Ânsia de viver – Capítulo I

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O eco da louça sendo lavada, o aroma de café, o ruído das inúmeras vozes conversando e, por fim, a iluminação a meia luz. Era disso que ele gostava! Toda vez que retornava àquele lugar, sentia que regressava ao lar. Pena que agora, com essa lei antifumo,o local tenha perdido um pouco de seu antigo charme. Era nesse ambiente que ele gostava de escrever suas histórias. Entre um gole do forte expresso e uma profunda tragada em seu cigarro, muitas ideias surgiam e histórias iam, pouco a pouco, tomando forma.
Como agora.
Só que sem sua tão querida fumaça a lhe envolver o ar que respirava e que mansamente penetrava pelas vias respiratórias indo de encontro ao cérebro. Oh maravilha de sensação!
Mas, agora era proibido.
Agora era politicamente incorreto.O que antes era visto como algo charmoso, viril, agora era tido como algo feio, agressivo.
Uma questão de saúde pública. Uma questão de sua saúde estar debilitada. Há um ano, o escritor lutava contra um câncer. Há um ano estava longe de sua companheira de uma vida inteira.
Agarrava-se a sua escrita como quem se agarra ao último pedaço de madeira em alto mar.
Era sua tábua de salvação.
Escrevia desesperadamente, desordenadamente. Sua mente nunca havia trabalhado tanto. Seus dedos, frenéticos, escreviam sem parar como extensão de sua mente e alma.
Tinha pressa.
Sua saúde se agravava. O escritor envelhecia.
Morria lentamente.

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8 comentários sobre “Ânsia de viver – Capítulo I

  1. Que surpresa esse novo blogue! 🙂
    Correr atrás das letras como quem foge da morte!
    E pensar que podemos morrer antes do escritor. Sabe lá amanhã o que vai acontecer! Horrível pensar isso, mas é a realidade!
    Parabéns por mais esse espaço!
    Beijus,

  2. Parabéns pelo blog… incrível, para mim, no texto é a transformação da realidade em nossa volta e como ela pode nos fazer perder o chão… As vezes imagina-se o surreal como algo abstrato e louco mas no prosaico, debaixo das camadas reside uma complexidade de sentimentos e necessidades onde vemos realmente a precariedade do que chamamos “realidade”.

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