Beija-Flor: uma fábula sobre um grande homem

beijaflor

“A massa que se move rumo a um novo tempo!” 

“Mundança já””

“Chega de arruaça em nosso país!”

Toda movimentação espalhada pelas principais ruas da cidade tiraram Beija-Flor de seu mundinho tão particular. Há anos vivendo na rua, desenvolveu um sistema de autodefesa se embrenhando num mundo psíquico. Habilidoso, sabe desenhar como poucos. Sempre que tem oportunidade, pega papel e lápis ou o que tiver a mão e, em pouco tempo inicia lindos traçados que se transformam em desenhos mecânicos de peças de maquinário. Ricos em detalhes, demonstra que o sem-teto tem um passado rico em aprendizado e talento. Suas mãos, hábeis, alongadas mais parecem mãos de pianista do que de um morador de rua.

Educado, não se mete com ninguém e sempre agradece de forma educada e até polida aos mimos e doações que recebe das pessoas que o adotaram naquela rua.

Não gosta de companhias. Sempre arredio com outros companheiros de rua. Não bebe, não fuma, não cheira. Só parece meditar. E isso ele faz com maestria por horas a fio. É de causar inveja ao mais experiente monge tibetano.

Seu local onde passa mais tempo está sempre limpo. De uma assepsia hospitalar. As vezes canta, assobia, faz mímica e ri de algo que não nos é permitido ver. Em seu mundo interno deve haver muita alegria pois seus olhos embaçados para a realidade, estão sempre com uma luz diferenciada quando se volta para dentro de si. E sorri!! Um sorriso com a pureza das crianças que, aliás, amam esse personagem.

Em dia de feira no bairro, vários meninos que por ali moram disputam para ver quem compra um pastel de carne primeiro para dar ao Beija-Flor. E ele, sempre sorrindo, agradece. É só do que ele gosta. Já tentaram inúmeras vezes oferecer kibe, coxinha, risolis, tortas mas não. Ele sempre diz: só como pastel. E de carne.

Outra peculiaridade: vive fazendo origamis com qualquer pedaço de papel que lhe cai nas mãos. E sempre os oferta a alguém. São perfeitos!

Os moradores do bairro vivem comentando e se perguntando: quem é de fato esse Beija-Flor! Ninguém sabe sua origem, seu passado, se tem família. É uma curiosidade só. Mas toda vez que o abordam com tais perguntas ele simplesmente sorri e fica quieto. As vezes balança a cabeça, fecha os olhos ou responde secamente Beija-Flor! E sai cantarolando deixando as pessoas sem reação.

Outro dia, pela manhã, vi um carro luxuoso estacionar ao lado de onde Beija-Flor se encontrava sentado fazendo um origami. A pessoa saiu do carro, conversaram um pouco e logo a seguir, a pessoa balançando a cabeça, retornou para dentro do carro e saiu. Curiosidade!!!

Meses após esse episódio, um vizinho ficou sabendo que é um parente, talvez um irmão que vive atrás de Beija-Flor tentando de todas as formas trazê-lo para o seio do lar. Ele é um príncipe de verdade! Vem de uma família muito rica e tradicional. Por isso sua educação, fineza, aristocracia natural que o destoa tanto de quem vive nas ruas. O que o levou a optar por essa vida livre, solta, descompromissada com a sociedade mas difícil, ingrata, sofrida muitas vezes? Ninguém nunca vai saber a não ser os familiares e ele próprio. Enquanto isso os anos passam para todos daquela rua…

“A massa que se move rumo a um novo tempo!” 

“Mundança já””

“Chega de arruaça em nosso país!”

Diante de tamanha comoção coletiva, Beija-Flor se extasia. De repente some por entre a multidão. Cartazes, banners, bandeiras circulam por toda a avenida como num grande desfile de carnaval. É festa!

Eis que aos poucos as pessoas vão abrindo caminho para um rei passar. Pessoas gesticulam, se olham e e todos perguntam: Quem é esse?

E passando num caminhar leve, quase levitando, balançando suas vestes rotas mas aristocráticas, equilibrando uma coroa feita em jornal e ostentando uma bengala feita de pau de vassoura, eis que olhando toda gleba sorri e responde: Beija-Flor a seu dispor!

Sorrindo com olhos embargados num sonho que só ele presencia, atravessa toda a avenida fazendo mesuras aos seus súditos que embasbacados, param a cantoria por alguns minutos e abaixam suas cabeças num significado geral de reconhecimento de sua realeza. Ele é o verdadeiro representante de um povo sofrido mas que soube manter a alegria de viver. Seu rosto, inteiro coberto por uma pintura que representa a bandeira nacional se alarga numa Ordem e Progresso cada vez que abre seu sorriso banguela para todos. Do nada, vai materializando um botão de rosa branca e oferta a cada um que se aproxima dele.

Isso já aconteceu há um certo tempo. Hoje, Beija-Flor é um homem quase normal. Foi empregado por um laboratório de análises clínicas que se encantou com tal figura. Ofereceram a ele emprego e moradia no próprio laboratório. Beija-Flor trabalha no estacionamento e em pouco tempo ganhou notoriedade e respeito pela delicadeza com todos que ali frequentam.

Toda vez que passo pela minha antiga rua e olho o local onde ele ficava me dá uma saudade!!! Mas também, toda vez que passo em frente ao laboratório onde trabalha e me vê, abre sempre aquele sorrisão e me cumprimenta: a senhorita está bem?

Essa é uma pequena fábula sobre um homem que, por algum motivo, desceu ao seu próprio inferno, purgou e retornou à superfície conquistando sua dignidade.

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2 comentários sobre “Beija-Flor: uma fábula sobre um grande homem

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