Solta

molecula da agua com oracao

Mais uma vez a pobre moça estava em crise. Não era justo perder outra oportunidade de emprego. Já tivera tantos, já fora enxotada de tantos, já mandará pro inferno tantos.

Sua mãe, uma ex-hippie, agora tinha um discurso extremamente burguês:

– Você precisa tomar juízo menina! Já está quase na casa dos quarenta e ainda não se firmou nessa vida! Assim não dá!

Odiava cada vez que ouvia essa ladaínha. E com o passar dos anos estava ficando cada vez mais frequente.

– Por que não nasci na casa vizinha? Por que a cegonha me jogou no trailer dessa louca? Será que não merecia coisa melhor?

Chegando em casa, foi chutando seus escarpins de salto pra bem longe, desabotoando sua camisa de seda rosa esmaecida e ao entrar em seu quarto, passou a tranca para ter, pelo menos por alguns minutos, um pouco de sossego antes que sua mãe viesse buzinar em seus ouvidos.

Olhos fixos no teto, relembrou sua trajetória desde que aos quatro anos saiu daquela comunidade hippie em que sua mãe vivia. Arembepe… Esse nome lhe trouxe lembranças que já achava perdida nas dobras da memória.

Por um instante esboçou um leve sorriso. Esse nome trouxe à tona momentos de descontração que talvez tenham sidos os únicos em sua sofrida vivência.

Lá, tivera sua primeira infância de forma livre ao lado de outras crianças. Os adultos que formavam aquela comunidade, eram totalmente livres de regras. Se quisesse andar nu, tinham toda a liberdade. Amor era artigo em abundância e livre. Casais copulavam em qualquer lugar, trocavam de par ou faziam em grupos. Tudo de forma muito natural. O lugar tinha cada história!

Sua mãe não se cansava de falar que havia ficado amiga íntima da cantora Janis Joplin. Tendo ficado na aldeia no verão de 1970, realmente trocaram muitas figurinhas fora o fato de compartilharem muitas drogas que rolou a vontade por lá. Era a coisa mais natural naquela época! E sua mãe toda vez que tocava no assunto com alguém desconhecido, ao ver o olhar de “Não acredito, isso é uma lorota”, logo sacava de sua carteira, a foto que tirou ao lado da celebridade do rock e amava quando ouvia um Óhhhhhh!!! de seu interlocutor.

Mas tudo mudou quando sua mãe brigou com várias pessoas da comunidade e teve de sair de lá quase que as pressas. Após muitas andanças, relutante, sua mãe decidiu entrar em contato com seus país que moravam em Copacabana. Depois de várias discussões por telefone, aceitaram a “louca” e sua filha de volta para casa. Pagaram a passagem de avião e em pouco tempo sua vida de criança livre mudou radicalmente.

A família de seus avós maternos eram tipicamente burgueses. Avô militar que gozava de um certo prestígio e andava sempre ereto e sisudo. Sua avó, uma mulher de princípios rígidos, moldados pela Igreja católica estava sempre a criticar tudo o que fizessem. Teve de aprender na marra a andar vestida e calçada pela casa. Cabelos presos em tranças, roupas engomadas que lhe tolhiam os movimentos, calçados de verniz duro que causavam bolhas e calosidade nos pezinhos acostumados a vestir a terra. Ao entrar na escolinha infantil as coisas só pioraram. Tinha de aguentar as piadinhas com seu nome e foi ali que tudo passou a lhe trazer desconforto consigo mesma.

Lucy Dandara Flor de Lótus Bragança. Esse último sobrenome, passou a usar quando teve que efetivar sua matrícula na escola. Não aceitavam aquele nome cheio de outros nomes esquisito. Exigiram um sobrenome decente e claro, como sua mãe não sabia quem era o pai biológico e também nunca se importou com isso, o sobrenome veio do avô que, muito a contra gosto cedeu em nome dos bons costumes.

Como odiava esse nome!

Era sua pesada cruz que carregava diariamente onde quer que fosse.

Na adolescência sofrera muito bullying. As meninas faziam trote com a pobre garota. Não queriam ela em suas equipes pois denegria com aquele seu jeito estranho de ser e ainda por cima com aquele nome pra lá de esquisito. Riam desembestadamente.

Os rapazes eram loucos para traçarem a moçoila. Aos treze anos, Lucy Dandara já tinha um puta corpão gostoso. Era exatamente assim que os rapazes falavam. Mas não queriam nada sério pois achavam ela estranha. Aliás estranha era a palavra que mais se ouviu na sua vida. estranha por ser filha de hippie, estranha por ser neta daquele militar de cara amarrada, estranha por ser neta daquela carola que pelo jeito devia dar o cú pro padre pois não saia da paróquia, estranha por não saber quem era seu pai biológico. Estranha, estranha, estranha…

Tais lembranças faz verter um rio de lágrimas e seu rosto se contrai de tal forma que nem lembra mais um rosto de mulher. Encolhe-se na posição fetal e enterra o rosto no colchão.

Lembra da expressão de gozação da mulher do RH que a entrevistou pela manhã.

Filha da puta! Será que não tem nenhum ponto fraco? Será que é sempre assim? A toda poderosa, intocável mulher que comanda um departamento tão importante daquela empresa?

Começam as batidas na porta. Sua mãe não se toca mesmo! E nem tem piedade dela.

Dessa vez ela pode implodir a porta mas não vou ceder. Não quero falar. Quero sumir daqui. Aliás, é o que mais desejo nesse mundo: SUMIR!!!!!

E como um mantra, de olhos bem fechados, ela vai emitindo essa palavra inúmeras vezes. SUMIR!!!!! SUMIR!!!!! SUMIR!!!!! SUMIR!!!!!…

Manhã seguinte, nove e meia, um enorme barulho de arrombamento soa pelo apartamento. Homens trajando uniforme entram no quarto e olham espantados para o que vêm. Em seguida entra Júlia, a mãe de Lucy Dandara e também olha sem entender nada.

– Dona Júlia, tem certeza que sua filha estava trancada aqui? Por acaso a senhora não dormiu e ela saiu de fininho trancando novamente a porta sem a senhora ouvir?

– Não! Ela não fez isso! Não arredei o pé daqui a noite toda. Alias, a noite toda não, o dia inteiro pois assim que ela chegou da entrevista e se trancou aqui, vim bater e desde então fiz de tudo para ela abrir a porta e conversar comigo. Não entendo o que possa ter acontecido.

– Dona Júlia, essa era a roupa que ela vestia ontem quando saiu?

– Sim.

– As janelas estão trancadas por dentro, a porta também está trancada por dentro…Não entendo o que possa ter acontecido. Ela tem amigas com quem podemos entrar em contato?

 Não. Lucy sempre foi arredia com as pessoas ela…

Lucy ouve sua mãe conversando e o som de sua voz parece abafado como se ela estivesse num aquário. Pouco a pouco a imagem de seu quarto começa a esmaecer e a diluir feito aquarela molhada até que o que resta é um nada imenso. Um silêncio absoluto toma conta de seu ser e Lucy passa a ter dificuldades em respirar.

Será que morri ou estou morrendo? Será a morte assim? O que me aguarda? – pensa com dificuldade enquanto vai tomando consciência de seu novo estado. Já não sente o peso de seu corpo, sua matéria bruta. Passa a sentir uma leveza infinita.

Aos poucos começa a vislumbrar algo, uma imagem vai se firmando e um clarão como se estivesse ao final de um túnel.

“Lucy! Venha sem medo. Sua nova vida se inicia a partir de agora. Sem reprimendas, sem micos, sem compromissos a não ser com você mesma, sem regras também. A não ser as que você estabelecer para reger sua nova vida. Venha!”

Assustada, Lucy vai seguindo a tal voz misteriosa até que se materializa num jardim de frente para um homem estranho mas que trazia no semblante uma familiaridade e um riso no olhar que desfez em pouco tempo seu temor do desconhecido.

– Onde estou e quem é você?

– Já, já esclareço todas as suas dúvidas minha jovem. Podemos dizer que você acabou de nascer nesse outro mundo que é paralelo ao que você acabou de deixar. Por isso, é importante que repouse primeiro e só depois é que darei maiores informações sobre essa sua nova existência. Venha, deite-se aqui. Essa cama já te aguardava há um bom tempo.

– Certo mas…e minha mãe? e minha vida que deixei lá?

– Esquece tudo agora. Aquela vida já não te pertence mais e aos poucos sua mãe a esquecerá também. Aqui, você iniciará uma nova vida. Vai se sentir bem melhor do que sentia lá.

– Morri? É isso?

Sorrindo, o homem apenas diz antes de sair e fechar a porta :

– Solta. Aqui você é apenas uma essência solta. Descanse. Depois voltamos a conversar.

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