Torcicolo: uma fábula

torcicolo

Acordo após uma noite mal dormida com um torcicolo. Penso: Já comecei bem o dia!
Imaginando que passarei o último dia do ano de 2013 com esse incômodo, me dá uma certa tristeza e um presságio de que o ano de 2014 já não se iniciará muito bem.
Durante o dia sigo minha rotina de casa fazendo os últimos preparos para logo mais a noite. Super mercado, lojas, enfim, fazendo as compras de última hora. Não adianta se programar. Sempre acaba assim! Após o almoço, dá uma moleza brava e venho me aninhar no silêncio de meu quarto. Se é que minha casa alguma vez já foi silenciosa. Deito um pouco, me posiciono de forma fetal e minha mente foge para lugares desconhecido. Desde pequena adoro fazer isso. Deixar a mente solta e aberta.
Quando pequena adorava fazer isso no escuro. Formavam-se imagens distorcidas e coloridas que ao invés de me assustar, alegravam! Nunca soube o que seria isso mas sempre me acalmou. Retorno dessas viagens me sentindo leve, feliz, em paz. Tirei um breve cochilo e ao acordar, veio-me a seguinte constatação sobre meu torcicolo:

Despertei assim hoje para simbolizar que, não podendo olhar nem para os lados, nem para trás, devo deixar o passado em seu devido lugar e que também não devo olhar para os lados no sentido de julgar as atitudes alheias.

Olhar somente para a frente rumo a realizações de meus projetos e ideais. Focar na minha carreira, na minha vida pessoal e deixar de lado os tantos “mimimis” que só emperram nosso crescimento.

Acredito que esse tenha sido o meu “Pulo do Gato” que o Universo jogou de forma simbólica para que faça as devidas mudanças nesse ano que chega.

E é com essa mensagem que desejo a todos que me descobriram, me seguem, me dão a força necessária para continuar por aqui a escrever. Vocês, blogueiros/leitores que me incentivam a cada vez mais criar, expor minha alma por aqui. Que 2014 seja um percurso onde possamos todos ter esse “Torcicolo” do bem, nos fazendo olhar somente para a frente, mirando nossos planos com clareza, exatidão e confiança.   FELIZ 2014!

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Solta

molecula da agua com oracao

Mais uma vez a pobre moça estava em crise. Não era justo perder outra oportunidade de emprego. Já tivera tantos, já fora enxotada de tantos, já mandará pro inferno tantos.

Sua mãe, uma ex-hippie, agora tinha um discurso extremamente burguês:

– Você precisa tomar juízo menina! Já está quase na casa dos quarenta e ainda não se firmou nessa vida! Assim não dá!

Odiava cada vez que ouvia essa ladaínha. E com o passar dos anos estava ficando cada vez mais frequente.

– Por que não nasci na casa vizinha? Por que a cegonha me jogou no trailer dessa louca? Será que não merecia coisa melhor?

Chegando em casa, foi chutando seus escarpins de salto pra bem longe, desabotoando sua camisa de seda rosa esmaecida e ao entrar em seu quarto, passou a tranca para ter, pelo menos por alguns minutos, um pouco de sossego antes que sua mãe viesse buzinar em seus ouvidos.

Olhos fixos no teto, relembrou sua trajetória desde que aos quatro anos saiu daquela comunidade hippie em que sua mãe vivia. Arembepe… Esse nome lhe trouxe lembranças que já achava perdida nas dobras da memória.

Por um instante esboçou um leve sorriso. Esse nome trouxe à tona momentos de descontração que talvez tenham sidos os únicos em sua sofrida vivência.

Lá, tivera sua primeira infância de forma livre ao lado de outras crianças. Os adultos que formavam aquela comunidade, eram totalmente livres de regras. Se quisesse andar nu, tinham toda a liberdade. Amor era artigo em abundância e livre. Casais copulavam em qualquer lugar, trocavam de par ou faziam em grupos. Tudo de forma muito natural. O lugar tinha cada história!

Sua mãe não se cansava de falar que havia ficado amiga íntima da cantora Janis Joplin. Tendo ficado na aldeia no verão de 1970, realmente trocaram muitas figurinhas fora o fato de compartilharem muitas drogas que rolou a vontade por lá. Era a coisa mais natural naquela época! E sua mãe toda vez que tocava no assunto com alguém desconhecido, ao ver o olhar de “Não acredito, isso é uma lorota”, logo sacava de sua carteira, a foto que tirou ao lado da celebridade do rock e amava quando ouvia um Óhhhhhh!!! de seu interlocutor.

Mas tudo mudou quando sua mãe brigou com várias pessoas da comunidade e teve de sair de lá quase que as pressas. Após muitas andanças, relutante, sua mãe decidiu entrar em contato com seus país que moravam em Copacabana. Depois de várias discussões por telefone, aceitaram a “louca” e sua filha de volta para casa. Pagaram a passagem de avião e em pouco tempo sua vida de criança livre mudou radicalmente.

A família de seus avós maternos eram tipicamente burgueses. Avô militar que gozava de um certo prestígio e andava sempre ereto e sisudo. Sua avó, uma mulher de princípios rígidos, moldados pela Igreja católica estava sempre a criticar tudo o que fizessem. Teve de aprender na marra a andar vestida e calçada pela casa. Cabelos presos em tranças, roupas engomadas que lhe tolhiam os movimentos, calçados de verniz duro que causavam bolhas e calosidade nos pezinhos acostumados a vestir a terra. Ao entrar na escolinha infantil as coisas só pioraram. Tinha de aguentar as piadinhas com seu nome e foi ali que tudo passou a lhe trazer desconforto consigo mesma.

Lucy Dandara Flor de Lótus Bragança. Esse último sobrenome, passou a usar quando teve que efetivar sua matrícula na escola. Não aceitavam aquele nome cheio de outros nomes esquisito. Exigiram um sobrenome decente e claro, como sua mãe não sabia quem era o pai biológico e também nunca se importou com isso, o sobrenome veio do avô que, muito a contra gosto cedeu em nome dos bons costumes.

Como odiava esse nome!

Era sua pesada cruz que carregava diariamente onde quer que fosse.

Na adolescência sofrera muito bullying. As meninas faziam trote com a pobre garota. Não queriam ela em suas equipes pois denegria com aquele seu jeito estranho de ser e ainda por cima com aquele nome pra lá de esquisito. Riam desembestadamente.

Os rapazes eram loucos para traçarem a moçoila. Aos treze anos, Lucy Dandara já tinha um puta corpão gostoso. Era exatamente assim que os rapazes falavam. Mas não queriam nada sério pois achavam ela estranha. Aliás estranha era a palavra que mais se ouviu na sua vida. estranha por ser filha de hippie, estranha por ser neta daquele militar de cara amarrada, estranha por ser neta daquela carola que pelo jeito devia dar o cú pro padre pois não saia da paróquia, estranha por não saber quem era seu pai biológico. Estranha, estranha, estranha…

Tais lembranças faz verter um rio de lágrimas e seu rosto se contrai de tal forma que nem lembra mais um rosto de mulher. Encolhe-se na posição fetal e enterra o rosto no colchão.

Lembra da expressão de gozação da mulher do RH que a entrevistou pela manhã.

Filha da puta! Será que não tem nenhum ponto fraco? Será que é sempre assim? A toda poderosa, intocável mulher que comanda um departamento tão importante daquela empresa?

Começam as batidas na porta. Sua mãe não se toca mesmo! E nem tem piedade dela.

Dessa vez ela pode implodir a porta mas não vou ceder. Não quero falar. Quero sumir daqui. Aliás, é o que mais desejo nesse mundo: SUMIR!!!!!

E como um mantra, de olhos bem fechados, ela vai emitindo essa palavra inúmeras vezes. SUMIR!!!!! SUMIR!!!!! SUMIR!!!!! SUMIR!!!!!…

Manhã seguinte, nove e meia, um enorme barulho de arrombamento soa pelo apartamento. Homens trajando uniforme entram no quarto e olham espantados para o que vêm. Em seguida entra Júlia, a mãe de Lucy Dandara e também olha sem entender nada.

– Dona Júlia, tem certeza que sua filha estava trancada aqui? Por acaso a senhora não dormiu e ela saiu de fininho trancando novamente a porta sem a senhora ouvir?

– Não! Ela não fez isso! Não arredei o pé daqui a noite toda. Alias, a noite toda não, o dia inteiro pois assim que ela chegou da entrevista e se trancou aqui, vim bater e desde então fiz de tudo para ela abrir a porta e conversar comigo. Não entendo o que possa ter acontecido.

– Dona Júlia, essa era a roupa que ela vestia ontem quando saiu?

– Sim.

– As janelas estão trancadas por dentro, a porta também está trancada por dentro…Não entendo o que possa ter acontecido. Ela tem amigas com quem podemos entrar em contato?

 Não. Lucy sempre foi arredia com as pessoas ela…

Lucy ouve sua mãe conversando e o som de sua voz parece abafado como se ela estivesse num aquário. Pouco a pouco a imagem de seu quarto começa a esmaecer e a diluir feito aquarela molhada até que o que resta é um nada imenso. Um silêncio absoluto toma conta de seu ser e Lucy passa a ter dificuldades em respirar.

Será que morri ou estou morrendo? Será a morte assim? O que me aguarda? – pensa com dificuldade enquanto vai tomando consciência de seu novo estado. Já não sente o peso de seu corpo, sua matéria bruta. Passa a sentir uma leveza infinita.

Aos poucos começa a vislumbrar algo, uma imagem vai se firmando e um clarão como se estivesse ao final de um túnel.

“Lucy! Venha sem medo. Sua nova vida se inicia a partir de agora. Sem reprimendas, sem micos, sem compromissos a não ser com você mesma, sem regras também. A não ser as que você estabelecer para reger sua nova vida. Venha!”

Assustada, Lucy vai seguindo a tal voz misteriosa até que se materializa num jardim de frente para um homem estranho mas que trazia no semblante uma familiaridade e um riso no olhar que desfez em pouco tempo seu temor do desconhecido.

– Onde estou e quem é você?

– Já, já esclareço todas as suas dúvidas minha jovem. Podemos dizer que você acabou de nascer nesse outro mundo que é paralelo ao que você acabou de deixar. Por isso, é importante que repouse primeiro e só depois é que darei maiores informações sobre essa sua nova existência. Venha, deite-se aqui. Essa cama já te aguardava há um bom tempo.

– Certo mas…e minha mãe? e minha vida que deixei lá?

– Esquece tudo agora. Aquela vida já não te pertence mais e aos poucos sua mãe a esquecerá também. Aqui, você iniciará uma nova vida. Vai se sentir bem melhor do que sentia lá.

– Morri? É isso?

Sorrindo, o homem apenas diz antes de sair e fechar a porta :

– Solta. Aqui você é apenas uma essência solta. Descanse. Depois voltamos a conversar.

Crônica da cliente insatisfeita

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Fui criada praticamente na cozinha entre panelas no fogo, pão assando no forno e observando minha avó e minha mãe selecionando o arroz e o feijão bons daqueles não tão bons. Gostava de vê-las moendo amendoim no pilão para fazer paçoca. Era uma alegria só! E a criançada entrava na fila para dar uma socada e a cantoria rolava solto. A lembrança mais forte que tenho de minha avó, é a de estar sempre cantando e assobiando. Assobiando e cantando. Munida de seu uniforme de dona de casa: vestido estampado, avental impecável, lenço na cabeça e aquele brilho no olhar que transmitia tanta doçura quanto seus quitutes. E sua gargalhada então? Sim porque dona Maria não apenas sorria, ela gargalhava de forma contagiante. Meus olhos nessa hora de lembranças até se enchem d’água de tanta emoção.

Toda essa introdução é justamente para falar que falta isso nos restaurantes, fast-food e self-service que nos rodeia por todas as cidades. Trabalho na região da Avenida Paulista e por aqui, somos beneficiados com uma grande leva de restaurantes para todos os bolsos e gostos. Mas a maioria é realmente de fast-food e self-service afinal, todos por aqui têm seus horários corridos e não temos tempo a perder.

Aqui onde trabalho, as pessoas ficam espantadas quando ficam sabendo que acordo mais cedo para fazer minha comida. No refeitório, quando esquento minha marmita, elogiam o aroma que exala dela e algumas pessoas já comentaram a forma bonita e colorida que monto minha refeição.

Para mim, o ato de me alimentar não é simplesmente enfiar comida goela abaixo de forma mecânica. Comer para mim tem algo de mágico, de lúdico que me foi passado por essas mulheres maravilhosas que me criaram: minha avó materna, minha mãe e minhas tias que formavam um verdadeiro batalhão na cozinha. Ah! E claro, já ia me esquecendo: além disso tudo, o que não faltava e talvez seja o ingrediente de maior valor nos pratos que elas faziam era AMOR! Amor à família, amor ao ato de cozinhar, amor à vida e uma imensa alegria de viver. E eu, herdei essas qualidades de cozinheira que elas transmitiram. Nem todas as netas e sobrinhas foram tocadas por essa magia mas quem teve sensibilidade para tal tarefa, tornou-se uma Gran Chef.

Hoje, voltei a almoçar num self-service que tempos atrás foi indicado por um colega que elogiou muito o espaço e a comida. Por algum tempo fui frequentadora assídua mas pouco a pouco fui me enjoando da comida e do atendimento que decaiu horrores.

Como me arrependi de ter voltado lá! A exposição da comida até que estava boa, bonita e, como diria minha avó Maria: Pra inglês ver! Mas ao dar as primeiras garfadas, quanta decepção!

Aquilo para mim não era comida mesmo! Não tinha gosto de nada ou, se tinha, era um gosto rançoso de não sei o que. Daí foi batendo um arrependimento por ter tido preguiça de levantar mais cedo e fazer minha deliciosa comidinha. Fiz o que não costumo fazer: largar metade da comida no prato, mas realmente não deu pra engolir. Meu estômago simplesmente se negou a receber aquele (que Deus me perdoe!) lixo. Quase gorfei de desgosto!

Mas o quadro de decepção ainda não tinha chegado ao fim. Ao me dirigir ao caixa para pagar aquilo que havia detestado, me deparo com a falta de profissionalismo e descaso da própria dona e da funcionária no caixa. A dona, perua loira assumida (nada contra as loiras viu gente, apenas descrição) estava distraída na tela do computador vendo seu Face. Me fiz notar ficando bem de frente à ela pois estava com meu tempo de almoço se esgotando. Sem tirar os olhos do computador, mandou sua funcionária me atender. Como estava ao celular, demorou um pouco, então me largou sozinha para chamar um outro funcionário que se encontrava fora do restaurante. Pacientemente contando até mil, fiz cara de paisagem e de moça fina e educada mas xingando a décima geração da moça. Quando retornou, ao invés de fechar logo minha conta e me despachar, a moçoila volta ao celular e começa a conversar. Simplesmente esgotou minha paciência e reclamei educadamente mas de forma incisiva.

Sai de lá rosnando feito cão bravo e decidi que nunca mais piso naquele restaurante. E finalizo essa minha crônica/protesto/desabafo exigindo que os órgãos competentes façam de agora em diante uma prova de aptidão para quem desejar abrir restaurantes, lanchonetes e afins. Se o cidadão não mostrar competências como dom e amor ao alimento, a cozinha e ao ser humano, se seus funcionários não tiverem capacitação para atendimento ao público e simpatia, e lógico, o fundamental “Respeito”. será negado o alvará para abertura dessa casa. Ponto!

Abrir um negócio na área de alimentação só por abrir não pode continuar sendo o único requisito para dar certo. E os clientes também precisam começar a exigir qualidade naquilo que consomem.

Só sei que a partir de segunda-feira retorno para minhas marmitas que além de serem super saudáveis e bonitas, eu as faço com amor, carinho e conhecimento de cada item que junto.

Roda de leitura

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(Imagem tirada do Google Imagem)

Seu corpo é um livro aberto,

Leio-te sempre que posso.

Amo virar suas páginas, sentir

suas dobraduras, me deleitar

em suas ranhuras.

Sua lombada, me deixa abobada!

Seu prefácio, me soa fácil.

Em sua página de rosto,

encontro tudo que gosto.

Sua ficha catalográfica tem

informações que me enchem os olhos

Cada hora se apresenta com uma história

Ora se mostra um lord inglês,

me convida para um chá das cinco,

todo cortês.

Outras vezes, me chama para uma aventura gastronômica

fazemos amor, rodeados de guloseimas,

tudo regado a vinho e muito sabor.

Noutras tantas, chega cínico, seco,

me puxa pelos cabelos e me soca sem dó,

depois me deixa zonza, dolorida, saciada.

Um mistério só.

Quando perdido, sofrido, me pede abrigo,

chora baixinho, suga meus peitos e,

saciado adormece sorrindo.

Em noites de luar, me faz serenata, oferece rosas,

Beija as mãos, me abraça, me chama pra dançar.

A cada leitura sua, surge uma ternura que

me prende mais e mais a você.

Homem das mil faces, inúmeras histórias,

tantos conflitos.

Descobri que nessa roda de leitura,

Você é meu personagem favorito.

Superior a Sebastian Barnes, Edward Cullen,

Christian Grey ou Gideon Cross,

Você é matéria bruta, carne, ossos, hálito, suor.

Viciei em reler suas páginas,

Transformei-o em um hábito.

E te habito a cada acasalamento,

sentindo-me  ao lar, regressar .