Neco Masca-Tabaco

Ele sempre frequentava os corredores daquele hospital. Figura comum que não costumava chamar a atenção de ninguém. Ainda mais que naquele andar situava-se a UTI e as equipes que se revezavam estavam sempre correndo de um lado para outro e  passavam batidos por ele. Aparentando ter todas as idades do mundo, era um homem de estatura mediana, nem magro nem forte, com rosto vincado de rugas. Cabelos crespos e brancos feito algodão. Olhar embaçado que trazia todas as vidas aprisionadas naquele globo ocular. Andar vagaroso, percorria aqueles corredores com os braços para trás batendo de leve as palmas das mãos. Quando cruzava com as pessoas, fossem elas da equipe médica ou visitante, levava a mão até seu chapéu de feltro surrado e balançava sua cabeça num visível movimento de cumprimento à antiga. Trajava camisa desbotada e uma calça cinza. Vira e mexe, ia para as janelas que davam para o jardim da Santa Casa e lá, mascava uma ponta de tabaco. E olhava. Olhava sempre. Uma figura que poderíamos definir aqui como um ser invisível.

Tarde de uma sexta-feira no ano de 1985. Já não me recordo o mês exato. No quarto 48, da ala feminina, sai de dentro do quarto uma mãe com o rosto transtornado de dor. Com as mãos que se revezam entre o rosto e o peito, é a própria imagem da dor. Dois médicos a acompanham e tentam acalmá-la.

– Por favor, se acalme dona Gertrudes. Está certo que o quadro clínico de sua filha é grave. Aliás, como disse há pouco, é gravíssimo. Mas temos que confiar que faremos todo o possível para reverter esse quadro. – disse o doutor Floriano, chefe da equipe.

– O doutor Floriano tem razão dona Gertrudes. E além da equipe médica, a senhora tem que se apegar com Deus. A senhora é religiosa? Acredita numa força maior? – pergunta a Doutora Teresa. Olhando os dois, dona Gertrudes respira fundo, assoa o nariz e diz que o que a tem segurado nesses meses difíceis é justamente sua fé em Deus.

– Ótimo senhora. Continue a orar pela menina. Enquanto isso, nós da equipe vamos nos empenhar para encontrar a cura. Agora precisamos ir. Temos outros pacientes para visitar. Boa tarde. E assim, ficando a sós no corredor da UTI, dona Gertrudes inicia uma de suas inúmeras conversas secretas com Deus. Está numa oração tão fervorosa e de forma tão meditativa, que se assusta quando aquele senhor a aborda.

– Feliz daquele que tem fé inabalável e não se deixa abater por adversidade. Deus a abençoe minha senhora. De longe vi sua aura iluminada graças as suas oração. Fique tranqüila. Sua fia há de se curá. Vai ficar boazinha porque ainda não chegô sua hora.

– Oh meu senhor! Que susto me deu! Não o tinha visto por aqui. Pra mim, eu estava sozinha.

– Nunca tamo sozinho minha senhora. Tenha plena certeza disso.

– Estava de lado quietinho mascano meu tabaco e, descurpe, ouvi sua conversa com os doutô. Já tive por aqui antes e já vi sua menina sendo levada por enfermeiros para fazê vários exame. Ela é uma menina linda que por hora tá muito judiada pela doença. A senhora tem fé. Muita fé não é mesmo? Pude percebê isso de longe.

– Sim meu senhor. Se não fosse a fé que carrego no peito, acho que a essa altura já teria morrido. São tantas as dificuldades e sofrimento que venho passando desde que casei que às vezes me pergunto como tenho conseguido sobreviver. Mas é ela, a fé, que tem me sustentado.

– Fico contente em ouvi isso da senhora. Ainda mais que hoje em dia as pessoa andam tão descrente de tudo. Tão descrente que nem nos vê. Passam por nóis feito zumbi.

– É mesmo. O senhor tem toda razão

– Quar sua graça senhora?

– Gertrudes, prazer. E o senhor?

– Pode me chamá de Neco Masca-Tabaco.

– Nome engraçado! Deculpe, não estou faltando com o respeito com o senhor não.

– Sei disso dona. Me diz uma coisa: para sarvá sua minina, confiaria em mim?

– O que o senhor quer dizer com isso?

– Quero dizer que benzo as casa. E gostaria de benzê a sua para ajudá a minina a ficá boa de novo.

– Bom, para salvar minha filha faço qualquer coisa. Mesmo que pareça loucura para os outros.

– Se a senhora ta indo embora, posso acompanhá e fazer a benzeção hoje mesmo. Garanto que amanhã a menina já apresenta miora.

– Vamos então.

Durante o trajeto da viagem até sua residência, dona Gertrudes pouco a pouco foi sentindo um bem estar se instalar em seu coração ao lado daquele desconhecido. O senhor só falava coisas boas e otimistas semeando algo que há muito tempo ela não sentia: Paz!

Ao chegarem em casa, ele primeiramente tirou seu chapéu e, com olhos lacrimejantes, mirou  o alto e abençoou aquela casa. Já dentro, pegou um terço de dentro de seu bolso da calça e com movimentos suaves começou uma cantilena numa língua desconhecida e foi andando por todos os cantos da sala, depois os quartos, depois a cozinha, banheiro e finalmente, saiu para o quintal. Olhando para as estrelas que já brilhavam no céu, rogou à Deus proteção para aquela família e, em especial, para aquela menina no hospital. Parecia num transe sem fim. Andava de forma maquinal por todo lado do quintal e pronunciava palavras num dialeto que não se entendia nada. Ao término de sua reza, o homem virou e pediu uma Marafa. Dona Gerturdes ficou sem entender o pedido. Vendo sua incompreensão, o velho deu uma gargalhada e disse: Pinga fia! Pinga pro véio. Ocê tem em casa?

– Ah! Entendi. Vou pegar um copo. Meu marido sempre tem uma garrafa, pois gosta de tomar uma caipirinha de vez em quando. Após tomar a tal da “marafa”, seu Rubião, o marido de dona Gertrudes já tinha chegado do serviço e estava a par da toda a história. Neco Masca-Tabaco pegou seu chapéu e despedindo-se do casal foi se dirigindo a porta.

– Acompanha ele até a estação Rubião!

– Não carece dona. Sei o caminho.

– Sem problemas seu Neco. Acompanho o senhor.

– Adeus fia! Não tornaremo a se vê. Mas saberei da miora de sua minina. Tenha fé sempre!

– Obrigada por tudo seu Neco. O senhor é realmente um anjo! Vá com Deus! Olhando e sorrindo para ela, Neco disse: “Ele sempre me acompanha dona! Sempre” Passado vinte minutos, eis que seu Rubião entra em casa ressabiado e pálido.

– Gê, se te contar não vai acreditar!

– O que foi homem? Tá pálido! Tentaram te assaltar foi?

– Não! Nada disso! Acredita que quando chegamos à estação, o Neco despediu-se de mim e ao virar as costas e seguir em direção da catraca…Sumiu! Bem na minha frente! Sumiu! Evaporou-se! Com os olhos úmidos de emoção e compreendendo toda a situação, dona Gertrudes abraçou  Rubião e disse: Eu sabia que ele não era desse mundo! Eu sabia! Obrigada meu Deus por ter mandado um anjo seu para nos ajudar!

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Capítulo III – Na entrada do cinema

Sexta-feira, vinte e uma horas. Após um dia exaustivo, decidiu fazer algo diferente. Saindo de sua rotina, foi para casa, tomou um banho relaxante, se trocou e saiu para pegar um cinema. Programa que há muito tempo não fazia. Sempre fora um cinéfilo desde sua adolescência. Quando jovem, não perdia uma matinê. Estava sempre por dentro dos lançamentos. Na fase adulta, após concluir a faculdade de cinema, não conseguiu seguir carreira por forças maiores, mas continuou apreciando a sétima arte. Adorava ir ao cinema com suas inúmeras namoradas. Casado, continuou por um tempo sendo um frequentador assíduo, mas, a vida a dois nem sempre dá oportunidade para o lazer. A vinda dos filhos, a necessidade de ganhar mais dinheiro, as brigas com a esposa que já começavam a se tornar parte da rotina…

Pouco a pouco, tudo que ele gostava de fazer como lazer, começou a ficar no esquecimento. Isso o sufocou até o dia em que deu um basta em tudo e saltou fora do casamento. Após muitas conversas com sua esposa, entraram num acordo amigável afinal, ela também não estava mais feliz naquela união. O amor que os unirá um dia, havia se extinguido e perceberam que já não dava para ficarem juntos. Antes saírem da relação enquanto ainda tinham respeito um pelo outro. E assim, terminou o casamento, mas iniciou uma grande e sólida amizade.

Já sua segunda união…

Começou como uma louca paixão, não podendo ficar um dia sem se verem ou se falarem. Juntos o tempo todo, decidiram se casar. Festa bonita afinal era o primeiro casamento dela e disso ela não abria mão. Muitos convidados, muitos gastos, uma viagem dos sonhos para Paris e, tudo parecia perfeito demais até retornarem da lua de mel e caírem na rotina. De início ainda havia aquele fogo da paixão de ambos os lados. Ele aos poucos – como todo homem – foi-se acomodando. Naturalmente foi deixando de fazer afagos, de querer a toda hora fazer amor, passaram a sair menos nos finais de semana. Ela, irritada com esse desleixo, certo dia não segurando mais a onda perguntou se havia outra no pedaço.

Ele riu da situação e disse não. Então por que você mudou tanto depois que voltamos de Paris? – questionou ela.

Ora meu amor, simples: a lua de mel acabou e agora somos mais um casal. Por que o espanto? É natural que os casais se acomodem após o casamento. Isso não a convenceu e a partir daí, a vida dos dois tornou-se um inferno. Ela, ciumenta, via em todas uma suposta amante. Não podia vê-lo conversando com nenhuma mulher fosse ela jovem ou velha. Tinha ciúmes até mesmo de sua irmã a quem sempre foi confidente, desde pequeno. Por conta desse ciúme doentio, teve que se afastar do convívio dela e por alguns anos, quase não se falaram. Três anos de inferno – foi o que ele pensou enquanto seguia para a bilheteria do cinema. A situação ficou tão tensa a ponto de uma vez ela trancá-lo no quarto para que não saísse de casa. Absurdo dos absurdos! Virei um prisioneiro daquela louca por dois dias! Sua sorte foi que seu celular estava no quarto e então após um dia, ligou para sua mãe e pediu que intercedesse. Foi uma longa e desgastada negociação até que ela consentiu em deixá-lo sair e ir embora com a mãe. No entanto, não foi dessa vez que se livrou dela. Louca e descontrolada inventou histórias sobre ele para seus irmãos e um deles decidiu tirar a limpo aquela situação. Brigaram feio e até polícia baixou levando ambos para a delegacia para esclarecimentos. Foi a gota d’água. Consultou um advogado e entrou com processo de divórcio. Uma longa batalha para reaver sua liberdade e paz de espírito.

Saiu do seu espaçoso apartamento deixando para trás tudo de valor além de seu carro, e uma polpuda renda. Foi depois desse casamento desastroso que decidiu que queria viver sozinho. Não se envolver com mais ninguém. Sua vida foi passada a limpo no trajeto até chegar ao hall do cinema. Coisa louca – pensou enquanto aguardava o início da sessão. Por que será que tudo isso voltou? Parece até que estou fazendo um balanço de minha vida! Será que vou morrer em breve? – pensou dando uma leve risada e olhando ao redor observou casais na fila. Distraído, passava os olhos em todos que saiam até que se viu preso por outros olhos que também passeava distraidamente pela multidão enquanto comentava com seu companheiro, o filme que acabaram de assistir. Era ela! E quase que  não a reconhecia, pois estava vestida de forma descontraída. De jeans, camisa branca com babados e sandália rasteira. Seus longos cabelos soltos, um par de brincos de argola e quase sem maquiagem. Parecia uma adolescente. E estava linda!