Por entre camadas

Naquela madrugada chuvosa ela acordou se sentindo estranha. A lua que não se mostrava invadiu seu quarto iluminando sua nudez. O brilho prata denunciava de forma macro, cada poro de seu corpo nú.

Uma música ao longe tocava dando um toque mágico aquele momento. A doce voz de Nora Jones soava lindamente.

Sentou-se na cama, acendeu a luz e viu seu corpo refletido no espelho. Seu reflexo mostrava-a vinte, talvez trinta anos mais velha. Era outra mulher. De um pulo, chegou próxima e começou a analisar aquela desconhecida senhora. Observou cada ruga impressa naquele flácido rosto. Seus olhos, verdes, ainda eram os mesmos. Isso ela reconheceu. No entanto, perdera o brilho da juventude. Eram agora opacos. Caídos. Tristes. Pesados. Imensas bolsas pendiam debaixo deles. Vincos profundos marcavam seus lábios, outrora carnudos. Hoje, não passavam de um risco mal feito no rosto. Suas bochechas que no passado foram rosadas, lisas como pêssego, por hora se mostravam murchas, acinzentadas e cheias de pregas. Ao constatar esse fato, abriu sua boca e mostrou seus dentes numa atitude de revolta com o que via. Seus olhos se projetaram pra frente ao ver que seus belos e brancos dentes não passavam agora de matéria apodrecida e sem vida.

– Oh não! Só pode ser um pesadelo isso!

Sim. Sem dúvida ela vivenciava uma típica história Kafkaniana ou  quando muito, uma personagem de Marie Darrieussecq.

Que transformação era aquela por qual passava? Como isso era possível?

– Será que tomei algo diferente ontem? Injetei algo estranho? Experimentei um barato novo no mercado?

No entanto, diante de tantas questões absurdas sem respostas, eis que observa seu corpo e constata algo inusitado. Ao contrário de seu rosto, seu corpo ainda se mantinha jovial, curvilíneo, belo.

Andou alguns passos para trás para contemplar melhor o todo. Seus seios ainda eram fartos mas firmes. Com seus bicos róseos e empinados. A gravidade ainda não tinha decretado seu fim. Sua barriga lisinha, sem gorduras, sua cintura fina.

Virou-se.

O que viu a deixou ainda mais feliz e excitada. Suas nádegas eram lindas! Arredondadas, arrebitadas, lisas, sem nenhuma celulite ou estrias. O sonho de toda mulher! Passou um bom tempo se namorando.

Depois olhou para suas pernas. Nunca havia reparado direito em suas pernas! Eram perfeitas. Bem torneadas, firmes, sem nenhum vazinho a enfeitar aqueles pilares que a sustentavam.

Sorriu.

Sentou-se a beira da cama e abriu as pernas para apreciar suas partes íntimas. Que bela flor trazia entre as pernas! Pétalas cheias, rosadas, com seu miolo saindo levemente pra fora e se encontravam úmidas.

Pensou consigo: Que belo jardim tens em seu meio! Trate-o bem! Não o entregue mais a qualquer jardineiro. Contrate apenas um profissional que além de experiência, tenha amor ao que faz.

Olhava pra si e olhava para o seu reflexo no espelho. Sentiu vontade de se amar.

Amou-se.

E quanto mais se tocava, e se olhava, e se lambia, e se cheirava mais feliz se sentia. Iniciou uma dança louca, onde a única música ainda era a voz sensual de Nora Jones ao longe. Mas aqui, entre as quatro paredes de seu quarto, somente o som ofegante de seu prazer vindo à tona e o esfrega, esfrega de suas mãos se movendo dentro de si é que se era ouvido. Suas pernas aos poucos foram se amolecendo não aguentando mais o peso de seu corpo. Deitou-se de costas e ainda mirando sua imagem no espelho, pouco a pouco viu sua imagem se transformando.

O prazer estava estampado em seu rosto.  Sua tez que antes se mostrava pálida, sem vida, surgiu corada e luminosa. Agora o que aparecia eram rugas sim. Mas rugas de alegria, de prazer. Seus olhos se encontravam injetados mas com um brilho que há muito tempo não via. Seus cabelos, agora revoltos e desarrumados davam-lhe um ar sensual, animal.

Sentia-se uma verdadeira potranca! E pensando isso saiu da cama, levantou uma de suas pernas e escoiceou o ar soltando um rosnado. Ainda se mirando no espelho, jogou-se novamente à cama e caiu numa gostosa e contagiante gargalhada.

Riu até ficar em cólicas. Arqueou-se, abriu novamente suas belas pernas, acarinhou novamente seus belos e tesos seios.

Mexeu em suas madeixas de forma sensual, rosnou um !Ai que delícia!! e continuando a rir sozinha, adormeceu.

E dormindo voltou ao seu estado natural ressonando com seus lábios carnudos e vermelhos entreabertos.

Alforria

Minha história é mais ou menos assim:
Um belo de um dia acordei, olhei pro teto ainda no escuro e decidi: não quero mais essa vida! Não quero mais acordar às seis da manhã, fazer meu café, me trocar, pegar o metrô e chegar ao trabalho todo santo dia e fazer as mesmas coisas. Não aguento mais essa rotina! Vou zerar essa minha vida burguesa de classe média.
Levanto. Vou ao banheiro. Estou prestes a abrir o chuveiro para uma ducha quando paro e decido: se quero realmente mudar, devo começar por aqui.

Pra que banho?
Volto pro quarto, boto um jeans, uma camiseta velha, coloco o tênis mais surrado que tenho. Começo a pentear meus cabelos e paro.

Fazer o de sempre Malú?
Desgrenho ele todinho. Olho-me no espelho e gosto do que vejo.

Maquiagem? Nem pensar!
Abro o guarda roupa e analiso. Não vou levar nenhum desses terninhos de trabalho. Não vou precisar mesmo! Sapatos de salto agulha?

Nunca mais! Me dei alforria!

Abro as gavetas de lingeries. A primeira só tem conjuntos rendados, pra lá de cavados. Muito sexy.

Não me servem mais.

Chega de bancar Dita von Teese pra marmanjos que só babam pelos nossos orifícios nas terras baixas. Cansei de ser vitrine.
Abro a segunda gaveta e encontro meus lingeries de cotton. Brancas e beges. Aquelas calçolas imensas que dão arrepios nos mesmos marmanjos. Só que arrepios de horror. Eles as acham horrorosas!

São essas que vou levar.
Numa mochila enfio meus lingeries básicos, meias soquetes, três camisetas e mais uma calça jeans.

É o suficiente.
Dou uma boa olhada em meu quarto. Vejo meus inúmeros vidros de perfumes, meus cremes hidratantes, meus óleos e sais pra banho.

Não me servem mais.
Ligo meu note e redijo uma carta de demissão agradecendo pelos anos de confiança que depositaram em mim, desculpando por sair de forma tão abrupta e impessoal. Como não comparecerei ao escritório para tratar das formalidades que as leis trabalhistas impõem tanto ao contratante quanto a contratada, deixo claro que podem atestar abandono de emprego.
As consequências?

Não me importo.
Aproveito para também escrever uma carta de despedida para todos os meus conhecidos e familiares, os poucos que ainda mantenho contato. Explico que estou bem, que foi uma decisão sábia apesar de parecer loucura e que em breve mandarei notícias de onde estiver.
A única coisa que levo dessa antiga vida é o note e o celular. Vou radicalizar, mas ainda preciso desses instrumentos.

Enfio-os na mochila e saio do apartamento sem olhar para trás.
Fora do prédio sou batizada por uma boa garoa matinal que simboliza meu renascimento e purificação. Deixo para trás o que para muitos é status de sucesso e boas conquistas.
Saio sem rumo certo.

Sigo para a rodoviária do Tietê e lá escolherei um itinerário qualquer. Viverei assim. Um dia por vez. Sem planos, sem compromissos a não ser comigo mesma.

Quero a liberdade plena de escolha. Não importando que elas me tragam dissabores. Fazem parte da vida.

Dessa que por hora optei.