Duelo

olho2

Tá legal! Confesso. Matei.

Tudo começou no domingo a noite quando fui a cozinha pegar uma fruta e mais do que ver, senti sua presença.

Foi um misto de arrepio e intuição. Se assim preferir os mais espiritualistas. Enxerguei-o com minha terceira visão. Pude inclusive sentir seu calor por perto. Fiquei um pouco incomodada mas depois esqueci.

Por algum motivo inconsciente, não dormi direito aquela noite.

Acordei na manhã seguinte péssima e fui trabalhar. Novamente em casa à noite, a mesma sensação e toda vez que ia a cozinha e olhava pela janela que dá para o quintal, lá vinha aquela impressão de alguém estar a espreita, me vigiando. Quase podia ouvir sua respiração.

Pesadelos povoaram meu sono fazendo com que acordasse várias vezes. Fiquei com a garganta seca mas cadê a coragem de me levantar e me dirigir até a cozinha para tomar um copo de água? Sentia-me paralisada. Que desagradável ficar assim!

Não aguentando mais de tanta sede, fui ao banheiro e tomei água da torneira mesmo. Foi justamente enquanto sorvia o sagrado líquido na torneira é que ouvi um barulho.

Todos os meus sentidos ficaram em alerta. Com os olhos parados mirando meu rosto assustado no espelho, fiquei alguns minutos que pareceram uma eternidade, aguardando um próximo ruído.

Que aconteceu. Tinha realmente alguém estranho dentro de casa! E agora? Continuei paralisada. O medo me possuía e nem conseguia raciocinar direito. Tremia, suava, boca seca.

Em segundos passou por minha mente uma filme de terror completo. O psicopata que invadiu minha casa arrombaria a porta que separa o resto da casa dos quartos, sentiria meu cheiro de pavor, arrombaria a porta do banheiro e lá mesmo, me agarraria pelos cabelos e faria comigo o que quisesse. Não teria chance de me safar. Não contente, após se refestelar sexualmente, daria cabo de minha vida pois não iria deixar testemunhas de seu ato insano. Na manhã seguinte, seria manchete em todos os jornais: Quem teria barbarizado Carmen Lúcia, a famosa apresentadora de programa sobre animais? Seria uma comoção nacional!

Retornando de meu delírio, balancei a cabeça num total ato de negação e disse a mim mesma: Carmen, coragem mulher! Você é ainda muito jovem para virar manchete de jornal. Pelo menos nas páginas policiais. Reaja! Pense!

A melhor técnica é o ataque surpresa. Respire fundo, abra a porta silenciosamente e surpreenda o invasor. Não tenha dó. Bata com o que estiver ao alcance. Decido o que fazer, pego a primeira coisa que vejo pela frente e que serve como arma. Nada mais é do que a bengala de quatro apoios de minha irmã. Ótima!

Percorro a sala, vasculho toda ela. Nada. Sigo pelo corredor até chegar à cozinha e é lá que tudo acontece. De imediato nada vejo mas pressinto sua presença. Olho tudo. Nada

Ouço sua respiração tão ofegante quanto a minha. Está nervoso também. Assim como eu. Sinto seu cheiro que é de adrenalina pura. Acho que está prestes a me atacar. Paro. Respiro fundo. Busco canalizar todos os meus sentidos e forças para a batalha. Sei que haverá uma. Nossos corações batem em uníssono. Sei que será matar ou morrer. E é justamente nessa hora que decido me agachar e olhar por debaixo da mesa e dou de cara com ele.

Seus olhos escuros miram os meus de uma forma assustadora! Tenho consciência de que será ele ou eu. Mas…cadê a coragem? Por que ela me abandona justo numa hora dessas?

Percebo que ele também está inquieto. Num momento em que percebo insegurança e medo nele, avanço com a bengala e miro bem seu pescoço. É um golpe certeiro! Váp!

Nunca esperei ouvir um grito como aquele! Confesso que na hora cheguei a amolecer. E seus olhos então? Num último instante de agonia, virou e olhou para mim como que dizendo: Por que? Por que?

Confesso que quase desisti diante daquele grito e olhar. Por segundos pensei: Carmen sua louca, você está cometendo um assassinato mulher! Um assassinato!!!

Mas não tinha mais volta. Num segundo golpe, mandei o infeliz para outro plano e cai ao chão exaurida pela violência da investida. Só ouvia meu coração que batia descompassado e quase saindo pela boca e sentia o cheiro da morte. Pensei: Quero morrer também!

Mas não tinha tempo a perder pois ainda iria para o trabalho. Precisava passar meu café, tomar banho, me arrumar e seguir linda como se nada tivesse acontecido. Juntei coragem e comecei a retirar o corpo inerte. Não podia deixá-lo caído ali. Precisava dar um sumiço nele. Se fizesse direitinho ninguém nem suspeitaria do que havia acontecido lá. Precisaria ser rápida, voltar e ainda limpar toda a sujeira.

Durante a gravação de meu programa, desabei em rede nacional. Todos, plateia, equipe e meu diretor ficaram atônitos com meu estado. Meu diretor se aproximou e perguntou:

– Carmen o que está acontecendo? Estamos no ar!

Consegui frear meu choro, olhei para a câmera e disse:

– Hoje fiz uma coisa horrível em minha casa antes de vir pro estúdio. Tá legal! Matei! Matei! Era ele ou eu! Questão de sobrevivência gente!

Silêncio absoluto. Câmera dando um close em mim. Ibope do programa indo para as raias do céu. Silêncio.

O diretor pergunta:

– Carmen em nome de Deus, quem você matou?

Respondi firme sem tirar os olhos da lente:

– Um rato!

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