Bolero

Death Sandman Morte Vertigo Ankh Simbolo Vida PerpetuosParada no tempo estou.

Sei que se seguir em frente,

Enfrento.

Se permanecer onde estou,

Me vou.

Se retroceder meus passos,

Não vou.

As horas passam, a realidade puxa,

Ah essa bruxa!

Madrasta maldita que nos amaldiçoa,

Outras vezes abençoa.

Ela me ronda, ela te ronda,

Ela nos sonda.

A dor voltou. Perpassa o peito,

Atravessa a carne, dispara

o alarme.

De que algo não está bem.

Faço minhas preces, peço proteção,

Digo Amém.

Cai a noite, o silêncio presencia

minha agonia

De não estar nada bem.

Parada no tempo estou.

Racionalizo estratégias,

Penso em que armas usar,

para combater esse soldado valente.

Que ronda, me sonda, me quer.

Como se eu fosse uma vadia qualquer.

Quer me convencer a ceder,

mostrando que depois das trevas,

há luz.

Me seduz.

Me conduz.

Ela é a mensageira. Sorri.

Peço que seja ligeira.

É faceira.

Diz que será breve.

Fecho os olhos cansados,

Digo que acabou minha greve.

Me leve!

Seja doce comigo,

Morte.

Anúncios

Em algum lugar de mim

Obra de Lula Cardoso Ayres
Obra de Lula Cardoso Ayres

À procura de um sorriso perdi o siso.

Minha avó sempre me corrigia : Menina, muito riso, pouco juízo! E quanto mais ela ralhava, mais eu ria…

Bons tempos!

Hoje, meu riso se transformou numa máscara endurecida. Quase mortuária. Um esgar! Não acho graça em quase nada. A beleza que encontrava em tudo quando pequena se perdeu no tempo.

E o tempo, há esse senhor sem humor! Penso comigo que ele deve ter sido como eu quando criança mas a vida, essa madrasta, nos força a perder a graça. E ele, assim como todos, tornou-se rígido, implacável, voraz, veloz, algoz.

A vida pulou capítulos. É assim que me sinto quando olho para trás e nada enxergo. Tenho consciência de que muita coisa fiz mas, o que? Parece que nada teve importância, marcou. Mas sei que fiz pois carrego nas costas todo o peso de uma vivência. Um baú inteiro de momentos, sensações, percepções, amores, desamores, dissabores…

Lembranças!!

Essas pragas que tento sufocar e que acabam por me contaminar. Sei que não devo ser tão pesada, que devo levar a vida de forma mais amena, tranquila.

Não consigo!

Minh’alma é uma verdadeira tormenta dos poemas de Camões.Ela deve ser lusitana e não tropical. Parece até que tenho prazer em sofrer. Ser alegre me causa uma leveza que me faz volitar e isso me assusta. Pesada me sinto terra, viva.

Etérea me sinto fora da matéria e disso tenho medo!

Por hora sou toda ebulição. Meu interior bagunçado feito meu guarda-roupa. Tudo fora de lugar.

Tenho preguiça de me arrumar!

Falta-me motivos, falta-me porquês, falta-me buquês…

Que nunca foram oferecidos por você.

Um dia, quando me despir dessa velha roupagem, quero que tenha em minha lápide a seguinte frase:

“Aqui jaz uma mulher que passou uma existência inteira a procura de si mesma. Não encontrando, se foi”

Sem identificação

Anonyme Gesichter - Kunstausstellung

Somos todos artistas

Malabaristas, trapezistas,

motoristas.

De vidas corridas, passadas,

Amarrotadas.

Correndo atrás de quimeras,

casa própria, carro de luxo, 

Viagens.

Em busca de amores, favores,

Fervores.

Procuramos salvar a alma nadando

Num mar de orgias, amores fáceis, 

Descartáveis.

Fazemos parte de grandes tribos virtuais,

Facebook, Twitter, e tantos mais,

Somos legais, felizes, realizados,

Atuais.

Nessa contemporaneidade, não temos idade.

Somos todos jovens, bonitos, sarados,

Somos plastificados, rotulados,

Enganados.

Ao término do dia, à luz fria do metrô,

nas calçadas, vias, corredores de automóveis,

Cada qual no seu quadrado,

Alguns um tanto retrô.

Fone de ouvido, olhos zumbidos,

Pregados na telinha do Grande Irmão.

Somos todos uma grande leva.

Um exército uniformizados.

Somos o  quê ? Artistas?

AUTISTAS.

Neur(à)dois

Eu tenho medo!

De que?

Tudo.

Tudo o que?

Tudo!

Especifique.

Tenho medo de viver.

Mas vive!

Mas tenho medo!

Por que?

Não sei, mas tenho.

Já parou pra pensar o motivo?

Muitas vezes.

Chegou a uma conclusão?

Não.

Por que não?

Por que…

Medo!

Calma, respire fundo!

Ei, olhe pra mim!

Não posso.

Pode sim. Levante seus olhos

Não consigo.

Sorria então.

Nem pensar!

Assim fica difícil!

Eu sei. Tô acostumada a ouvir isso de todos.

Vamos combinar que você não facilita. Não ajuda.

Sou caso perdido. Já sei.

Também não é assim. Não vamos ser derrotistas.

É a real. Já ouvi isso de muitos.

(Silêncio entre ambos)

Preciso te confessar uma coisa.

Diz aí

Eu também estou com medo.

De quê?

De te perder.

Humm… Ruim né?

O que?

Ter medo.

Ah, é.

Tem sempre isso?

Não. É a primeira vez.

Culpa minha.

Não!

Sim! Não estou sabendo lidar com você!

Calma, também não é pra tanto.

Sou incompetente.

De forma alguma!

Desculpe, a sessão acabou.

Já? Passou tão rápido!

Também acho.

Bom, então até a próxima semana.

Até. Vai ficar bem?

Acho que sim. Já estou acostumada.

E você?

Não sei, foi a primeira vez

Vai ficar bem. A gente se acostuma.

É… tem algum compromisso agora?

Não.

Tenho uma hora vaga. Vamos tomar um café?

Pensava justamente nisso. Café.

Vamos?

Vamos!

Não quero ficar sozinho. Deu medo.

Não quero ficar sozinha também. Vivo no medo.

Não tenha medo. Me dá sua mão.

Sua mão é macia e quente. Gosto!

Sua mão está gelada e retesada. Relaxe!

É o medo. Fico sempre assim.

Vou pedir um café aromatizado de trufas.

Trufas? adoro trufas!

Por favor! Dois expressos aromatizados de trufas.

Você é casado?

Não.

Eu também não.

Eu sei.

Sabe? Como?

Você me falou na primeira sessão. Esqueceu?

Ah é mesmo!

Você fica muito bonita quando sorri.

E também quando fica corada. Linda!

Pára!

Com o que?

Com isso.

Isso o que?

Me elogiar.

Por que?

Não sei como reagir.

A que?

A elogios.

Sua boba. Gosto de você.

Como? Não entendi.

Fala mais alto e olhe para mim.

Eu também.

Mesmo?

Mesmo.

Vamos tentar?

O que?

Vencer o medo juntos.

Como?

Juntando nossos medos e ver no que dá.

Não sei…

Não sabe?

Não sei..

O que?

Se dá certo.

Pode dar certo.

Mas pode também não dar.

Ah isso lá é.

Então…

Então?

Posso me machucar

Eu também.

Então…

Então? Não quer arriscar?

Arriscar?

Sim!

Dá medo.

É.

Bom tá dando minha hora. Tenho outro paciente.

Tá. Vá andando. Fico de boa.

Mesmo?

Mesmo.

Te vejo então na semana que vem.

Ok.

Pôxa! Se ao menos ela se esforçasse para vencer esse medo. Gosto dela.

Pôxa! Se ao menos conseguisse vencer esse meu medo. Gosto dele.

Inexistente

sangue10O frio congela o sangue,

Que percorre o corpo,

Irriga os órgãos,

Oxigena o cérebro,

Faz tremer as mãos,

secas feito folha no inverno,

gélidas feito meu estado de ânimo,

doloridas feito meu peito,

que ardem com sua falta,

Enrijecem cada vez que miro,

sua foto. nossa foto.

Trazendo lembranças

de um momento que foi,

sem nunca ter existido.