Ânsia de viver – Capítulo I

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O eco da louça sendo lavada, o aroma de café, o ruído das inúmeras vozes conversando e, por fim, a iluminação a meia luz. Era disso que ele gostava! Toda vez que retornava àquele lugar, sentia que regressava ao lar. Pena que agora, com essa lei antifumo,o local tenha perdido um pouco de seu antigo charme. Era nesse ambiente que ele gostava de escrever suas histórias. Entre um gole do forte expresso e uma profunda tragada em seu cigarro, muitas ideias surgiam e histórias iam, pouco a pouco, tomando forma.
Como agora.
Só que sem sua tão querida fumaça a lhe envolver o ar que respirava e que mansamente penetrava pelas vias respiratórias indo de encontro ao cérebro. Oh maravilha de sensação!
Mas, agora era proibido.
Agora era politicamente incorreto.O que antes era visto como algo charmoso, viril, agora era tido como algo feio, agressivo.
Uma questão de saúde pública. Uma questão de sua saúde estar debilitada. Há um ano, o escritor lutava contra um câncer. Há um ano estava longe de sua companheira de uma vida inteira.
Agarrava-se a sua escrita como quem se agarra ao último pedaço de madeira em alto mar.
Era sua tábua de salvação.
Escrevia desesperadamente, desordenadamente. Sua mente nunca havia trabalhado tanto. Seus dedos, frenéticos, escreviam sem parar como extensão de sua mente e alma.
Tinha pressa.
Sua saúde se agravava. O escritor envelhecia.
Morria lentamente.

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