Neur(à)dois

Eu tenho medo!

De que?

Tudo.

Tudo o que?

Tudo!

Especifique.

Tenho medo de viver.

Mas vive!

Mas tenho medo!

Por que?

Não sei, mas tenho.

Já parou pra pensar o motivo?

Muitas vezes.

Chegou a uma conclusão?

Não.

Por que não?

Por que…

Medo!

Calma, respire fundo!

Ei, olhe pra mim!

Não posso.

Pode sim. Levante seus olhos

Não consigo.

Sorria então.

Nem pensar!

Assim fica difícil!

Eu sei. Tô acostumada a ouvir isso de todos.

Vamos combinar que você não facilita. Não ajuda.

Sou caso perdido. Já sei.

Também não é assim. Não vamos ser derrotistas.

É a real. Já ouvi isso de muitos.

(Silêncio entre ambos)

Preciso te confessar uma coisa.

Diz aí

Eu também estou com medo.

De quê?

De te perder.

Humm… Ruim né?

O que?

Ter medo.

Ah, é.

Tem sempre isso?

Não. É a primeira vez.

Culpa minha.

Não!

Sim! Não estou sabendo lidar com você!

Calma, também não é pra tanto.

Sou incompetente.

De forma alguma!

Desculpe, a sessão acabou.

Já? Passou tão rápido!

Também acho.

Bom, então até a próxima semana.

Até. Vai ficar bem?

Acho que sim. Já estou acostumada.

E você?

Não sei, foi a primeira vez

Vai ficar bem. A gente se acostuma.

É… tem algum compromisso agora?

Não.

Tenho uma hora vaga. Vamos tomar um café?

Pensava justamente nisso. Café.

Vamos?

Vamos!

Não quero ficar sozinho. Deu medo.

Não quero ficar sozinha também. Vivo no medo.

Não tenha medo. Me dá sua mão.

Sua mão é macia e quente. Gosto!

Sua mão está gelada e retesada. Relaxe!

É o medo. Fico sempre assim.

Vou pedir um café aromatizado de trufas.

Trufas? adoro trufas!

Por favor! Dois expressos aromatizados de trufas.

Você é casado?

Não.

Eu também não.

Eu sei.

Sabe? Como?

Você me falou na primeira sessão. Esqueceu?

Ah é mesmo!

Você fica muito bonita quando sorri.

E também quando fica corada. Linda!

Pára!

Com o que?

Com isso.

Isso o que?

Me elogiar.

Por que?

Não sei como reagir.

A que?

A elogios.

Sua boba. Gosto de você.

Como? Não entendi.

Fala mais alto e olhe para mim.

Eu também.

Mesmo?

Mesmo.

Vamos tentar?

O que?

Vencer o medo juntos.

Como?

Juntando nossos medos e ver no que dá.

Não sei…

Não sabe?

Não sei..

O que?

Se dá certo.

Pode dar certo.

Mas pode também não dar.

Ah isso lá é.

Então…

Então?

Posso me machucar

Eu também.

Então…

Então? Não quer arriscar?

Arriscar?

Sim!

Dá medo.

É.

Bom tá dando minha hora. Tenho outro paciente.

Tá. Vá andando. Fico de boa.

Mesmo?

Mesmo.

Te vejo então na semana que vem.

Ok.

Pôxa! Se ao menos ela se esforçasse para vencer esse medo. Gosto dela.

Pôxa! Se ao menos conseguisse vencer esse meu medo. Gosto dele.

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9 comentários sobre “Neur(à)dois

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