Crônica da cliente insatisfeita

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Fui criada praticamente na cozinha entre panelas no fogo, pão assando no forno e observando minha avó e minha mãe selecionando o arroz e o feijão bons daqueles não tão bons. Gostava de vê-las moendo amendoim no pilão para fazer paçoca. Era uma alegria só! E a criançada entrava na fila para dar uma socada e a cantoria rolava solto. A lembrança mais forte que tenho de minha avó, é a de estar sempre cantando e assobiando. Assobiando e cantando. Munida de seu uniforme de dona de casa: vestido estampado, avental impecável, lenço na cabeça e aquele brilho no olhar que transmitia tanta doçura quanto seus quitutes. E sua gargalhada então? Sim porque dona Maria não apenas sorria, ela gargalhava de forma contagiante. Meus olhos nessa hora de lembranças até se enchem d’água de tanta emoção.

Toda essa introdução é justamente para falar que falta isso nos restaurantes, fast-food e self-service que nos rodeia por todas as cidades. Trabalho na região da Avenida Paulista e por aqui, somos beneficiados com uma grande leva de restaurantes para todos os bolsos e gostos. Mas a maioria é realmente de fast-food e self-service afinal, todos por aqui têm seus horários corridos e não temos tempo a perder.

Aqui onde trabalho, as pessoas ficam espantadas quando ficam sabendo que acordo mais cedo para fazer minha comida. No refeitório, quando esquento minha marmita, elogiam o aroma que exala dela e algumas pessoas já comentaram a forma bonita e colorida que monto minha refeição.

Para mim, o ato de me alimentar não é simplesmente enfiar comida goela abaixo de forma mecânica. Comer para mim tem algo de mágico, de lúdico que me foi passado por essas mulheres maravilhosas que me criaram: minha avó materna, minha mãe e minhas tias que formavam um verdadeiro batalhão na cozinha. Ah! E claro, já ia me esquecendo: além disso tudo, o que não faltava e talvez seja o ingrediente de maior valor nos pratos que elas faziam era AMOR! Amor à família, amor ao ato de cozinhar, amor à vida e uma imensa alegria de viver. E eu, herdei essas qualidades de cozinheira que elas transmitiram. Nem todas as netas e sobrinhas foram tocadas por essa magia mas quem teve sensibilidade para tal tarefa, tornou-se uma Gran Chef.

Hoje, voltei a almoçar num self-service que tempos atrás foi indicado por um colega que elogiou muito o espaço e a comida. Por algum tempo fui frequentadora assídua mas pouco a pouco fui me enjoando da comida e do atendimento que decaiu horrores.

Como me arrependi de ter voltado lá! A exposição da comida até que estava boa, bonita e, como diria minha avó Maria: Pra inglês ver! Mas ao dar as primeiras garfadas, quanta decepção!

Aquilo para mim não era comida mesmo! Não tinha gosto de nada ou, se tinha, era um gosto rançoso de não sei o que. Daí foi batendo um arrependimento por ter tido preguiça de levantar mais cedo e fazer minha deliciosa comidinha. Fiz o que não costumo fazer: largar metade da comida no prato, mas realmente não deu pra engolir. Meu estômago simplesmente se negou a receber aquele (que Deus me perdoe!) lixo. Quase gorfei de desgosto!

Mas o quadro de decepção ainda não tinha chegado ao fim. Ao me dirigir ao caixa para pagar aquilo que havia detestado, me deparo com a falta de profissionalismo e descaso da própria dona e da funcionária no caixa. A dona, perua loira assumida (nada contra as loiras viu gente, apenas descrição) estava distraída na tela do computador vendo seu Face. Me fiz notar ficando bem de frente à ela pois estava com meu tempo de almoço se esgotando. Sem tirar os olhos do computador, mandou sua funcionária me atender. Como estava ao celular, demorou um pouco, então me largou sozinha para chamar um outro funcionário que se encontrava fora do restaurante. Pacientemente contando até mil, fiz cara de paisagem e de moça fina e educada mas xingando a décima geração da moça. Quando retornou, ao invés de fechar logo minha conta e me despachar, a moçoila volta ao celular e começa a conversar. Simplesmente esgotou minha paciência e reclamei educadamente mas de forma incisiva.

Sai de lá rosnando feito cão bravo e decidi que nunca mais piso naquele restaurante. E finalizo essa minha crônica/protesto/desabafo exigindo que os órgãos competentes façam de agora em diante uma prova de aptidão para quem desejar abrir restaurantes, lanchonetes e afins. Se o cidadão não mostrar competências como dom e amor ao alimento, a cozinha e ao ser humano, se seus funcionários não tiverem capacitação para atendimento ao público e simpatia, e lógico, o fundamental “Respeito”. será negado o alvará para abertura dessa casa. Ponto!

Abrir um negócio na área de alimentação só por abrir não pode continuar sendo o único requisito para dar certo. E os clientes também precisam começar a exigir qualidade naquilo que consomem.

Só sei que a partir de segunda-feira retorno para minhas marmitas que além de serem super saudáveis e bonitas, eu as faço com amor, carinho e conhecimento de cada item que junto.

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15 comentários sobre “Crônica da cliente insatisfeita

  1. Roseli, essa postagem é , para mim, uma coisa espetacular. Como você, passei pelo mesmo processo de alegria familiar, cada um com suas obrigações e cada tarefa feita com muito amor e alegria. Minhas avós tinham vocações diferentes e completavam o quadro saudável da minha infância. A avô materna era a das comidas, quitutes e doces maravilhosos e a avó paterna era a das plantinhas, dos chás de erva cidreira, das flores maravilhosas no jardim e no quintal.
    Tudo isso ficou marcado no meu modo de gostar das coisas da mesma forma que você. Eu me apeguei nas plantas e você se apegou nas comidas.
    Isso posto, posso avaliar a sua exigência no prazer de se fazer uma refeição. A refeição tem que ser curtida. Simples mas com o nosso cerimonial que da o endereço do paladar ideal, não é?!
    Minha avó materna já é falecida, mas se ficasse conhecendo esses self-services e fast-food, não suportaria a idéia. É claro que esse esquema é só para ganhar dinheiro. Tudo correndo e sem sabor. Pratos ótimos para patrocinar as gastrites esperadas pela indústria farmacêutica.
    Felizmente eu moro no interior e por esses lados quando a gente quer comer “comida de vó” a gente pega a rodovia e observa onde tem a maior quantidade de caminhões parados. Pode arriscar que ali a comida é simples e boa e o atendimento é como se a gente estivesse na casa da vó.
    Gostei muito da postagem, Roseli.
    Um beijo,
    Manoel

    • Obrigada Manoel. Sabe, somos talvez da última geração em que vivenciou esse tipo de infância. E talvez por isso mesmo somos exigentes com relação a esses detalhes que fazem toda uma diferença. As demais gerações já cresceram acostumadas a comer esse “lixo” fast-food e não desenvolveram seus paladares para outras coisas. Eles nem querem saber de experimentar. Pra tudo dizem: não gosto! Obrigada mais uma vez pela visita e comentário.
      Beijos

  2. Almoço nesses lugares e acabo fechando os olhos para muitas coisas.
    O atendimento é a pior parte. Fila para pagar, às vezes somos ignorados ou às vezes atendidos por pessoas que querem ser íntimas demais. Dá vontade mesmo de acordar mais cedo, preparar em casa e não ter que enfrentar multidões na hora do almoço.

  3. Roseli, sua descrição no início do texto me fez lembrar de minha avó. Nossa, como ela cozinhava bem e tudo feito com muito amor no fogão a lenha. Saudades!
    Trabalhei também na região na Av. Paulista e posso dizer que sei exatamente qual é o seu sentimento por almoçar naquela região. Eu enfrentava esse descaso dos restaurantes com os clientes diariamente, mas como nunca fui muito de “cozinhar” a única opção era testar os restaurantes ao redor e talvez até pagar um pouco a mais por uma qualidade melhor.

    • Mariel, sou privilegiada por ter essas mulheres maravilhosas como exemplo em minha família. Grata por suas palavras com relação ao meu texto. E quanto a marmita, é só marcar um dia que trago uma a mais para almoçarmos juntos, rsrs
      Abraço,

  4. Roseli,

    Realmente vale a pena acordar mais cedo e preparar uma comidinha saudável e saborosa pra levar ao trabalho. Endosso completamente tuas exigências, mesmo sabendo que é apenas um sonho nosso. Infelizmente os cifrões impressos nos olhares hoje em dia impossibilitam a qualidade que merecemos como consumidores. Amei teu texto/lembranças! Gr. Bj.!

  5. Roseli, moro em duas cidades, Rio de Janeiro e Nova Friburgo. As duas tem em comum o péssimo atendimento nos restaurantes, mas por motivos diferentes: no Rio pela má formação dos profissionais, desinteresse dos proprietários e, infelizmente, a tradição de prestação de maus serviços, que o pessoal acha natural. Já em Friburgo, o problema é falta de mão de obra mesmo. Em compensação, como em todas cidades pequenas, você logo acaba amigo dos donos e é tratado como um rei! Está bom, é meio exagerado, mas a gente se sente assim. Um abração.

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