para descontar toda essa gana, ataca um vaso de jibóia. Despedaça suas folhas com tamanha voracidade metendo mais medo em seus inimigos que temerosos, se afastam. Escoiceia o balcão que igualmente sente sua revolta. Poderia ser pego pelos inimigos mas, com certeza, lutaria até o fim. Mesmo amedrontado, não abaixaria sua cabeça. Um deles solta um grito chamando o líder da manada. Em segundos, surge um que ainda não tinha visto.

Alerta total! Encolhe-se um pouco mais. Agora rosna para causar medo.

O líder dessa matilha, uma fêmea com um andar silencioso, um molejo, um pisar suave que em nada lembra o resto deles. Fecha os olhos. Tinha certeza que agora chegara ao fim. Morreria dignamente. Sentiu seu cheiro. Era diferente, um cheiro adocicado. Arriscou um olhar, gostou do que viu. Ela, a fêmea, não lhe dá medo feito os outros. Trás um olhar, assim como seu cheiro, doce.

Não! Não vou cair na armadilha dela! Deve ser um truque para me apanhar isso sim!

Ela emite um som suave. Não vocifera feito os outros. Se aproxima não dando condições para fuga. O pobrezinho se sente perdido.

– Tenha calma. Não estou aqui para te causar nenhum mal. Como se chama?

Por que ela finge gostar de mim se o que quer na verdade é me caçar?

– Ele se chama Fernando. – responde aquele que o atacou primeiro. Aquele que grita o tempo todo.

– Muito bem Fernando, como dizia, não estou aqui para te fazer nenhum mal, só quero conversar com você. Me diz, por que toda essa braveza? O que aconteceu com você? Pode falar que eu ouço e não vou dar bronca nem te deixar de castigo. Só quero entender.

Ela parece diferente dos outros mas será que posso confiar? Não sei…

– Fernando, posso fazer um carinho em você? Assim, bem de leve? Posso?

Ela está tentando me envolver para depois dar o bote isso sim! Mas parece sincera… Será?

Encaro. Acho que ela é do bem. Tem um sorriso bonito!

Ela levanta sua mão e afaga a cabecinha assustada. De tensa, passa a suavizar a feição transformada numa máscara de raiva. O surto ameniza. Um leve esboço de sorriso se desenha. Os outros murmuram algo e ela, olha para todos dizendo:

– O Fernando vai ficar bem não vai? – E dizendo isso continua a afagar suavemente a cabecinha e as costas dele.

Passos pesados ressoam pelo corredor. Surge uma figura nova no campo de visão do pequeno.

– Muito bonito não seu Fernando? Bancando o animal de novo? Não adiantou nada nossa conversa de ontem. Agora chega entendeu? CHEGA!! Não vou mais admitir que bata em sua professora nem em seus coleguinhas. Pode pedir desculpas para sua professora AGORA!

Olhos do cervo escurecem diante da agressividade dessa, que surge com grande autoridade. É a orientadora educacional do colégio em que Fernando entrou. Sua confusão é grande. É a primeira vez que ingressa numa escola e tudo é muito diferente de sua rotina em casa.

Tudo em sua vida mudou tão rápido em pouco tempo. Sua família se desmantelou. Seu pai que tanto amava, partiu, sumiu de sua vida. Sua mãe, que antes era tão amável, carinhosa, hoje vocifera por qualquer coisa. Vive chorando, gritando, amaldiçoando a tudo e a todos. Inclusive a ele, que tornou-se um peso em sua vida. E agora mais essa. Passar o dia naquela escola estranha, imensa, ao lado de pessoas que não conhecia. Não estava suportando isso! Estava reproduzindo o comportamento da mãe. Passava o dia chorando, brigando, urrando feito animal enjaulado. Sim, porque estava enjaulado. Passava horas naquele local cheio de portas, portões, homem engravatados que não permitiam que saísse à rua. Eram guardiões daquela cadeia! Não entende o que tinha feito de mal para ser encarcerado daquela forma. Por isso sua revolta contra todos. Queria sua vida alegre e leve de volta ao lado de seus pais.

– Fernando estou falando com você! Peça desculpas para todos aqui presente!

A moça bonita de vestido olha pra mim e sorrindo me diz: Peça Fernando e acabe com isso. Todos estamos sofrendo com você. Tudo vai ficar bem. Acredite.

A orientadora num gesto impaciente olha para a bibliotecária e diz:

– Pode ir. Agora é por minha conta. Obrigada.

– Por favor, tenha paciência com ele. Tudo é muito novo. Ele é muito criança e está confuso.

– Pode deixar que eu sei muito bem o que faço. Educar não é falar manso não. Tem que se ter pulso firme caso contrário esses monstrinhos tomam conta. E agora chega de conversa mole. Fernando pode limpar toda essa sujeira que fez com a pobre da planta.

Vencido, o pequeno cervo pega a vassoura, a pá de lixo e recolhe todas aquelas folhas estraçalhadas por ele. Em silêncio, segue a professora que ainda se encontra em estado de choque e a orientadora que marcha à frente levando o menino de volta a sua (cela) , ops, quero dizer, sala de aula.

Fernando desde cedo já aprende a dura tarefa que é crescer. Seu mundo de contos de fadas ficou para trás.

Anúncios

Felicidade a Conta Gotas

roseli e lirio peteleco

Domingo passado tive um dia atípico. Passei o dia ao lado de muitos palhaços, sendo ridiculamente felizes e levando amor a todos. É engraçado constatar o quanto –  de início – a gente se sente até desconfortável pois no dia a dia, não estamos acostumados a receber sorrisos e carinho de pessoas estranhas. Por uma meia hora fiquei me sentindo esquisita, com vontade de girar nos calcanhares e me mandar dali. Mas como a alegria costuma ser contagiante, em pouco tempo me sentia totalmente integrada naquele grupo de palhaços.

Explico: minha irmã caçula é cadeirante. Ficou há pouco tempo nessa condição e ao invés de se encolher em sua infelicidade, abriu-se para o mundo e buscou companhia. Encontrou e conheceu diversas outras pessoas na mesma condição e foi por intermédio deles, que acabou descobrindo esse grupo e seu trabalho voluntário: Operação Conta Gotas. Palhaços voluntários que promovem encontros para visitas a hospitais, Casa de Apoio ao Câncer, Asilos, Orfanatos etc.

O que me chamou a atenção foi ver quantos jovens estão se aproximando dessa ONG e se dedicando a essa causa. Esse pequeno recorte me fez voltar a ter esperanças de que nem tudo está perdido nesse pais.

Diante de tantos acontecimentos negativos que destroem nossa confiança no ser humano, ver a motivação e alegria

palhaços conta gotas

desses jovens doando seu tempo livre numa causa tão humana, me fez um bem danado. O encontro de domingo foi para uma conscientização sobre os Portadores de Doenças Raras. Só convivendo ao lado de alguém nessas condições e que damos conta do número elevado de doenças raras e número mais elevado ainda de seus portadores. Mais uma vez me surpreendi por ver crianças com diversas síndromes ao lado de suas famílias numa confraternização muito especial: a felicidade estava presente em cada rosto, em cada sorriso. Uma energia muito diferente envolvia todos. Diferente dessa energia que rola nos demais encontros ditos “sociais”. Ali eram pessoas que realmente optaram por estarem juntas num objetivo único: doar-se verdadeiramente.

Saímos do Parque Mário Covas, ganhamos uma pista da Avenida Paulista, distribuímos panfletos sobre diversas doenças raras, entramos no Parque Trianon e lá, nos encontramos com mais uma trupe do bem. Apresentação de mágico, de palhaços arrancando risadas gostosas de todos que estavam presentes no parque.

Voltamos para casa tomadas de uma felicidade incrível. Sensação até então desconhecida para mim. Ficou registrado e nós duas, apesar do imenso cansaço físico, dormimos com um sorriso estampado no rosto e tatuado na alma.

nos duas

E por falar em neuras…Mais algumas

Imagem

Por que fui mexer nesse vespeiro? Devia ter deixado todas elas lá, bem no fundo do lodaçal de emoções e desequilíbrios. Mas não! Quis me conhecer (e isso é possível?), melhorar minha índole, trabalhar minhas emoções, ser uma pessoa melhor. Agora me pergunto: melhor pra quê? pra quem?

Era tão mais feliz quando vivia na total ignorância! Pensava comigo: quem quiser que me ature. Não tô nem aí pra agradar fulano ou sicrano. E se beltrano não achar graça em mim, que se mude pra bem longe daqui. Esse era meu pensamento.

Era bem mais feliz!

Certo dia, um simpático senhor que conheci por aí, fez o seguinte comentário que na época, confesso, não entendi.

“Garota, precisa deixar de lado essa sua personagem. Às vezes torna-se irritante!”

Não entendendo seu raciocínio perguntei: Que personagem?

“Pollyanna”. Essa tua mania de ser sempre certinha, bonitinha, vestir toda combinandinho, cabelinho certinho, sempre com esse sorriso besta na cara, não convence! Prontofalei!

Ehhhhhh… Fiquei algum tempo, não, pra falar a verdade fiquei meses com isso na cabeça sendo digerido de forma bem lenta. Estava difícil de engolir!

O filha da mãe me teve todos os dias, se refastelou e ainda teve a pachorra de jogar na minha cara que sou…Chata!!!! Pior, Chatinha? Que sou muito Inha? Despiroquei de vez!

Minha confissão

Gente, pra vocês eu posso me abrir. Sou chata mesmo! Veja bem, não sou qualquer chata, muito menos sou chatinha como o sincero senhor abordou. Afinal, ele pouco ou nada me conheceu. Talvez tenha conhecido um pouco minhas curvas, minhas rodovias, meus túneis mas me conhecer pra valer, não mesmo! Não tivemos tempo para conversas, muito menos tempo para filosofar sobre a vida. Quando juntos, estávamos sempre muito ocupados com coisas mais carnais e terrenas.No entanto, sou obrigada a concordar que ele teve um certo Feeling e conseguiu enxergar um pouco da minha personalidade. Ele tinha uma certa razão!

Mas deixando o senhor um pouco de lado pois ele não é o personagem principal da história e sim, EU, gente sou CHATA! Com todas as letras maiúsculas, assumo, SOU CHATA! E explico porque.

Quer me ver subindo pelas paredes de raiva? Bata portas, abra e deixe gavetas ou portas entre abertas, use o tubo de pasta de dentes e aperte no meio, deixe quadros tortos nas paredes (fico em cólicas!), marque o livro que estiver lendo dobrando a ponta da página ou marque palavras ou frases com lápis ou caneta (odeio!), ao ler esse mesmo livro, dobre ele ao meio abrindo por completo sua lombada (insuportável!), vá ao banheiro e não dê descarga (putaquepariuéfoda!), enfim, existem muito mais coisas que me deixam irritadas mas por hora são essas que me pulam à vista e que me deixam putérrima, se é que você me entende.

Fui talhada pela educação familiar a ser sempre a “boa moça”, de bons modos, bem educada sempre, boa aluna, boa filha, boa irmã, boa, boa, boa… Durante bom tempo até que consegui manter a pose de “boa moça” mas sempre existiu o lado B que adorava aprontar. E como aprontei! Tem coisas que nem te conto! Aliás, tem coisas que não conto nem pra terapeuta, nem para minha consciência! Ela pode me acusar!

Mas é isso. Perfeita descobri que nunca fui, não sou e jamais serei. E quer saber? Desde que descobri isso, sinto-me bem mais leve. A mania de perfeição me deixava mais chata ainda. Hoje me permito ser o que sou e a apreciar o pacote todo afinal, não sou apenas um bocado de neuras e defeitos. Sou meiga quando necessário, carinhosa quando merecido, alegre quando estimulada e procuro na medida do possível fazer o bem não me importando a quem.

Mas por favor, não minta para mim. Não permita que eu perceba que está mentindo. Sabe, vou confessar aqui mais um segredo. Vou falar bem baixinho que é pra só você ouvir: Tenho o dom de penetrar sua mente e sempre, sempre sei quando mente.Ai meu filho, não tem jeito mesmo. Meu Lado B entra em ação!

Neurotecária

Imagem

Sou uma pessoa um tanto neurótica. Calma! Não precisa dar um passo atrás, eu não mordo.Mas sou neurótica, como todos que vivem numa metrópole. Mas minha neurose – pelo menos essa em questão pois tenho muitas outras – é ligada diretamente a minha profissão.

Bibliotecária de formação, tenho verdadeira compulsão para estar informada sobre tudo. É claro que não consigo. É humanamente impossível ler tudo, saber de tudo. E isso cansa! É muita informação para o cérebro processar e daí em pouco tempo, ele funde. O cansaço me abate e esse estado não há sono que reponha. É cansaço mental e dos bravos. Já tentei fazer meditação para dar um repouso a essa santa cabecinha mas quer saber? Saía mais estressada de cada sessão de meditação. Por fora sou calma, passiva mas por dentro sou um vulcão sempre prestes a erupção. Vivi em permanente ansiedade por ler todos os livros que chegam à biblioteca onde trabalho. O dia a dia é ao mesmo tempo o meu céu e o meu inferno. Fico extremamente feliz por ter a liberdade de comprar qualquer livro que deseje para o acervo da biblioteca mas, em contrapartida, cada título que chega eu entro num estado de ansiedade por saber que não terei tempo de ler. Pelo menos de imediato.

Quando aqui ingressei há cerca de quase vinte anos atrás, passeando por entre os corredores de estantes e conhecendo o acervo, fui fazendo uma seleção mental dos livros que um dia iria ler. Preciso confessar que essa lista se excedeu nesses anos todos e hoje até já me sinto perdida. Mas tem alguns autores que guardei de memória e que penso um dia ler: Marguerite Yourcenar, Albert Camus, Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Jean-Paul Sartre, são alguns dos inúmeros autores que desejo um dia sentar com calma e ler. Quem sabe quando me aposentar!

Mas quer saber? Não era nada disso que tinha em mente escrever! Quer dizer, o início era esse mesmo mas seria apenas para dar um gancho ao que realmente eu queria abordar. Outro problema meu: falta de foco. E falando em foco, lembrei-me de um livro que chegou as minhas mãos ontem e que fiquei bem interessada em ler. Mais um! Foco, de Daniel Goleman. Preciso passar esse na frente de todos e ler o quanto antes para poder focar naquilo que desejo e concretizar caso contrário, disparo para todos os lados.

E falando em disparar…Sobre o que falava mesmo? Nossa! Deu pane!

Mas enfim, o outro tema que tinha em mente avinagrou e vai ficar para outro dia. Sabe como é, sexta-feira, fim de tarde, fim de uma semana exaustiva. Ufa! Cansei! Acho que preciso voltar a meditar. Talvez agora, com mais foco.

Sangria

america-latina-sangraAmérica Latina sangra.

Como já sangrou outrora ceifando vidas

que não desejavam nada além de liberdade, respeito,

ser tratada como gente.

E o que fez essa gente imponente? Descrente?

Essa gente que mente, que não sente amor por nada e ninguém.

Abutres vis, que se alimentam do poder, sem saber.

Só querem foder…o povo.

Morrem jovens, crianças, morrem esperanças!

E os tentáculos da ditadura segue adiante.

Que vida dura!

O que esperar da vida futura?

Dor! Estupor!Desamor!

Pega pra capar! Vamos se salvar!

Matar!

Morrer.

Leo

Imagem

Considero-me um cara da noite. A vida noturna, para mim, tem cor e sabor especial. Sou carioca de nascimento mas paulista de alma. Desde que me exilei nessa cidade fui aos poucos descobrindo suas sutilezas e belezas.

Está certo que não é a beleza natural que encontramos na cidade do Rio de Janeiro. Aquilo tudo é um verdadeiro cartão postal.

São Paulo é aquele famoso caso de se interessar por uma mulher feia, sem maiores atrativos, mas que na convivência diária, vamos descobrindo seus encantos, suas virtudes, sua beleza atípica. E quando menos esperamos, estamos completamente apaixonados por ela.

A vida agitada, frenética e caótica de São Paulo é minha cara! E hoje, já me sinto um paulistano genuíno. Uma das coisas que mais prazer me dá, é, ao sair do trabalho, caminhar.

Não perco tempo me arrochando nos metrôs ou ônibus no horário de rush! Gosto de andar pelas ruas. Circular pelas entranhas urbanas desvendando seus mistérios e ouvindo muitas histórias. Aliás, se tem uma coisa que me dá um prazer danado, é ouvir histórias. E todo ser humano é uma riqueza ambulante nesse quesito. Sempre que desço a Rua Augusta sentido centro, capto diálogos incríveis! E isso, lógico, serve de material denso para minhas histórias.

Ah! Vocês ainda não sabem não é mesmo? Vou começar do início.

Meu nome é Leocádio Neves (oh nome filho da puta!), mas, por favor, podem de chamar apenas por Leo.

Sou formado em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO). Fiz estágio num escritório de direito e odiei. Consegui depois um emprego como estagiário na Biblioteca Nacional e lá, descobri minha vocação para pesquisas históricas e de cunho geral além de me descobrir escritor. Sim meus leitores! Sou um escritor nas horas vagas. Essa é apenas uma de minhas facetas. Outra coisa que descobri trabalhando na BN foi que tenho espírito de Sherlock Holmes. Adoro um desafio e provar que sempre tenho razão. Principalmente quando me atrevo a investigar coisas por conta própria.

Fiz um curso à distância pelo D.N.I. (Departamento Nacional de Investigação) que me ajudou a apurar meus dotes naturais. Já ajudei a polícia a solucionar vários casos cabeludos e foi exatamente por conta de um desses que me ferrei.

Mas isso é outra história! Mais tarde falo sobre ela.

Tem vários locais que me agradam passar algumas horas captando cenas, insights etc. Um deles é o Café Vermont, na Vieira de Carvalho. Além da frequência variada que aparece por lá, o pessoal que ali trabalha é de uma simpatia sem igual. Sinto-me em casa. Outro lugar que também sempre dou uma passada e aprecio aquele café gostoso, é o Café Floresta, no condomínio Copan, na Avenida Ipiranga. Sempre que posso me encontro com alguns camaradas meus que trabalham na Biblioteca Mario de Andrade, que é outro reduto sagrado para mim. Atualmente trabalho numa biblioteca escolar de um colégio tradicional. Gosto do ambiente.

Gente jovem, meninada cheia de vida. Algumas chatinhas, mimadas, mas no geral, sangue bom! Quando fiquei desempregado há um ano, bateu desespero e quando me falaram dessa vaga, fiquei um pouco ressabiado.

Afinal, como a maioria dos profissionais da minha área, o bibliotecário escolar é considerado algo menor. Compreende? Questão de status. Mas como a grana estava acabando e as contas se juntando, decidi encarar.

Não me arrependo!

Ambiente descontraído, pessoais legais, tempo para fazer meu serviço e também para escrever, pesquisar e…investigar! Atualmente estou no encalço de algo grande, pesado.

Mas isso é outra história! Mais tarde falo sobre ela.

Zazen

Imagem

OU MOMENTO (NADA) ZEN

 

A dor que perpassa meu peito trás a lembrança de minha última morte. Foi exatamente assim! Da mesma maneira que das outras vezes também. Meu guru até ralhou comigo dizendo que já deveria estar acostumada com esse “pequeno incômodo”. Segundo ele, faz parte de nossa evolução.

Pensei, refleti, filosofei com aquilo que tenho em meus guardados de aprendiz e conclui: NUNCA vou me acostumar com tal dor! É diferente de todas as demais que já sofri. As outras doem na hora. A gente grita, rola de dor, maldiz a sorte que nos assolou, assopra e em pouco tempo ela vai cessando até que, em dado instante, nem lembramos mais.

Já essa dor…Ai! Ai! Ai! Essa não passa nunca, não acalma nunca, não dá trégua! Logo, o sofrimento é uma constante em nosso dia a dia. Dá desespero! Dá vontade de rasgar o peito e tirar pra fora o coração que já está pedindo arrego de tanto que apanha.

Às vezes, num exercício meditativo, me pego imaginando que consigo rasgar com as próprias mãos minhas entranhas. Avanço lá dentro, sentindo o quentinho da carne. Então pego com cuidado o orgão que fica o tempo todo fazendo TUM!TUM!TUM! E, num movimento rápido, arranco com tudo e arrebento com meus próprios dentes a sua ligação com o resto do corpo. Ainda o sentindo pulsar fortemente, finalmente consigo respirar aliviada depois de tantos anos sofrendo. O peito, aberto, exposto em sua interioridade, mostra artérias rompidas que jorram incessantemente o líquido vermelho. Em pouco tempo forma-se uma poça brilhante e pegajosa aos meus pés. Bonita de se ver! Começo a rir timidamente e, num ritmo cadenciado, vou arfando esse peito exposto e meu riso transforma-se numa gargalhada sem fim. Meus olhos, que antes brilhavam de tantas lágrimas de sofrimento, agora brilham de alegria e alívio. A dor se foi daqui de dentro! O sofrimento acabou. Encontra-se prisioneiro desse coração sofredor ao qual mantenho preso entre minhas mãos.

Consigo manter essa imagem por pouco tempo, pois ainda sou novata na arte de descolar minha alma do corpo. O guru me disse que se treinar com afinco, um dia consigo essa proeza por horas a fio sem danificar meu físico. Apenas com o poder da mente! Tenho sido uma árdua e disciplinada aluna fazendo a todo instante esse exercício. Só assim consigo acalmar essa dor. E quer saber? Por mais que estude, leia exercite tais ensinamentos zen, nunca vou aceitar esse sofrimento todo para apurar a alma. Pôxa! Será possível que não exista ainda outra forma de se elevar espiritualmente que não seja através da dor? Do sofrimento? Coisa mais sem graça!

Aí! Tá vendo só? Bastou me desconcentrar com tais especulações universais que, pronto: retornei ao meu estado natural de reles ser humano sofredor.

Ai como dói, como dói, dói!! Como dói MEU DEUS! a perda de um grande amor! Jogo-me ao chão, me desfazendo em prantos e gritando seu nome em vão. Em instantes, o guru sai de seu posto, levanta-me, apruma meu corpo e dá uma chamada federal:

– VOCÊ é o condutor de sua mente e seu corpo! Está em VOCÊ comandar e expurgar tal sofrimento. Limpe essas lágrimas e volte a se concentrar! Faça o mantra que te ensinei e CALADA, mentalize sua elevação!

Alquebrada física, psíquica e moralmente após essa bronca Zen, fio-me na minha insignificância e inicio meu minguado mantra com o pouco de dignidade que ainda restou:

– AUMMMMMMMmmmm (bem baixinho expresso meu pensamento: MERDA! Onde estava com a cabeça quando decidi me enfiar aqui nesse espaço zen pra curar dor de cornoUMMM?)

Fora de forma! Brasil!

O terremoto no Japão ocorrido em 2011 fez com que o eixo da terra mudasse.

Tomo essa frase como verdade absoluta para falar sobre os últimos acontecimentos em Terras Tupiniquins. De uma hora para outra parece que tudo virou de cabeça pra baixo. É na política, na economia, na justiça, em todas as camadas da sociedade. Do mísero morador de rua, passando pelo candango no sertão nordestino, percorrendo o Tocantins, desembocando em terras sudoeste até espatifar em solo sulista.

Está tudo virado!

As idéias, as atitudes, o comportamento, os valores. Sinto-me deslocada!

Entre tantas coisas fora do eixo que tenho me deparado, uma que tem incomodado bastante a ponto de, pela primeira vez, pensar em mudar é a Educação.

Trabalhando na área desde 1991, sinto-me derrotada. Nunca vi tanta falta de compromisso e irresponsabilidade quanto vejo hoje.

A Educação tornou-se a mulher solteirona de antigamente que ninguém quer olhar mais atentamente. Passa batido.

Tornou-se inconveniente falar dela, tentar melhorar então, impensável! Mas a gente procura fazer uma boa campanha publicitária pra ver se passa adiante pra o próximo otário.

O que constato dia após dia e mediante nosso cotidiano cada vez mais bombardeado por notícias bizarras, é que nossa sociedade vai mal!

Nossos jovens, mesmo que adentrem as grandes e disputadas universidades federais, são quase analfabetos. Incultos na sua grande maioria, não têm maturidade para formar opinião. São “Maria vai com as outras”, seguem tendências, modismos. Não passam nada pelo filtro da razão e do bom senso. Só se preocupam com sua bagagem material pois são consumistas ao extremo, esquecendo-se de alimentar e aumentar sua bagagem moral e cultural.

Os que conseguem sair formados das universidades, ao saírem com seus canudos para o mundo, perdem-se em meio a vida prática e real onde o academicismo se desmancha por completo. Onde as teorias cartesianas que aprenderam nos bancos escolares, tornam-se verdadeiras teorias do caos. Não aprenderam a lidar com isso! Não conseguem visualizar uma simples operação de pagamento de contas no fim do mês, respeitar horários, cumprir metas, aguentar chefe ignorante que muitas vezes não sabem um terço do que eles aprenderam nas universidades.

No entanto, dão de dez a zero no quesito prática da vida, malandragem, assedio moral para se garantir no cargo com um “certo respeito” e por aí vai.

Ano a ano saem dos bancos universitários uma leva considerável de pseudos profissionais que não entendem praticamente nada do que foi dado em sala de aula mas acham-se a última cocada do pacote.

Com esse andar da carroça, me preocupo com o futuro dessa nação. Aliás, a preocupação já se faz presente desde já com tudo o que tenho visto e ouvido.

É muito triste observar no que uma nação sem uma boa formação educacional pode se transformar: BRASIL!

Soberba

soberba

Passeei pela tarde superaquecida

por raios solares que teimam em nos castigar

E pelas farpas venenosas de seres humanos

que insistem em se achar superiores aos demais.

O calor dos raios solares ainda se consegue amainar

através do ar condicionado ou ventiladores potentes.

Já a soberba humana…

O mal é a sede!

Hebe

Nessa hora tão prazerosa, dispo-me das atribulações diárias, tranco as gavetas, guardo os manuais no armário e abro por completo minha mente e minha alma. Biblioteca silenciosa, fileiras intermináveis de livros a testemunhar minha intenção de criar.

Atrás de mim, uma deusa grega vela por mim.

Hebe, deusa da juventude, cria de Zeus e Hera, veio de longe para me inspirar. Seu semblante sereno me instiga a imaginar o que será que viveu em sua vida de musa.

Mas não era sobre ela que queria falar. Mas confesso a vocês que daria uma boa história. Observo pela minha vista periférica que ela sorri timidamente enquanto faço minhas indagações.

Um movimento na porta me tira a concentração e desloco meus olhos para ver o que se passa.

Um sorriso se esboça ao ver do que se trata. Uma fila de alunos da terceira série do ensino fundamental I se encontra parada no corredor bem de frente a biblioteca. Aguardam a outra classe sair da biblioteca infantil para entrarem. Enquanto esperam, um grupo de alunas colocam seus rostinhos suados do recreio, no vão da porta para sentirem o fresquinho do ar condicionado. Uma das garotas me chama a atenção pela expressão de prazer e alívio por sentir esse geladinho tão cobiçado nesses dias de intenso calor. Me distraio com elas até que me dou conta que estão acenando para mim. Sorrio e retribuo.

Uma classe adentrou a biblioteca e me impede de continuar as divagações pré escrita. Professora fala alto!

Confesso que fico um pouco irritada! Não pelo fato em si de entrarem na biblioteca. Não mesmo afinal, ela existe para que utilizem e sempre fico feliz em ver a mesma lotada de alunos.

O que me irrita é justamente a falta de educação da professora que entra, instala os alunos no chão em círculo, inicia uma roda de leitura e nem ao menos olha para mim. Devo fazer parte da mobília.

Paciência. Já devia de estar acostumada a esse comportamento que infelizmente, está cada dia mais comum. Mas é difícil pra mim lidar com isso pois sou de uma geração que foi educada a cumprimentar todos ao chegar a qualquer lugar. É bonito, é gostoso, é civilizado.

Mas hoje são outros tempos, outros valores (existem?), outras condutas. Acho que me tornei ultrapassada.

Volto minha atenção para a tela ainda em branco de meu computador. Sobre o que escrever mesmo?

Penso.

Novamente tenho minha mente dispersa pela movimentação dos alunos se levantando do chão e saindo da biblioteca. Vejo a professora entrando e vindo em minha direção.

Para, olha e pergunta se tem água. O que devo responder? Mato a infeliz que já está há quase seis horas dando aula ininterruptamente negando esse tão desejado copo d’água como desforra por me ignorar por completo ou dou-lhe um tapa de pelica oferecendo o líquido mais cobiçado do dia?

Ah! Hoje estou benevolente! Vá professora! Beba quantos copos desejar e aguentar. Sei que seu dia não foi nada fácil, sei que comandar uma sala de trinta alunos não é brincadeira.

Ao retornar, com carinha de saciada e até esboçando um largo sorriso, a professorinha diz:

– Você é privilegiada. Além de trabalhar nessa biblioteca linda, ainda tem ar condicionado e água gelada. Puxa! Isso sim é que é trabalhar bem. Minha sala de aula é quente demais, o ventilador barulhento deixando os alunos irritados e desconcentrados. Parabéns! Voltarei mais vezes a essa biblioteca. Bom fim de semana!

Impactada pela mudança radical de comportamento, demoro um pouco para responder e desejar bom fim de semana pra ela também.

Satisfeita em saber que aquele comportamento era motivado pela sede e calor, resolvo voltar minha atenção para o texto que ainda não consegui desenvolver.

Mas afinal, sobre o que queria escrever mesmo? Ah! Desisto. Hoje definitivamente não estou inspirada para escrever.

Desligo o computador, fecho a biblioteca pois já está na minha hora e sigo meu destino.

Segunda-feira tem mais!