Alforria

Minha história é mais ou menos assim:
Um belo de um dia acordei, olhei pro teto ainda no escuro e decidi: não quero mais essa vida! Não quero mais acordar às seis da manhã, fazer meu café, me trocar, pegar o metrô e chegar ao trabalho todo santo dia e fazer as mesmas coisas. Não aguento mais essa rotina! Vou zerar essa minha vida burguesa de classe média.
Levanto. Vou ao banheiro. Estou prestes a abrir o chuveiro para uma ducha quando paro e decido: se quero realmente mudar, devo começar por aqui.

Pra que banho?
Volto pro quarto, boto um jeans, uma camiseta velha, coloco o tênis mais surrado que tenho. Começo a pentear meus cabelos e paro.

Fazer o de sempre Malú?
Desgrenho ele todinho. Olho-me no espelho e gosto do que vejo.

Maquiagem? Nem pensar!
Abro o guarda roupa e analiso. Não vou levar nenhum desses terninhos de trabalho. Não vou precisar mesmo! Sapatos de salto agulha?

Nunca mais! Me dei alforria!

Abro as gavetas de lingeries. A primeira só tem conjuntos rendados, pra lá de cavados. Muito sexy.

Não me servem mais.

Chega de bancar Dita von Teese pra marmanjos que só babam pelos nossos orifícios nas terras baixas. Cansei de ser vitrine.
Abro a segunda gaveta e encontro meus lingeries de cotton. Brancas e beges. Aquelas calçolas imensas que dão arrepios nos mesmos marmanjos. Só que arrepios de horror. Eles as acham horrorosas!

São essas que vou levar.
Numa mochila enfio meus lingeries básicos, meias soquetes, três camisetas e mais uma calça jeans.

É o suficiente.
Dou uma boa olhada em meu quarto. Vejo meus inúmeros vidros de perfumes, meus cremes hidratantes, meus óleos e sais pra banho.

Não me servem mais.
Ligo meu note e redijo uma carta de demissão agradecendo pelos anos de confiança que depositaram em mim, desculpando por sair de forma tão abrupta e impessoal. Como não comparecerei ao escritório para tratar das formalidades que as leis trabalhistas impõem tanto ao contratante quanto a contratada, deixo claro que podem atestar abandono de emprego.
As consequências?

Não me importo.
Aproveito para também escrever uma carta de despedida para todos os meus conhecidos e familiares, os poucos que ainda mantenho contato. Explico que estou bem, que foi uma decisão sábia apesar de parecer loucura e que em breve mandarei notícias de onde estiver.
A única coisa que levo dessa antiga vida é o note e o celular. Vou radicalizar, mas ainda preciso desses instrumentos.

Enfio-os na mochila e saio do apartamento sem olhar para trás.
Fora do prédio sou batizada por uma boa garoa matinal que simboliza meu renascimento e purificação. Deixo para trás o que para muitos é status de sucesso e boas conquistas.
Saio sem rumo certo.

Sigo para a rodoviária do Tietê e lá escolherei um itinerário qualquer. Viverei assim. Um dia por vez. Sem planos, sem compromissos a não ser comigo mesma.

Quero a liberdade plena de escolha. Não importando que elas me tragam dissabores. Fazem parte da vida.

Dessa que por hora optei.

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6 comentários sobre “Alforria

  1. Pois é .estamos ,sempre almejando a liberdade ,mas como é difícil,uma vez que somos nós mesmos que criamos nossos grilhões.Poucas vezes temos coragem de romper com tudo e obtermos nossa alforria, sair da zona de conforto é difícil e doloroso,belíssimo texto.

    • Oi Di! É irmã a liberdade temum preço que nem sempre estamos preparados ou a fim de pagar. E tem também essa tal de zona de conforto que nos prende as facilidades da vida moderna. A alforria passa quase a aser uma quimera nunca alcançada pela maioria. Obrigada pela visita e comentário.

    • Oi Darley
      Que bom receber você por aqui. Amiga, a questão de ser burrice é relativa. Depende do ponto de vista de cada um e também de suas opções. De qualquer maneira, isso é apenas um texto literário. Uma pequena historieta para ler e se divertir, ou refletir, ou apenas achar que é mesmo uma burrice. Obrigada pela visita e comentário. Volte sempre

  2. Quem nunca sentiu vontade de jogar tudo para o alto?
    O que nos impede é essa tal de consequencia.
    Ter uma vida financeira estabilizada pode ser sinónimo de felicidade para a maioria, mas não para todos, porém é tão dificil correr atráz de nossos sonhos.
    Adorei sua “historieta”.
    Às vezes tenho vontade de escrever contos, mas acabo fazendo textos enormes, que se forem desenvolvidos pode dar um bom livro. No final ficam inacabados… rs…
    Um dia eu acerto o passo com os contos.
    Grande abraço

    • Que bom receber você aqui! Sabe eu também sofro disso. Começo a escrever e vou embora, kkkkkkkk Tenho várias histórias começadas. Mas um dia a gente termina. Abraço e volte sempre.

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