Capítulo III – Na entrada do cinema

Sexta-feira, vinte e uma horas. Após um dia exaustivo, decidiu fazer algo diferente. Saindo de sua rotina, foi para casa, tomou um banho relaxante, se trocou e saiu para pegar um cinema. Programa que há muito tempo não fazia. Sempre fora um cinéfilo desde sua adolescência. Quando jovem, não perdia uma matinê. Estava sempre por dentro dos lançamentos. Na fase adulta, após concluir a faculdade de cinema, não conseguiu seguir carreira por forças maiores, mas continuou apreciando a sétima arte. Adorava ir ao cinema com suas inúmeras namoradas. Casado, continuou por um tempo sendo um frequentador assíduo, mas, a vida a dois nem sempre dá oportunidade para o lazer. A vinda dos filhos, a necessidade de ganhar mais dinheiro, as brigas com a esposa que já começavam a se tornar parte da rotina…

Pouco a pouco, tudo que ele gostava de fazer como lazer, começou a ficar no esquecimento. Isso o sufocou até o dia em que deu um basta em tudo e saltou fora do casamento. Após muitas conversas com sua esposa, entraram num acordo amigável afinal, ela também não estava mais feliz naquela união. O amor que os unirá um dia, havia se extinguido e perceberam que já não dava para ficarem juntos. Antes saírem da relação enquanto ainda tinham respeito um pelo outro. E assim, terminou o casamento, mas iniciou uma grande e sólida amizade.

Já sua segunda união…

Começou como uma louca paixão, não podendo ficar um dia sem se verem ou se falarem. Juntos o tempo todo, decidiram se casar. Festa bonita afinal era o primeiro casamento dela e disso ela não abria mão. Muitos convidados, muitos gastos, uma viagem dos sonhos para Paris e, tudo parecia perfeito demais até retornarem da lua de mel e caírem na rotina. De início ainda havia aquele fogo da paixão de ambos os lados. Ele aos poucos – como todo homem – foi-se acomodando. Naturalmente foi deixando de fazer afagos, de querer a toda hora fazer amor, passaram a sair menos nos finais de semana. Ela, irritada com esse desleixo, certo dia não segurando mais a onda perguntou se havia outra no pedaço.

Ele riu da situação e disse não. Então por que você mudou tanto depois que voltamos de Paris? – questionou ela.

Ora meu amor, simples: a lua de mel acabou e agora somos mais um casal. Por que o espanto? É natural que os casais se acomodem após o casamento. Isso não a convenceu e a partir daí, a vida dos dois tornou-se um inferno. Ela, ciumenta, via em todas uma suposta amante. Não podia vê-lo conversando com nenhuma mulher fosse ela jovem ou velha. Tinha ciúmes até mesmo de sua irmã a quem sempre foi confidente, desde pequeno. Por conta desse ciúme doentio, teve que se afastar do convívio dela e por alguns anos, quase não se falaram. Três anos de inferno – foi o que ele pensou enquanto seguia para a bilheteria do cinema. A situação ficou tão tensa a ponto de uma vez ela trancá-lo no quarto para que não saísse de casa. Absurdo dos absurdos! Virei um prisioneiro daquela louca por dois dias! Sua sorte foi que seu celular estava no quarto e então após um dia, ligou para sua mãe e pediu que intercedesse. Foi uma longa e desgastada negociação até que ela consentiu em deixá-lo sair e ir embora com a mãe. No entanto, não foi dessa vez que se livrou dela. Louca e descontrolada inventou histórias sobre ele para seus irmãos e um deles decidiu tirar a limpo aquela situação. Brigaram feio e até polícia baixou levando ambos para a delegacia para esclarecimentos. Foi a gota d’água. Consultou um advogado e entrou com processo de divórcio. Uma longa batalha para reaver sua liberdade e paz de espírito.

Saiu do seu espaçoso apartamento deixando para trás tudo de valor além de seu carro, e uma polpuda renda. Foi depois desse casamento desastroso que decidiu que queria viver sozinho. Não se envolver com mais ninguém. Sua vida foi passada a limpo no trajeto até chegar ao hall do cinema. Coisa louca – pensou enquanto aguardava o início da sessão. Por que será que tudo isso voltou? Parece até que estou fazendo um balanço de minha vida! Será que vou morrer em breve? – pensou dando uma leve risada e olhando ao redor observou casais na fila. Distraído, passava os olhos em todos que saiam até que se viu preso por outros olhos que também passeava distraidamente pela multidão enquanto comentava com seu companheiro, o filme que acabaram de assistir. Era ela! E quase que  não a reconhecia, pois estava vestida de forma descontraída. De jeans, camisa branca com babados e sandália rasteira. Seus longos cabelos soltos, um par de brincos de argola e quase sem maquiagem. Parecia uma adolescente. E estava linda!

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