O errado sou eu?

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Venho de uma geração que não vê motivação alguma para se fazer algo. Minha mãe vive me dizendo que sou um fracasso. Não estudo o suficiente, não a ajudo nos deveres de casa, não arrumo nem mesmo meu quarto, não faço amigos, não namoro. Diz que sou uma nulidade!

Meu pai engrossa o cordão dos que se sentem frustrados comigo. Por não torcer pro mesmo time dele, por nem gostar de futebol e sim de esportes mais “delicados” como costuma dizer. Pôxa! Só porque gosto de natação, esqui aquático, ginástica rítmica ele acha que sou viado!
Vive implicando também com meus gostos musicais: ele é roqueiro da turma das antigas. Curte demais o velho rock’n’roll como os dinossauros Beatles, Rollings Stones, Jeff Back, Led Zepellin e Cia. Eu, por meu lado, já curto mais o som de Greenday, Pearl Jam, Alice in Chain, Nirvana. Ele diz que esses moleques são muito deprês e que eu devia ouvir coisa melhor. Eu, sempre rebato que cada um, cada um, mas ele não me ouve. Acha que só seu gosto musical é bom e que todo o resto é lixo. Nem me dou ao luxo de replicar. Dá uma preguiça!

E falando em preguiça, essa é uma palavra que mais ouço quando estou na sua casa. Se ainda não falei pra vocês, falo agora: sou cria de uma família desfeita. Coisa mais comum na minha geração. No início da separação deles até que senti bastante, mas aos poucos fui me adaptando afinal, era melhor ter duas casas para ficar do que aguentar os velhos brigando e implicando um com o outro o tempo integral. Era um saco! Esqueciam que sempre estava presente e falavam cada coisa um para o outro! Melhor nem lembrar!

Hoje acho legal ter duas casas, pois tenho dois quartos totalmente equipados para mim e assim, fico sempre de boa. Aliás, é justamente esse “ficar de boa” é que tem incomodado meus pais. Mas o que posso fazer se a vida inteira Eles me criaram assim? E agora vem com essa cobrança sem graça!
Minha mãe vive dizendo pra mim que sou muito apático, sem iniciativa, que estou sempre cansado para tudo. O pior é que ela tem certa razão!
A vida em si é um cansaço só para mim. Não sei explicar mas não consigo achar graça nas coisas que a maioria acha. Prefiro ficar na minha, sozinho, de boa.

Meu pai vive me dizendo que já está na hora de pensar no futuro. E eu penso comigo: Futuro? Que futuro?
Sou tudo isso, mas uma coisa tem de bom. Pelo menos acho isso bom. Ou talvez nem seja tão bom. Sei lá.
Mas sou um cara muito antenado com o mundo através da telinha da net. Leio de um tudo. Notícias, resenhas de filmes, artigos sobre economia, conflitos, política…

E aí pergunto: do jeito que o mundo caminha com tantas guerras, desemprego, corrupção, dá pra se imaginar um futuro promissor? Acho que não. Pra mim nem vale a pena tentar. É pura perda de tempo e energia. Pra que se matar de estudar, fazer faculdade, batalhar por um emprego merreca com um salário de merda, acordar cedo todo dia, aguentar chefe medíocre e colegas idem? Pra que me matar para provar que sou melhor que os outros quando na realidade, estou no mesmo barco furado que toda a raça humana está?

Outro dia, na casa de meu tio Zeca, fuçando sua discografia descobri um grupo que já tinha ouvido falar, mas nunca tinha prestado atenção. Botei o bolachão pra rodar e comecei a ouvir o som. Primeiro o que me chamou a atenção e gostei, foi o instrumental. Forte, raivoso, irado! Bateria, guitarras, baixo. Mó som! Depois, aos poucos fui prestando atenção na letra da música e aí…Cara! parei! Fiquei ouvindo até o fim do disco e paralisei! As letras das músicas tem tudo a ver com meu estado de espírito!
A canção do senhor da guerra, Pais e filhos, Teatro dos vampiros, Que país é esse?, Geração Coca-Cola,…Cara, me identifiquei total!

Agora, ouvindo essas mesmas músicas e relembrando minha vida numa fita cinematográfica mental, reavalio o que fui na infância, na adolescência e agora, já maior de idade, assumo as rédeas de minha vida e sigo rumo ao meu destino. Se vai dar certo? Não tenho respostas. Vou quebrar a cara e ser mais um desempregado na Europa? Grandes possibilidades. Vou conhecer meu grande amor por lá? Não é má ideia. Voltarei pedindo arrego para meus pais? Qual o problema afinal, eles são minha referência de vida, meu porto seguro e sei que se precisar, é só chamar.

Agora me dão licença que o avião vai partir!

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5 comentários sobre “O errado sou eu?

  1. E isso é tão comum e os pais nem se dão conta… Sei bem o que é isso. Ainda bem que cada um é cada um. Resta lidar com os traumas de infância pelo resto da vida.
    Perfeito, Roseli!!!

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