Ainda em construção

ESPELHO

“Quem é você?”

Saindo da sessão de psicanálise, Catarina subiu a rua até o metrô matutando essa questão. Seu analista fez essa pergunta e deseja resposta dela na próxima sessão.

– Fudeu geral! – pensa a abitolada Catarina! Se tivesse essa resposta não estaria pagando uma fortuna nessa porra de terapia!

Já deu pra perceber a finesse da garota não?

Dona Calú, mãe de Catarina não sabe mais o que fazer para melhorar o comportamento da filha. Já transferiu a garota para mais de três colégios incluindo um religioso, de freiras onde após sete meses, foi expulsa e excomungada pelas irmãs.

– Onde foi que erramos Saulo! – Pergunta sempre em prantos, a mãe zelosa que sempre se dedicou a dar a melhor educação a sua “princesinha”.

Sempre com o olhar perdido no nada, seu Saulo também não tem resposta e se sente completamente paralisado diante da conduta digamos…esquisita da única filha. Se por um lado dá vivas internamente quando Cat assiste junto dele os jogos do Corinthians e vibra animadamente feito um gavião autêntico, por outro se lamenta ao ver os olhares tortos de desaprovação do resto da família e amigos. No fundo, no fundo, ela é o garoto que ele sempre sonhou em ter.

Mas Deus quis que viesse uma única menina…

Chegando em casa, Cat vai direto pro quarto ignorando as perguntas apreensivas de dona . Calú. Passa a tranca na porta. Deseja paz. Se é que é possível isso naquela casa. Catarina ama seus pais mas não suporta a atitude sufocante de sua mãe. “Ela sim é que precisava fazer terapia e não eu!” pensa tirando seu tênis do pé, jogando longe sua camiseta e calça jeans surrada e caindo na cama pensativa.

“Quem é você?” – A pergunta martelando feito goteira na calha e ressoando fundo em seu íntimo. Seus olhos, geralmente ávidos e espertos mostram-se vítreos e lágrimas se formam querendo transbordar. Num movimento rápido, Catarina passa suas mãos limpando aquele momento de fragilidade emocional. Levanta-se e olha para sua imagem no espelho. Fica estática por um tempo. Era como se ali, tentasse penetrar aquele universo escuro de sua alma.

– Droga! Não sei quem sou! E porque deveria de saber? Por que é tão importante rotular, enquadrar, classificar? Por que não me aceitam como sou? Se fosse para ser todos iguais, bastaria nascer apenas um no planeta. Que merda de vida! Só se apegam a coisas bobas tipo…eu gostar de olhar meninas! Qual o problema? São lindas mesmo! E o que é bonito é pra se olhar, admirar…desejar. Minha mãe e os demais adultos são incapazes de reconhecer em mim qualidades. Só tiro nota alta na escola, sou excelente atleta e já conquistei várias medalhas em olimpíadas escolares, sou ágil com números e faço contas de cabeça. Consigo montar e desmontar equipamentos e domino como poucos programas de computador. Ah! Minha mãe nem reconhece meu talento para consertar aparelhos eletroeletrônicos aqui em casa. Já tirei ela de cada sufoco! Nem meu pai é tão bom nisso quanto eu!

Meu pai…é um cara bacana, sei que me entende e me aceita como sou. Mas é um covarde, um banana dominado pelas ideias e vontades de minha mãe.

Detesto gente fraca, gente que se esconde, gente que não opina sobre as coisas.

Feito meu pai.

Pôxa! Um cara tão legal que o dia a dia foi apagando lentamente e hoje, é apenas uma sombra do que já foi quando jovem.

Não quero ser como nenhum dos dois!

Olhando-se ainda no espelho, Catarina se ilumina e diz a si mesma:

Na próxima sessão, quando meu analista perguntar quem eu sou já sei qual resposta vou dar:

“Doutor, sou um ser humano ainda em construção!”

Anúncios

Um comentário sobre “Ainda em construção

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s