A história se repete

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Desde pequeno que ouço uma frase que sempre achei engraçada mas não compreendia. Ouvia principalmente na fala grave de meu avô Romualdo:

– Manda quem pode. Obedece quem tem juízo.

Fui um moleque inquieto, brigão. Irresponsável mesmo. Na adolescência então, colecionei muitas cicatrizes por viver mais em luta do que em paz sentado nos bancos escolares. Não tinha saco pra estudar!

Aos quinze anos, meu pai chamou para um “dedo de prosa” . Isso significava bronca e das boas! Já conhecia meu velho.

Após o jantar chamou-me à sala, mandou minha mãe e minha irmã Adelaide cuidarem da louça na cozinha pois tinha de ter uma conversa séria comigo. Não queria ser interrompido por nada.

Na hora senti um arrepio na base da nuca que subiu e senti meus cabelos se arrepiarem. Ele andou pela sala, ensaiou sentar em sua poltrona, olhou para o relógio cuco, coçou a cabeça, massageou seu vasto bigode, sentou-se.

Um silêncio pesado instalou-se no recinto. Sentia que estava sendo engolido pelos móveis pesados e escuros que ele tanto gostava. Não sei se foi impressão minha ou se aconteceu mesmo mas por um segundo senti que as lâmpadas piscaram e sua luminosidade diminuiu deixando o ambiente mais pesado ainda. Meu pai continuava com os olhos semicerrados e com ar pensativo, sério como há muito não via.

– Fabiano, você em pouco tempo de vida já tem uma lista imensa de desobediência e rebeldia. Sua mãe não aguenta mais falar com você e dar de cara com seu descaramento. Eu não aguento mais ouvir reclamações de todas as partes sobre sua conduta. Você não quer saber de nada. Não liga para os livros e estudo. Quer permanecer na ignorância.

Ah se eu, na minha época, tivesse tido a chance de estudar como você tem. Não teria desperdiçado por nada. Hoje seria um outro homem. Teria uma profissão digna. Não que a minha não seja digna mas, sem dúvida, seria muito melhor.

Tenho tido muitas conversações com Monsenhor Emiliano e ele me aconselhou que você só vai tomar jeito se for para um seminário. Lá você vai aprender as matérias necessárias para sair dessa condição de burro que tem e ainda por cima, ganha de lambuja uma personalidade moldada na cristandade. Vai aprender a ser gente sem que seja na ponta do chicote!

Engoli em seco com tanta informação.

– Pai, eu posso mudar. Prometo estudar mais daqui pra frente.

– Ah! Mas você vai estudar mesmo menino! Lá, no seminário. Só vai retornar quando se tornar um homem de verdade. Pode ir para seu quarto e dormir pois amanhã logo na primeira hora vou te levar para o internato. Já está tudo resolvido e suas malas prontas.

– Pai…

Não precisei de mais nada para confirmar a resolução dele. Bastava lançar aquele olhar congelante que a gente entendia. Com o coração aquecido em brasa de raiva, indignação, tristeza e medo, passei a noite em claro pensando no que me aguardaria.

Interessante justamente agora, toda essa lembrança retornar com força total como se tivesse acontecido hoje! Trinta e quatro anos se passou desde aquela conversa difícil com meu velho. Muita água rolou por debaixo dessa ponte. Foram anos duros, sofri muito mas aprendi aquilo que meu pai chamava de “virar um homem de verdade”. Hoje sou só agradecimentos àquele que espremeu seu coração de pai mandando-me para longe com o intuito de me transformar numa pessoa responsável, honesta. Como ele sonhava, hoje tenho uma profissão que, mesmo ele jamais ter se expressado verbalmente, sei que fui motivo de orgulho nos anos que lhe restaram. Formei-me em Direito. Hoje sou um juiz muito respeitado por todos. O velho nunca se abriu porque não foi educado para ser mais espontâneo. Coitado! Imagino o quanto deve ter tido vontade de sorri para mim, me abraçar forte e dizer:

– Filho! Perdoa esse velho pai! Tudo o que fiz foi pensando no seu bem. Em seu futuro. Não me queira mal por tê-lo afastado do seio familiar. Eu e sua mãe sentimos demais sua ausência nesses anos todos mas valeu cada lágrima escondida que deixamos rolar. Hoje vemos o resultado de nosso sacrifício. Você e sua irmã são nossos maiores tesouros em vida!

Uma lágrima quente teima em rolar pelo meu rosto.

-E aí véio! Quer falar comigo? Pow! Fala logo que ainda vou sair com meus amigos! Ce tá chorando?

Em silêncio, limpo as lágrimas, levanto-me da poltrona, caminho pela biblioteca. Coço a cabeça, mexo em meu bigode. Olho para Lucas, meu filho e digo:

– Filho, esquece seus amigos por hoje porque a conversa será bem longa.

Duelo

olho2

Tá legal! Confesso. Matei.

Tudo começou no domingo a noite quando fui a cozinha pegar uma fruta e mais do que ver, senti sua presença.

Foi um misto de arrepio e intuição. Se assim preferir os mais espiritualistas. Enxerguei-o com minha terceira visão. Pude inclusive sentir seu calor por perto. Fiquei um pouco incomodada mas depois esqueci.

Por algum motivo inconsciente, não dormi direito aquela noite.

Acordei na manhã seguinte péssima e fui trabalhar. Novamente em casa à noite, a mesma sensação e toda vez que ia a cozinha e olhava pela janela que dá para o quintal, lá vinha aquela impressão de alguém estar a espreita, me vigiando. Quase podia ouvir sua respiração.

Pesadelos povoaram meu sono fazendo com que acordasse várias vezes. Fiquei com a garganta seca mas cadê a coragem de me levantar e me dirigir até a cozinha para tomar um copo de água? Sentia-me paralisada. Que desagradável ficar assim!

Não aguentando mais de tanta sede, fui ao banheiro e tomei água da torneira mesmo. Foi justamente enquanto sorvia o sagrado líquido na torneira é que ouvi um barulho.

Todos os meus sentidos ficaram em alerta. Com os olhos parados mirando meu rosto assustado no espelho, fiquei alguns minutos que pareceram uma eternidade, aguardando um próximo ruído.

Que aconteceu. Tinha realmente alguém estranho dentro de casa! E agora? Continuei paralisada. O medo me possuía e nem conseguia raciocinar direito. Tremia, suava, boca seca.

Em segundos passou por minha mente uma filme de terror completo. O psicopata que invadiu minha casa arrombaria a porta que separa o resto da casa dos quartos, sentiria meu cheiro de pavor, arrombaria a porta do banheiro e lá mesmo, me agarraria pelos cabelos e faria comigo o que quisesse. Não teria chance de me safar. Não contente, após se refestelar sexualmente, daria cabo de minha vida pois não iria deixar testemunhas de seu ato insano. Na manhã seguinte, seria manchete em todos os jornais: Quem teria barbarizado Carmen Lúcia, a famosa apresentadora de programa sobre animais? Seria uma comoção nacional!

Retornando de meu delírio, balancei a cabeça num total ato de negação e disse a mim mesma: Carmen, coragem mulher! Você é ainda muito jovem para virar manchete de jornal. Pelo menos nas páginas policiais. Reaja! Pense!

A melhor técnica é o ataque surpresa. Respire fundo, abra a porta silenciosamente e surpreenda o invasor. Não tenha dó. Bata com o que estiver ao alcance. Decido o que fazer, pego a primeira coisa que vejo pela frente e que serve como arma. Nada mais é do que a bengala de quatro apoios de minha irmã. Ótima!

Percorro a sala, vasculho toda ela. Nada. Sigo pelo corredor até chegar à cozinha e é lá que tudo acontece. De imediato nada vejo mas pressinto sua presença. Olho tudo. Nada

Ouço sua respiração tão ofegante quanto a minha. Está nervoso também. Assim como eu. Sinto seu cheiro que é de adrenalina pura. Acho que está prestes a me atacar. Paro. Respiro fundo. Busco canalizar todos os meus sentidos e forças para a batalha. Sei que haverá uma. Nossos corações batem em uníssono. Sei que será matar ou morrer. E é justamente nessa hora que decido me agachar e olhar por debaixo da mesa e dou de cara com ele.

Seus olhos escuros miram os meus de uma forma assustadora! Tenho consciência de que será ele ou eu. Mas…cadê a coragem? Por que ela me abandona justo numa hora dessas?

Percebo que ele também está inquieto. Num momento em que percebo insegurança e medo nele, avanço com a bengala e miro bem seu pescoço. É um golpe certeiro! Váp!

Nunca esperei ouvir um grito como aquele! Confesso que na hora cheguei a amolecer. E seus olhos então? Num último instante de agonia, virou e olhou para mim como que dizendo: Por que? Por que?

Confesso que quase desisti diante daquele grito e olhar. Por segundos pensei: Carmen sua louca, você está cometendo um assassinato mulher! Um assassinato!!!

Mas não tinha mais volta. Num segundo golpe, mandei o infeliz para outro plano e cai ao chão exaurida pela violência da investida. Só ouvia meu coração que batia descompassado e quase saindo pela boca e sentia o cheiro da morte. Pensei: Quero morrer também!

Mas não tinha tempo a perder pois ainda iria para o trabalho. Precisava passar meu café, tomar banho, me arrumar e seguir linda como se nada tivesse acontecido. Juntei coragem e comecei a retirar o corpo inerte. Não podia deixá-lo caído ali. Precisava dar um sumiço nele. Se fizesse direitinho ninguém nem suspeitaria do que havia acontecido lá. Precisaria ser rápida, voltar e ainda limpar toda a sujeira.

Durante a gravação de meu programa, desabei em rede nacional. Todos, plateia, equipe e meu diretor ficaram atônitos com meu estado. Meu diretor se aproximou e perguntou:

– Carmen o que está acontecendo? Estamos no ar!

Consegui frear meu choro, olhei para a câmera e disse:

– Hoje fiz uma coisa horrível em minha casa antes de vir pro estúdio. Tá legal! Matei! Matei! Era ele ou eu! Questão de sobrevivência gente!

Silêncio absoluto. Câmera dando um close em mim. Ibope do programa indo para as raias do céu. Silêncio.

O diretor pergunta:

– Carmen em nome de Deus, quem você matou?

Respondi firme sem tirar os olhos da lente:

– Um rato!

O tesouro que trago na alma

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Outro dia me peguei pensando no que dizer para uma pessoa muito,mas muito amiga mesmo. Queria expressar meu amor,meu carinho, meu respeito por ela. E não é que não saiu nada escrito? Havia pensado em escrever uma bela missiva onde pudesse externar meus mais profundos e sinceros sentimentos por ela. Nada!

Senti as palavras algemadas na mente e engasgadas na garganta. Simplesmente não saía nada! Como podemos ficar tão sem ação e sem palavras diante de alguém tão próximo da gente. Tão íntimo. Quase uma alma gêmea?

Então parei e comecei a pensar no dia em que nos aproximamos um do outro. Éramos tão diferentes que jamais pensei que pudesse vingar uma amizade. Nossos primeiros encontros. Um pisando em ovos com o outro.

Pensando nas palavras para se falar. Todo aquele cuidado de quando não conhecemos ainda o terreno em que pisamos. Pouco a pouco fomos nos soltando e a amizade foi se consolidando. Ao término da faculdade, imaginei que cada um seguiria seu  caminho e com o tempo perderíamos contato. O que é bem comum de se acontecer. Mas conosco aconteceu o contrário. Firmamos um acordo tácito de nos encontrarmos toda semana para um jantar ou um café. E assim fizemos por anos a fio.

Um verdadeiro ritual! Cancelava todo e qualquer compromisso só para poder encontrar meu amigo querido. Algumas pessoas até questionavam se o que sentia por ele era só amizade mesmo ou algo mais. No que prontamente respondia: É amizade e um algo a mais. Mas não o que vocês imaginam. Não é algo sexual, carnal. Não! Vai muito além. O prazer em estar na sua companhia é algo difícil de traduzir em palavras.

E nesses anos de amizade infinda, fizemos de um tudo juntos! Ou quase tudo. Jantamos fora inúmeras vezes, tomamos cafés ininterruptas noites, e viajamos juntos dividindo cama e tudo. Sempre com a eterna e calorosa camaradagem que bem poucas vezes vi ou tive com mais alguém.

Fingimos ser um casal em lua de mel numa das viagens por puro comodismo. Acharam que éramos esse tal casal e nos colocaram num quarto maravilhoso com banheira hidromassagem e tudo! Uma cama enorme, divina de gostosa. Mudar pra quê?

Até hoje recebo correspondência em casa em nome do casal afinal, até mesmo nossos sobrenomes são parecidos. Vê só quanta identificação?

O meu carinho foi ampliando com o tempo e passou do pessoal para o profissional. Pois vi ano após ano, seu crescimento, seu amadurecimento e hoje, é um homem com H maiúsculo que não deixa dúvidas para ninguém sobre sua capacidade profissional. Dá o maior orgulho te ver sendo elogiado por todos. Sinto-me privilegiada em contar com seu carinho, amor, respeito, amizade incondicional. Afinal, não é todo mundo que tem essa chance na vida em ter um amigo no real sentido da palavra. E nós dois sabemos que amizade a cada  dia que passa se torna artigo de luxo, quase uma relíquia. Num mundo em que tudo se torna fast, até mesmo as relações, poder contar com sua amizade é precioso demais!

Amigo, adoro nossos encontros, nossos papos que nunca findam, nossos projetos de vida, nossos desabafos. Como é bom poder olhar para seus olhos blues e se perder na sua bondade, na sua energia sempre positiva.

Sabe, tenho você bem aqui, no centro de meu coração num local eternamente aquecido e iluminado. Não porque essa luz emana de mim. Muito pelo contrário.  É sua luz que sempre se irradia, aquece e mostra o caminho para mim. Quantas vezes você calmamente me ouviu desfiar meus tormentos, meus amores, desamores, minhas desconfianças, dissabores da alma. Talvez eu não tivesse a paciência que sempre teve comigo. Sua brandura sempre amornando a fervura que tomava conta de minha alma nos momentos de grande tormenta. O seu abraço sempre sincero, forte a amparar essa, que a cada pouco tem as pernas bambas pela insegurança da vida.

Hoje, por conta de inúmeros compromissos seus, não temos nos encontrado. Sinto sua falta em minhas semanas. Parece que falta algo e realmente falta. Você!

Por outro lado tenho plena consciência que você deve seguir seu caminho, conquistar seu espaço nesse mundo, buscar novas fronteiras. Acredita que houve época em que sentia ciúmes de você com outras amigas suas? Pois é, mas hoje, já amadurecida, sinto até uma certa alegria em saber que você distribui sua atenção para outras pessoas. Pouco a pouco e também com a ajuda da psicanálise, estou aprendendo a desapegar de tudo. Inclusive trabalho o desapego nas relações. Hoje não sofro mais com a ausência daqueles que amo pois sei que continuam a me amar e que a distância não encurta tais sentimentos. Eles estão lá, firmes, fortes, enraizados. Ela é apenas um estado, um momento, um recorte em nossas realidades.

Amigo, sabe há quanto tempo desejo falar tudo isso e muito mais a você e nunca consegui?  Anos! Talvez você em sua simplicidade de alma ache bobagem eu tentar expressar algo que sabemos existir. Mas acredite, eu precisava e muito botar tudo isso pra fora. Canalizar e sacramentar por palavras tudo isso que me vai a alma.

Acredite meu menino/homem/alma/amigo, somos centelhas de vida antigas e já eternizamos essa amizade de longa data em antigas civilizações. Talvez tenhamos nos encontrado lá em Capela ou quem sabe em outra constelação no universo e de lá pra cá, fomos engavetando sonhos, realidades, tristezas. Criamos nossas colchas de retalhos de tantas vivências juntos e transformamos essa nossa velha amizade em ouro puro e tenho certeza que mesmo eu um dia partindo antes de você ou vice-versa, manteremos esse laço indissolúvel entre nós. Te amo!

Cavalos-marinhos (lembrei-me de você)

Subindo a avenida Rebouças pela manhã, cercada por carros e pessoas, uma sombra desceu sobre mim. Feito chuva ácida, sua lembrança um pouco desbotada entrou feito flecha no coração. Acertou no alvo abrindo uma ferida que já se encontrava cicatrizada.

Sangrou.

Por mais que tentasse prestar atenção no trânsito e nas mudanças da marcha do  carro, me desconcentrei por completo. E para piorar ainda mais, no rádio começou a tocar a música Vento no litoral do Legião Urbana.

Covardia.

“Agora está tão longe
Ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora

Além de aqui dentro de mim…”

As comportas se rompem, meus olhos transbordam. Não enxergo mais nada a minha frente a não ser sua imagem. Que continua desbotada.

“Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano
Era ficarmos bem…”

Tenho de parar o carro antes que cause um acidente. Busco o acostamento, não encontro. O trânsito às 7h45  é uma loucura. Entro na Frei Caneca e estaciono meio que às cegas ao lado da construção do metrô.

Choro como há muito não chorava. Deixo as lágrimas percorrerem meus rosto livremente. Não as impeço.

Engraçado…acredito que chorei mais até do que quando partiu. Lembro que na época me fiz de durona. Banquei a forte. Chorei depois, escondida.

Mas hoje, dei total vazão a dor, a saudade.

Vou chegar atrasada no serviço. Não importa. Que descontem no meu holerite.

“Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Humrun
Cavalos-marinhos…”

Choro mais ao ouvir esse trecho da música e lembrar que você também me mostrou cavalos-marinhos e disse que achava-os lindos!

Ai Deus! Não aguento mais ouvir essa canção. Dói demais as suas lembranças. Já faz tanto tempo que se foi.

Nunca admiti nem para mim mesma mas sinto tanto sua falta. De nossas conversas, de seu carinho, de sua proteção.

A música acabou e levou minha dor embora. Uma nova canção iniciou.

Enxugo minhas lágrimas. O turbilhão cessou.

Olho pelo retrovisor, engato a marcha e sigo para a realidade que me chama. Meus pensamentos seguem aleatórios até que me dou conta da data de hoje.

É seu aniversário pai.

aniversario da laine

Só de meias

barbarella

Sua vida tinha sido errada desde o início. A começar por seu nascimento. Sua mãe, uma hippie fora de órbita, tinha verdadeira adoração por cinema americano e fã ardorosa de Jane Fonda e sua personagem preferida, Barbarella. Por conta desse gosto duvidoso seu nome de batismo foi Barbarella Brilho Intenso Locano.

Pobre menina! Destinada desde o nascimento a ser motivo de inúmeras gozações. Dentro da própria família onde o bullying se estendeu para sua vida escolar.  Já imaginou o mico?

Na escola, recebeu os mais variados apelidos: Barba de Cadela, Barba Rala, e outros que é melhor esquecer.

De tanto incentivo para se tornar uma mulher sedutora, selvagem, animalesca mesmo, enfim, uma potranca como a personagem, a menina hoje já passou por sete colégios devido a sua conduta. Isso só no ensino fundamental II. Desde que começou a se desenvolver, Barbarella apresentou uma  erotização precoce. As professoras ficavam de cabelo em pé diante do que a menina falava e fazia em classe. Nas aulas de biblioteca então, tornou-se a atração principal para os meninos que se divertiam ao mesmo tempo em que se excitavam sem entender o que se passava de fato.

Por mais que as orientadoras pedagógicas chamassem Leonor, sua mãe, para uma conversa, esta nunca comparecia. De acordo com sua opinião, essas reuniões eram estafantes, desinteressantes e não levavam a nada. Era contra qualquer tipo de represália.

Hoje, Barbie, como é conhecida entre os colegas, ficou numa saia justa. Foi pega num box de banheiro feminino de seu colégio em horário de aula. Acompanhada de um rapaz do ensino médio, apenas vestida de seu par de meias 3/4 branca. O jovem, se borrando de medo de ser expulso pois está por um triz, simulou um mal estar e disse que ela entrou junto dele para dar uma força. A orientadora, contendo um riso com muito esforço, perguntou ao casal:

– Mas você passou mal e entrou num banheiro feminino? E o que ela fazia praticamente nua para te ajudar? Posso saber?

Um silêncio pesado pairou na sala. O rapaz, num último movimento para se safar, jogou-se ao chão e começou a se contorcer de dor.

Barbie num ato solidário para com seu colega, abaixou-se passou a mão na cabeça do jovem sofredor, depositou um beijo inocente em sua testa, e se levantou. Fazendo um ar de puritanismo mesclado com expressão pin-up fez biquinho de Bardot  e respondeu:

– Dona Isadora eu explico: o Juan é alérgico a muitas coisas. É sério! Ele sem querer comeu um sanduíche que tinha queijo e passou mal. Por isso suas cólicas. Tadinho olha como ele se contorce!

– Barbarella, seu tempo assim como minha paciência estão se esgotando. Ainda não vejo motivo para você estar ao lado dele só de meias. Explique melhor.

– Calma teacher! Não se exaspere que isso faz mal para o fígado.  Já chego lá. Então, como  falava, ele não é só alérgico a lactose. Tem muitas outras substâncias que fazem mal a seu organismo e um deles é perfume de amaciante. Como vi que ele estava tendo uma crise ao meu lado, decidi tirar toda a roupa que estava impregnada de amaciante e fiquei só de meias que não foram lavadas. Tenho usado ela já há uma semana. Se duvida pode cheirar mas, se fosse a senhora, não faria isso. Questão de saúde pública.

Com a cabeça fervendo em ver a cara de pau da garota e ao mesmo tempo se impressionando com tamanha criatividade e sangue frio, Isadora fez questão de fazer mais uma última pergunta antes de dar cartão vermelho aos dois.

– Perfeito Barbie. Perfeito! Agora só me esclarece mais uma coisa que ainda está nebulosa em minha cabeça: se ele passava mal, por que o banheiro feminino e não o masculino? Responde!

Novamente Barbie fez carinha de Von Tease, piscou algumas vezes expressando uma obviedade e respondeu fazendo biquinho Bardot:

– Oh é isso! Posso explicar também. Foi culpa exclusivamente minha e não do Juan. Tenho um sério desvio. Não consigo de imediato saber qual o lado direito e qual o lado esquerdo.  Já me confundi diversas vezes. E nessa correria de socorrer o colega, mais uma vez me enganei e entrei no banheiro feminino. Por desvio e por costume. Desculpe teacher!!!

Interior conturbado

Calou-se. E nessa mudez que tomou conta de si, seguiu em frente envolvida por gente que não parava de falar. 

E nesse autoexílio, constatou o quanto o ser humano é barulhento e desnecessário. Conscientizou-se do quanto o silêncio é benéfico, salutar.

Tem  seu valor. Através dele, conseguiu ficar cara a cara com sua dor. E nesse tête-à-tête, compreendeu que ela teve sua razão de existir. 

Fez uma viagem a seu interior e lá chegando, uma cacofonia infinda. Tapou os ouvidos, fechou os olhos numa vã tentativa de não escutar. 

Tudo em vão. Dentro de si, um turbilhão de vozes gritavam sem parar. Não aguentou.

Voltou para o mundo exterior, colocou seu fone de ouvido, sintonizou uma música e saiu para a vida