Cozinha: laboratório de lembranças e magia

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Cozinhar…Desde a mais remota lembrança trago a imagem da cozinha entre minhas lembranças mais gostosas. Lembro com nitidez de minha avó materna feliz da vida entre panelas, tigelas, inúmeros potes de temperos transformando pouco a pouco alimentos crus em iguarias de dar água na boca. E a alegria dela entre um fazer e outro! Era contagiante! Lembro-me bem de sua voz cantando ou assoviando uma de suas canções prediletas. E eu, sempre atenta e já me deixando seduzir pela arte de cozinhar. Achava a cozinha um lugar mágico! Achava minha avó uma verdadeira bruxa, no melhor sentido da palavra. Sempre de avental, seu uniforme de vida, com uma colher de pau numa das mãos e as panelas a cozer diversas coisas no fogão: cozidos de legumes, doces de abóbora, banana, preparando o feijão sempre tão cheiroso!

Mas na realidade, quem me ensinou a fazer o primeiro arroz na vida não foi minha avó muito menos minha mãe. Foi uma vizinha muito querida que me iniciou na arte de fazer o trivial.

Dona Renê! Puxa que saudades dessa bela senhora!
Foi cuidando do seu filho Alexandre que tive o prazer da sua companhia e das primeiras aulas de como se preparar uma boa e deliciosa comida. E aos poucos fui me interessando mais e mais pela arte de se cozinhar. Agora uma das lições que aprendi e que assimilei profundamente: Cozinhar não é apenas juntar os alimentos numa panela, botar sal, temperos e pronto. Nãoo!!! Isso chega a ser uma heresia!
Cozinhar além de ser uma arte, é também o aprendizado de todos os temperos e alimentos, suas funções alimentícias e medicinais. Mas acima de tudo cozinhar é uma entrega da alma. É doar-se por completo no momento em que se estabelece essa conexão com os alimentos.
Por isso a comida desanda se você está com raiva, triste ou com mágoas no peito. Experimenta cozinhar com a alma leve, ouvindo música, cantando junto ou simplesmente conversando com alguém que ama e verá que sua receita sairá um espetáculo!
Sou chata quando abro a geladeira e encontro verduras e legumes passados e machucados. Sou exigente com relação a sua qualidade justamente por dar valor, não só proteico,mas valor de vida à eles. Infelizmente a vida moderna não nos deixa com tempo suficiente para se dedicar com mais afinco às gostosuras. Portanto, só tenho os finais de semana para ficar mais tempo nesse laboratório e me dedicar as experiências gastronômicas.
Também não é tudo que posso fazer pois nem todos gostam dos mesmos pratos que eu. Nem todos se permitiram aguçar seu paladar e a arriscar temperos e gostos exóticos e diferenciados daquilo ao qual fomos acostumados. Paciência!

Quando chego à cozinha, coloco meu avental e decido qual prato fazer, é como se uma entidade se apossasse de mim. Torno-me outra pessoa. Adentro um outro universo. Sinto-me poderosa! E de posse de minhas armas de batalha, corto, desfio, raspo, bato e transformo algo   sem vida em preciosos tesouros gastronômicos. Saio sempre vencedora e depois recolho os louros pela bela atuação. Não tem preço!
Sei que muitas mulheres ditas “moderninhas” acharão esse meu texto um monte de bobagens ultrapassadas mas,rebato dizendo: Meninas, aprendam primeiro a cozinhar, sintam-se poderosas e donas de uma ciência que poucos têm. Isso não fará de vocês em absoluto pessoas menores e sem prestígios diante da sociedade. Muito pelo contrário. Isso significa pontos na sua formação. Verá que cozinhar não é um ato que diminui e te torna apenas mais uma mulherzinha do lar. Significa que você é uma deusa poderosa e detém poderes que outros não conseguem ter. É magia mesmo! Da mais pura, antiga e poderosa magia do universo. Transformar simples alimentos crus em iguarias de fazer estalar a boca de prazer!

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6 comentários sobre “Cozinha: laboratório de lembranças e magia

  1. Bom dia Roseli!
    Obrigada por me mostrar o texto, adorei… e inclusive me fez pensar por que nunca escrevi um texto sobre a arte de cozinhar. Não escrevi nada além de uma frase, enquanto assistia ao filme A Festa de Babette. Vou ver se a inspiração surge 😉

    Um beijo

  2. Roseli, sabe que eu nunca pensei nisso? Cozinhar é uma espécie de bruxaria sim, aquela coisa da transmutação que a gente ouvia nas histórias infantis! Gostei disso, quem sabe com muita prática, eu não viro um aprendiz de feiticeiro. Ou feiticeira? Texto delicioso (sem trocadilho, juro).

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