Capítulo IV – O cruzar dos olhares


Fisgada por aquele intenso olhar, ela voltou-se como magnetizada e de imediato, reconheceu o “homem da biblioteca”. Ela agora o denominava assim.
“Mas que cidade pequena” pensou consigo – afinal, tantos lugares e tinham logo que se esbarrar ali, no cinema. Olhando mais atentamente, reparou que ele era um homem muito charmoso. “Droga! Realmente ele mexe comigo! Devo estar muito carente mesmo”
Bastou esse pensamento para que voltasse no tempo e começasse a relembrar seus relacionamentos anteriores. Não que tivesse tido uma vida amorosa repleta de parceiros e emoções. Pelo contrário, talvez devido a sua timidez, desde a adolescência evitava aparecer. Não gostava de chamar a atenção para si. Gostava de ficar invisível e só observar as pessoas. Mas a paixão fez parte de sua vida por várias vezes. No entanto, da mesma forma que vinha, ia embora. Sem deixar saudades. Sempre apostou muito mais em sua vida profissional e intelectual. Talvez até mesmo como forma de proteção. Já havia feito terapia por uns tempos para ver se entendia o que ocorria com ela e, também já havia largado tudo e buscado respostas de outras formas.
Depois do último relacionamento – que tinha terminado há seis meses – não se envolveu com mais ninguém. Não foi uma decisão tomada de forma consciente mas, nesse meio tempo não havia conhecido ninguém que despertasse sua atenção. Nem pela beleza física, muito menos pela beleza interior e inteligência. Aliás, isso era um fator definitivo para cativá-la: inteligência. E isso era artigo raro nos dias atuais. Isso ela vinha constatando dia a dia. As pessoas andam “rasas”, sem conteúdo, supérfluas demais. E isso, definitivamente não tolerava. Se fosse para agüentar alguém desse tipo, preferia ficar sozinha. E tinha com ela que sua companhia era agradável e suficiente Se bastava. Só mesmo naqueles momentos em que o fisiológico falava mais alto e seu corpo gritava por algo mais animal. Normal – pensava – mas para essas horas, basta dar uns telefonemas e o assunto se resolve rapidinho.
Lembrou-se de Aurélio. Amigo de longa data que sempre nutriu por ela uma atração louca. Divorciado, se conheciam desde os 19 anos e desde a primeira vez que a viu, encantou-se com ela. Mas aquela garota sempre fez jogo duro. Aliás, não só com ele mas com vários rapazes que na época se apaixonaram por aquela garota linda, sensual e totalmente desligada dessa sua sensualidade. Isso a tornava ainda mais especial e desejável. Durante anos Aurélio a cortejou mas ela nunca deu abertura para algo mais que uma amizade. E ele se contentou com o que ela lhe oferecia. Até que conheceu Madalena e decidiu se casar deixando para trás o sonho de conquistar aquela menina que tanto o encantara. Duas décadas se passou até que um dia, assim do nada, se encontraram numa livraria de shopping e após um abraço sincero, foram até uma choperia colocar o papo em dia. Foi assim que a amizade colorida entre ambos começou. Uma reaproximação cautelosa por parte de Aurélio e uma entrega sincera por parte dela que via nele – pela primeira vez – uma possibilidade de um suposto amigo/amante. Conversaram bastante sobre o assunto e ela fez questão de deixar bem claro que não desejava nada além de sexo de vez em quando. Sem cobranças, sem chateações de ambas as partes. Ele poderia sair com quem quisesse e ela também e, quando batesse a vontade de estarem juntos, era só ligar. Simples assim!
No início até que ela achou que finalmente havia encontrado uma relação ideal. Os encontros eram gostosos, descontraídos, carinhosos, fogosos de ambas as partes. Os dois tinham uma química na cama que incendiava tudo. Bastavam se tocar e Vrummmm!!! O fogo se alastrava por toda a cama e por todo o quarto. Por fim, após a fome saciada, esgotados, porém satisfeitos, ficavam madrugada adentro conversando abraçadinhos, trocando confidências, experiências, falando do passado e por fim dormiam.
Tudo se encaminhava perfeitamente até que um dia, Aurélio levou-a para conhecer sua casa nova. Ao entrar, ela percebeu que a casa estava vazia contendo apenas uma bicicleta na sala, num dos quartos uma cama de casal, uma TV e um guarda roupa. Na cozinha apenas uma geladeira. Estranhando perguntou por que ele não tinha ainda mobiliado a casa. No que Aurélio respondeu prontamente olhando-a de forma direta:
“A casa está aguardando apenas que a futura senhora com seu tremendo bom gosto a decore”
Essa frase foi como um balde de água gelada caindo sobre ela. Naquela noite, simplesmente não conseguiu relaxar e muito menos fazer sexo com seu fiel parceiro.
Desculpando-se por sua péssima performance, disse que estava indisposta e que provavelmente a culpa seria de sua TPM e do estresse do trabalho. Estava precisando urgente de umas férias. Com essa desculpa despediu-se correndo e sumiu da vida dele. Nem mais um telefonema, nem mais uma simples saída para um chope. Após dois meses, Aurélio ligou perguntando o que estava acontecendo para sumir dessa forma e ela desculpou-se, dizendo que não estava dando pra falar. Muito trabalho.
E mesmo sentindo falta do amigo/amante, nunca mais o procurou. Muitas vezes sentia falta daquela gostosa intimidade mas o medo de um compromisso maior a paralisava e assim o tempo se passou e ele também nunca mais a procurou.
– Ei! Moça! Acorda! Vamos jantar? Esse filme me deu uma fome! – disse o amigo puxando-a pelo braço
-Ahn…sim claro! Também estou faminta – disse distraída com os olhos ainda perdidos nos olhos daquele desconhecido da “Biblioteca”
– Você conhece esse homem? – pergunta o amigo já interessado nessa novidade
– Não. Não o conheço.
“Ainda não” – pensa desviando seu olhar e seguindo com o amigo para a área de alimentação.

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2 comentários sobre “Capítulo IV – O cruzar dos olhares

  1. Querida,como amiga e irmã confidente,acho que conheço esta história,inclusive o medo de assumir um compromisso e esconder-se atrás de livros e da profissão, arrisque-se ,jogue-se,sempre vale a pena.Bjão

  2. Oh dona Dilaine! De novo respondendo com minha identidade e senha é? fazendo aquilo com aquilo do outro? kkkkkk
    E de mais a mais, isso é um conto literário e não a vida real mocinha! Não confunda alhos com bugalhos senão já viu né? Pode dar cralhos! kkk Obrigada pela visita e comentário. Bejitos

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