Música, aventuras cotidianas, histórias..Era uma vez

Praticamente duas noites sem dormir, anestesiada pelas situações e falta de sono que me é tão necessário. Apesar de tudo, a vontade de escrever é grande e por isso aqui estou. Serva das palavras, pontuações e eterna vontade de contar histórias, aqui me encontro sentada, pronta pra contar mais uma. Preparados? Muito bem!

Era uma vez um show…

Quem me conhece sabe da minha paixão por música e sempre que posso vou a shows de meus cantores e bandas favoritas. Alguns fumam, outros injetam, outros tantos cheiram. Eu absorvo por todos os poros e sentidos a voz, o som dos instrumentos, assimilo a energia desprendida nesses momentos únicos quando acontece a simbiose entre cantor e platéia. E sempre saio anestesiada, embriagada, em paz! É quase que a mesma letargia de quando fazemos um bom sexo. Ahhhh!!!

E pude me inundar mais uma vez da bela voz, bela estampa e som de Filipe Catto. Um jato de talento e criatividade em meio a tanta mediocridade que impera no meio musical. Tão jovem e já com uma bagagem imensa de mergulho  na boa música popular brasileira. Para quem ainda não conhece o trabalho dele, vale dizer que ele canta de Luís Gonzaga, passando por Zé Ramalho, Nelson Cavaquinho, Eduardo Dusek, Fábio Júnior e até Reginaldo Rossi. Além de também ser compositor. Enfim ,vale muito a pena conhecer seu trabalho. Tive uma noite de glória, voltei tarde para casa, quase não dormi nada.

 

Era uma vez, em casa…

Em contraponto, na noite de sábado, tive de levar minha irmã ao pronto-socorro da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo pois ela estava sentindo dores horríveis. A aventura já começou quando liguei chamando um táxi para nos levar. Alguns aqui podem se perguntar: mas porque chamar táxi e não uma ambulância? Te respondo: já tive duas experiências nada agradáveis andando numa ambulância do serviço público. Não recomendo a ninguém. Nem ao meu pior inimigo mas, isso falarei numa outra ocasião.

Voltando ao táxi, a moça me avisou que levaria uns dez minutos para o táxi vir em minha casa. Levou uns vinte minutos. Já passava das 23h.

Quando chegou, logo de cara vi que teríamos uma longa viagem pela frente. Um jovem com um sotaque bem mineirim perguntou para onde queríamos ir. Falei: segue direto para a Santa Casa.

– Ah, tá…onde é isso?

– Como assim? Santa Casa de Misericórdia de São Paulo meu jovem!

– Desculpa senhora, não conheço. Qual o endereço, é aqui perto?

– É no bairro de Santa Cecília, na rua Doutor Cesário Motta Jr.

– Vixi! Conheço não! Mas a gente descobre pelo GPS.

Resumo da ópera: o rapaz não conseguia escrever no GPS, logo não encontrava como se chegar lá. Isso levou uns quinze minutos em frente de casa mesmo. Até que minha quase inexistente paciência se escoou e falei:

– Esquece essa geringonça e vamos em frente que eu te ensino como chegar lá. E assim fomos.

Ao fazermos o caminho para pegar a via de acesso a essa rua do hospital, falei para ele entrar pela Augusta. Por que fui dizer isso a ele! A rua estava fervendo de gente de todas as tribos: de góticos a sambistas, de metaleiros a curtidores do som jamaicano, tinha de um tudo! E isso foi novidade para meu jovem motorista. Ele ficou de boca aberta e pasmo com toda essa fauna urbana! E claro, não acelerava o carro vislumbrando toda essa paisagem.

– Meu jovem, não querendo ser chata mas já sendo, dá pra acelerar pois estou levando minha irmã para um pronto-socorro e não para uma balada? Ela está com fortes dores. Acelera!!

-Ah, sim dona…já vou acelerar…nossa! quanta gente na rua!!!

-ACELERA!!! – pronto! perdi meu rebolado de moça refinada mas surtiu efeito pois em dois tempos chegamos ao hospital. E ali iniciou-se uma outra história…

Era uma vez num pronto-socorro…

Frente do pronto-socorro lotada de jovens sentados no chão. Parecia uma outra balada. Na recepção, um grupo que parecia familiares de alguém também faziam uma “social” bem em frente ao guichê de atendimento. Eu estacionei a cadeira de rodas de minha irmã e falsamente paciente, esperei eles saírem dali.

É claro que não aconteceu. Continuavam numa roda animada conversando, rindo e eu ali, desesperada com minha irmã chorando de dor. Iniciei meu mantra favorito para essas horas duras da vida: PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!PUTAQUEOPARIU!…

Até que me cansei de ser budista e mandei ver um strike com a cadeira de rodas de minha irmã em cima de todos eles.

-Aiiiiiiiiiii!!!!

Abrindo um sorriso dos mais meigos e fazendo expressão de Pollyana falei:

-Óhhh! Desculpem-me não os vi aí. Machuquei? – e dizendo isso com a voz mais mansa que pude, abri um sorriso imenso e pisquei três vezes.

Saíram dali. Fiz a papelada toda e entrei com ela. Outra história se inicia.

santa casa

Era uma vez dentro do saguão do pronto-socorro…

Fiz uma panorâmica do salão. Ao meu lado um casal aguardava calados. Do outro lado um filho com seu pai idoso que pela expressão, também estava com dores. Mais a frente, uma jovem obesa chorava baixinho de dor, espirrava muito e a cada espirro, gritava de dor. Logo mais a frente, uma senhora negra cochilava quase caindo do banco e a seu lado, um outro senhor dormia a sono solto. Até roncava um pouco. Bem a minha frente, um jovem nóia com uma calça velha amarrada com um cordão na cintura, sujo, desdentado, com as pernas arrebentadas e sangrando muito não falava coisa com coisa. O policial que o acompanhava, ignorava tudo o que ele falava e mantinha um olhar distante. Estava ali só de corpo presente.

– Seu policial tô com dor,muita dor! Tô com fome também! Tô malucão porque hoje fumei maconha e crack. Queria morrer! Me joguei em frente um carro. Queria morrer…Alguém me atende aquiiiii!!!

Silêncio absoluto. O policial mais parece um boneco disposto no saguão. Não move um músculo do rosto. Seu celular toca, ele atende e vira-se para conversar possivelmente com a namorada ou mulher. Percebi pelo teor carinhoso que dirigiu e pelos rápidos sorrisos que esboçou. Ficou alguns minutos in love telefônico e enquanto isso, percebi o olhar insano do rapaz na cadeira de rodas.

Mirava sem piscar o revólver do policial. Silêncio total quebrado uma hora ou outra por gritos de dor vindos lá de dentro. O jovem continuava fascinado pela pistola do policial e o mesmo continuava in love telefônico.

Nisso já me passou um triller inteiro de “Um dia de fúria” em minha cabeça: o nóia pegando a pistola do policial atirando em sua cabeça e depois atirando e m todos ali presentes e a seguir dano um tiro nos próprios miolos. A cena se mostrou nítida: um saguão inteiro tomado de sangue e corpos caídos por todos os lados. Uau!!!!!!!!!!!!!!

Levantei-me e num suposto espreguiçar falei em voz baixa para o policial:

– Se liga man. O nóia está de olho em seu revólver! Fique alerta! Uahhhhh! Ai que sono! E voltei para meu banco. O policial desligou seu celular e voltou a ficar atento. Ufa!!! Essa foi por pouco! É travesti que chegou toda estourada mas que não se cansava de alisar suas enormes madeixas, é uma senhora bem idosa que teimava em não ficar quieta em sua cadeira de rodas,  era uma senhora negra bem obesa que chegou toda descabelada acompanhada de outro policial e gritando que tinham roubado sua carteira com tudo e como faria para voltar para sua casa lá em São Matheus. E o policial perguntando sem parar: Dona o que a senhora estava fazendo naquele lugar? Me diga! Lá só tem loucos e trombadinhas. A senhora é maluca?

E assim as horas foram passando. Lentamente…

Médico que é bom, nada de aparecer e atender a todo esse povo com dor. Mas isso minha gente, é outra história que um dia talvez fale por aqui. E as horas se escoaram lentamente…

E agora, com os olhos quase fechando de sono, termino por aqui essa minha longa aventura de final de semana. Desculpem-me se estendi demais. Não sei fazer resumo. Meu negócio é contar histórias. Ahhh… e como tenho histórias!!

Mas continuo numa outra ocasião.

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10 comentários sobre “Música, aventuras cotidianas, histórias..Era uma vez

  1. Roseli, maravilha de postagem. Falar que é bem escrita é perder meu tempo, mas que prende muito a atenção da gente e que a gente torce para que não acabe mais o seu assunto, é uma verdade. Apesar dos pesares do ocorrido, é uma delícia ler o seu escrito. A gente consegue viver a situação. Adorei tudo isso!
    Um beijo,
    Manoel

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