Manhã diferente

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A cidade amanhece quente trazendo no céu pinceladas de aquarela com nuances alaranjadas anunciando mais um dia.

Na metrópole que nunca dorme, a movimentação de transeuntes e carros já é grande. Buzinas, gritos, palavrões.

Esquina da rua da Consolação com a Avenida Paulista.

Diariamente passo por esse local. Faz parte de meu itinerário. Desço, atravesso e entro na Paulista andando alguns quarteirões. É uma forma de me manter em forma e despertar até chegar a empresa. Tudo parece dentro da normalidade. Mas, hoje, ao descer do ônibus e esperar o semáforo abrir observo que algo anormal acontece do outro lado da rua.

Uma movimentação atípica com muitas pessoas olhando e alguns policiais de guarda. Uma certa tensão no ar. A curiosidade fala alto em meu interior. Não sou a única. Todos que se encontram desse lado da rua espicham os pescoços para tentar entender o que se passa do outro lado. Uma senhora pergunta ao meu lado: Será que algum motoqueiro caiu? Será alguém atropelado?

O sinal abre e começo a atravessar. Confesso que não me encontrava preparada para o que vi do outro lado…

Amo São Paulo e seu caos reinante. Sempre cantei aos quatro cantos minha paixão principalmente por essa região da Paulista que, menina ainda conheci.  Avenida larga com seus casarões imensos e belos que me remetiam a uma outra época. Avenida que anos mais tarde, em minha adolescência, vinha quase que todos os domingos aos cinemas: Astor, Belas Artes, Gemini. Ah! Quantas boas lembranças! A primeira vez que assisti ao filme Saturday Night Fiver,  Meu Deus que fila imensa peguei! Mas na época tudo era festa, alegria. Após o cinema, tomar um milkeshake ou uma banana split. Oh delícia! Paquerar na escadaria do edifício Gazeta. Quem não?

Tempo de descobertas e uma certa ingenuidade. Tempo de amizades puras e risos abertos. Nada de redes sociais. Apenas olho no olho. Quantas histórias que guardarei no meu balaio de memórias até o fim.

Uns vinte anos depois, realizei meu sonho em trabalhar nas proximidades. E me encontro até hoje. Apesar de todo caos, não me canso de viver por aqui. Gosto dessa diversidade, observar as várias tribos que convivem numa boa. Vira e mexe, fico sabendo de tentativas de assalto, alguém que surta e tenta esfaquear alguém no ponto de ônibus, casais que brigam…

Mas confesso que não estava preparada para o que iria ver. E isso me chocou por demais. Quando me deparei com a cena foi como se um choque de 1000 Wats tivesse me percorrido de cima a baixo. Desviei meus olhos, senti uma náusea sem fim, perdi o rumo. Parei e não sabia mais para onde me dirigia. Esqueci que estava indo trabalhar. Parei e uma vontade imensa de chorar brotou mas por algum motivo, as lágrimas não saltavam para fora.  Sentia-me asfixiada.  Não conseguindo me mover do local onde estava, sentei-me na calçada próximo a um ponto de táxi onde alguns motoristas falavam baixo como se estivessem num velório.

Captei algumas frases desconexas das várias conversas paralelas mas nenhuma me chamou mais atenção do que a imagem de um dos policiais ali a postos: um homem de seus possíveis quarenta anos não estava aguentando segurar a pinta de durão. Sua face pouco a pouco se transformava numa máscara de dor. Até esse dia, nunca havia me deparado com uma expressão de dor mais dolorosa do que a feição do policial que aos poucos foi deixando vir a tona um manancial de lágrimas. Me encantou tal cena! Ao mesmo tempo que me deliciava ao ver um homem chorar daquela forma vestido em seu uniforme e com as mãos em riste em sua arma, senti-me autorizada a também fazer-lhe companhia nessa ação. Levantei, aproximei-me dele, coloquei minhã mão em seu braço e olhando um no olho do outro, deixamos a emoção do momento tomar conta de nossos corações tão entristecidos.

Choramos. Muito. Aquilo que começou como algo tímido transformou-se numa crise sem fim como se nós dois chorássemos por todo o sofrimento da humanidade desde que essa portou aqui no planeta Terra. Deus!! Quanto sofrimento! Por que? Por quê?…

Por quê?  – Foi a pergunta que fiz ao policial que me abraçava e soluçava feito um menino desamparado.

Não sei… Não temos ainda nenhuma pista ou informação sobre o ocorrido. Olhei para os lados e vi que mais pessoas choravam também. Uma tristeza coletiva tomou conta da esquina mais charmosa de São Paulo.

O policial, ainda com lágrimas no rosto, voltou a sua postura profissional e pediu para que as pessoas se afastassem do local. Juntamente as demais pessoas, fui me afastando até mesmo porque, duas viaturas estacionavam e um carro do IML também se aproximava. Ao descerem dos carros, os outros policiais mais o motorista e os médicos legistas também demonstraram o mesmo choque que todos nós ali presentes sentimos. Uma médica loura, de seus trinta anos virou seu rosto desfigurado pela dor mas em dois minutos se recompôs e se aproximou. Colocando suas luvas de látex, agachou e começou a analisar. Balançou a cabeça numa negativa e mandou o rabecão trazer as macas para levar.

A cena em si parecia um quadro ultra realista e de certa forma me lembrava uma imagem de presépio: duas crianças deitadas uma de frente para a outra, nuas, cabecinhas raspadas, pés sujos, olhos vítreos que conservavam ainda algumas lágrimas quase secas escorridas pelo rosto. Aparentemente não havia marcas de sangue denunciando suas mortes por tiro ou facadas. Parecia cena montada de um grande teatro. Cheguei até a lembrar da canção do Legião “Teatro dos Vampiros”. A cena nada tem a ver com a letra dessa canção mas o título se encaixava com o que via. Ao mesmo tempo em que era chocante, nunca tinha visto cena mais bela em minha vida! Dois bonequinhos humanos deitados de forma a remeter os demais a alguma pegadinha infame do destino. E mais uma vez me peguei pensando em outra frase, do famoso escritor alemão J. M. Simmel “Por quantos ainda vamos chorar” e…

Abro os olhos na escuridão de meu quarto e me sento com o coração a mil. A cena ainda está nítida em minhas retinas.

Graças a Deus foi só um sonho!!

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20 comentários sobre “Manhã diferente

  1. Roseli, muitas vezes a gente chora ao ver um filme. O autor conseguiu passar para a gente uma emoção necessária o suficiente para mexer com nossos brios interiores. Da mesma forma você conseguiu com essa sua postagem fazer o mesmo. Ainda que sendo um sonho, foi benéfica para amolecer nossos corações endurecidos pela convivência pacífica que temos tido com a violência urbana. Estamos sentindo prazer ao nos depararmos com cenas iguais a essa e a mídia aproveita para colocar como novo esporte ( esporte de heróis) essa coisa de lutas MMA. A criançada vibra ao assistir essa carnificina e depois corre todo o mundo para a TV para reclamar de violência. O que se vê nos campos de futebol é fichinha perto do que se vê numa luta de “heróis” MMA.
    Enfim, senti uma dorzinha gostosa no coração ao curtir sua descrição da região da Paulista. Sentei muito ali no prédio da Gazeta, kkk!
    Roseli, um beijo no seu coração e parabéns por seu grande talento,
    Manoel

    • Oh Manoel agora quem se emocionou fui eu! Olha, se consegui te emocionar então ganhei o dia! A intenção era essa mesma pois foi exatamente o que senti ao acordar desse sonho. E enquanto não escrevi, não sosseguei. Confesso que não sabia onde iria dar essa história mas valeu cada palavra ali colocada. Obrigada mais uma vez amigo!
      Beijos

      • Roseli, tempos atrás eu “reclamei” para você escrever mais aqui nesse seu blog. Até pensei que você fosse ficar brava, mas eu pensei: “Essa menina escreve tão bem que vale a pena ela ficar brava comigo mas postar por aqui com maior frequência”.
        Acabou que você me mandou uma resposta muito educada explicando que postava também em outros locais e que o tempo era escasso. Fiquei feliz, mas um pequeno milagre aconteceu em função do seu talento, que me deixou mais feliz ainda. Você passou a ter uma turma bastante fiel na leitura das postagens e isso a motivou jogar um pouquinho mais do seu tempo aqui. Nós que vivíamos “das migalhas” (rs…rs) do seu talento, agora estamos aproveitando bastante. É uma delícia ler a sua maneira de escrever. Você consegue modelar as ideias e colocar sabor literário nelas e a gente saboreia isso. Roseli, sou seu fã! (de verdade).
        Um beijo,
        Manoel

      • Bom dia Manoel!
        No final do ano repensei muito minha vida e decidi que iria apostar mais nesse blog. Saí do blog coletivo e de outras duas revistas literárias. Vou centralizar todos os meus textos por aqui. Fica mais fácil pra mim e também concentro meus leitores num só lugar. Por utilizar mais esse blog no wordpress, encontrei uma galera muito do bem, talentosa e amiga que nada mais são do que vocês que passam diariamente por aqui para me visitar. Estou muito feliz por ter encontrado todos vocês, pessoas talentosas e que têm prazer em trocar ideias e figurinhas com outros blogueiros. Isso nos torna uma turma bem especial pois vejo por aí muitos blogueiros metidos e que não estão nem um pouco interessados nos outros. Vocês realmente me incentivam a continuar a contas minhas histórias. Obrigada mais uma vez. Beijos

  2. Roseli, sua danada! Eu li, morrendo de vontade de correr os olhos até o final pra saber do que se tratava só pra acabar com minha agonia… sou ansiosa demais, fia! Já estava quase chorando quando vem o fim e ploft! Cai na nossa cabeça um alívio imediato!
    Roseli, o que dizer das coisas que vc escreve? Maravilhoso demais!
    Beijos e ótimo finzinho de domingo!

    • Oi Clara! Desculpe brincar assim com sua ansiedade! rsrs Mas se consegui prender sua atenção até o fim, missão cumprida!!! Obrigada pelo carinho de me acompanhar por aqui. Vocês leitores são meu alimento nessa estrada asfaltada por palavras. Beijos

  3. O humano que existe em nós ,texto sensível,tocante,triste por ser tão atual e quase banal nos dias de hoje,mas é necessário resistirmos e conservarmos nossa sensibilidade ao sofrimento alheio.Parabéns

  4. Caríssima Roseli, senti-me profundamente tocada por seu texto; creio, entretanto, que não se trata de um sonho, mas de uma realidade a qual você presenciou de alguma forma. O seu inegável talento literário encarregou-se das pinceladas que, nos filmes, nos tiram as lágrimas dos olhos. Tenha a certeza, nada nesta vida é por acaso. bj.

    • Rosania, acho que você tem razão. A única coisa que me lembro e que ficou gravada em minhas retinas foi a cena das crianças. O resto foi saindo enquanto dedilhava o teclado do computador. Obrigada pela visita e comentário. Beijo

    • OI Suzana! Sempre bom te ver por aqui. Também agradeço por ter sido somente um sonho pois não sei qual seria minha reação diante de um fato desses. Obrigada pela visita e comentário. Beijos

    • Que bom que gostou Gláuber! Tenho um carinho muito especial por essa região e já escrevi algumas coisas tendo a avenida Paulista como personagem. Aos poucos vou postando por aqui. Obrigada pela visita e comentário amigo! Beijos

  5. Há uma expressão no rio grande que é “de chorar num cantinho”. Usamos como um reforço para algo que nos impacta. Como “nossa a comida estava boa de chorar num cantinho”. Ou a saudade de ti tá doendo de chorar num cantinho. Bem esse sonho tem tudo de real. E o texto é bom de chorar num cantinho

  6. Excelente narrativa! Li acreditando em cada fato, graças aos detalhes meticulosamente descritos. Fiquei pensando que tinha sido o caso da cabeça que encontraram a pouco tempo. Então o final me surpreendeu, mesmo sendo uma solução que normalmente mato de cara.
    Que mundo é esse em que tem tantas bizarrices que nem levantamos a possibilidade de algo assim ser ficção, ou sonho? Bah!

    Até!

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