Em algum lugar de mim

Obra de Lula Cardoso Ayres
Obra de Lula Cardoso Ayres

À procura de um sorriso perdi o siso.

Minha avó sempre me corrigia : Menina, muito riso, pouco juízo! E quanto mais ela ralhava, mais eu ria…

Bons tempos!

Hoje, meu riso se transformou numa máscara endurecida. Quase mortuária. Um esgar! Não acho graça em quase nada. A beleza que encontrava em tudo quando pequena se perdeu no tempo.

E o tempo, há esse senhor sem humor! Penso comigo que ele deve ter sido como eu quando criança mas a vida, essa madrasta, nos força a perder a graça. E ele, assim como todos, tornou-se rígido, implacável, voraz, veloz, algoz.

A vida pulou capítulos. É assim que me sinto quando olho para trás e nada enxergo. Tenho consciência de que muita coisa fiz mas, o que? Parece que nada teve importância, marcou. Mas sei que fiz pois carrego nas costas todo o peso de uma vivência. Um baú inteiro de momentos, sensações, percepções, amores, desamores, dissabores…

Lembranças!!

Essas pragas que tento sufocar e que acabam por me contaminar. Sei que não devo ser tão pesada, que devo levar a vida de forma mais amena, tranquila.

Não consigo!

Minh’alma é uma verdadeira tormenta dos poemas de Camões.Ela deve ser lusitana e não tropical. Parece até que tenho prazer em sofrer. Ser alegre me causa uma leveza que me faz volitar e isso me assusta. Pesada me sinto terra, viva.

Etérea me sinto fora da matéria e disso tenho medo!

Por hora sou toda ebulição. Meu interior bagunçado feito meu guarda-roupa. Tudo fora de lugar.

Tenho preguiça de me arrumar!

Falta-me motivos, falta-me porquês, falta-me buquês…

Que nunca foram oferecidos por você.

Um dia, quando me despir dessa velha roupagem, quero que tenha em minha lápide a seguinte frase:

“Aqui jaz uma mulher que passou uma existência inteira a procura de si mesma. Não encontrando, se foi”

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9 comentários sobre “Em algum lugar de mim

  1. Cara parceira de poéticas, poesias… ótimo texto, desabafo. Te entendo, compreendo pois passei, passo e estou superando alguns assustadores desafios.
    Sobre o que fez? É algo que pode vir a encontrar, pois já está “À procura de um sorriso…”. Mas talvez, poderia perguntar também, o que não fez, o que ainda não faz, por sua leveza e paz? “Se pesada se sente terra, viva…” e do Etéreo, disso tens medo… é um sinal de onde pode vir a tristeza. Traz o peso e deixou a leveza? Traz a dor e deixou o perdão? Estamos todos “a procura de si” a existência inteira… e o que sentes é parte do processo, é humano e mudar, transformar é sempre possível. Você não “deve” nada, não siga por “dever”, siga para respeitar você, por um aprender a ser, perdoar e amar você. Há boas lembranças, os bons tempos lhe trouxeram até hoje, só os porquês nos machucam, nos derrotam. A vida é sempre agora e pode ser diferente, quando aceitamos a gente, exatamente como estamos no presente. Um abraço fraterno. Luz!

    • Engraçado, seu comentário é tão pessoal, mas à medida em que lia, fui me apropriando, como se fosse pra mim. A vida é feita de coincidências; muda o cenário e os personagens, mas nossos enredos se entrecruzam, como num jogo de tabuleiro, como se todos nós tivessemos de cumprir etapas obrigatórias. Desculpem minha intromissão.
      Abraço!

      • E é por aí mesmo… é o tal “nada é por acaso”… as relações (as trocas) em essência são iguais, sob circunstâncias diferentes. Não tem do que desculpar-se, pra mim é uma honra, fico agradecido por isso. Abç

  2. No meu epitáfio (é assim que se diz?) vai ter algo como “só me faltava essa”. Assim: não acho que ninguém mereça de verdade a culpa dos risos desaparecidos. Como vejo, e copio caetano nisso, a vida não é lugar para culpas ou perdões.

    • Excelente definição para ficar para a eternidade. Quanto as culpas, nossa! Como a gente é condicionado a alimentar esse vermezinho dentro da gente! Estou trabalhando nisso há um tempo pois o peso é imenso. Credo!! Um dia me livro deles!
      Abraço,

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